Empresa que abalou o monopólio da Globo negocia direitos, opera transmissões e move a engrenagem bilionária das lives de futebol
Por Greg Prudenciano, compartilhado de Ivest News
A CazéTV tem o rosto, a voz e o jeito de Casimiro Miguel. No ar, tudo parece espontâneo, artesanal, quase improvisado. A aparência esconde uma estrutura sofisticada de direitos esportivos, fundos de investimento e executivos do mercado financeiro.
O canal é controlado integralmente pela LiveMode, empresa dona da operação, da marca e dos direitos sobre o nome e a imagem de Casimiro, que deixou de ser sócio direto do canal para integrar a holding do grupo.
A LiveMode é uma empresa de origem brasileira, mas que se expandiu internacionalmente e tem hoje operações em vários países. Sua holding está sediada nas Ilhas Cayman. Seus sócios fundadores são Edgar Diniz e Sérgio Lopes e entre seus acionistas estão empresas financeiras, sócios executivos, o próprio Cazé e atletas como Cristiano Ronaldo.
Na operação brasileira, em 2024, a empresa ganhou um novo sócio, o XP Private Equity II FIP, estruturado pela XP. Por outro lado, a instituição financeira também estruturou e administra fundos que são donos de 20% de transmissão dos hoje 33 clubes de futebol que fazem parte da FFU (antes conhecida como Liga Forte União, LFU).
Até pouco tempo atrás, em um evento esportivo de grande porte, como a Copa do Mundo, cada “pedaço” da operação era negociado com uma empresa. A Globo, por exemplo, comprava os direitos de transmissão. Agora, na era CazéTV, é diferente. Há uma verticalização: a LiveMode – como representante da Fifa – negocia direitos esportivos e, como dona da CazéTV (principal canal que transmite parte desses eventos), compra esses mesmos direitos. Esse mesmo modelo verticalizado vem sendo aplicado por outras empresas, como a americana Live Nation, em shows no Brasil e nos Estados Unidos.
O olho do dono
Edgar Diniz e Sérgio Lopes, dois dos sócios-fundadores da LiveMode, conhecem o mercado de transmissão esportiva muito antes da ascensão e da popularização de Casimiro.
Em 2007, criaram o Esporte Interativo, que começou na parabólica e cresceu no meio digital quando Globo e Band o ignoravam. A CazéTV parece nova, mas o modelo tem quase duas décadas: em 2007, à Máquina do Esporte, Carlos Moreira Jr., sócio-fundador da TV Esporte Interativo, já media a reação do público por SMS e Orkut e transformava interação em inteligência comercial.

Muitos anos depois, a LiveMode voltou para disputar a cadeia dominada pela Globo. O momento ajudava. A Lei do Mandante, de 2021, deu ao clube mandante o poder de negociar a transmissão da partida, o que enfraqueceu o pacote único da Globo e abriu espaço para blocos de clubes venderem direitos de transmissão em conjunto.
A Globo, em reorganização financeira, passou a comprar seletivamente; o YouTube avançava sobre a linguagem da TV com sua plataforma pela internet; e o futebol atraía fundos que enxergavam nos direitos um ativo financeiro. Nessa equação, a LiveMode ajudou a montar a hoje Futebol Forte União (FFU), bloco que se opôs à Libra — rival que fechou contrato bilionário com a Globo. Mais tarde, a própria Globo se tornaria compradora de direitos adquiridos pela FFU.
O fenômeno CazéTV
A Copa de 2022 foi a prova de conceito. A LiveMode era agência da FIFA no Brasil e tentava vender os direitos digitais. A Globo abriu mão da exclusividade no streaming, e a LiveMode ficou com o pacote por cerca de US$ 3 milhões, segundo apurou o InvestNews com fontes envolvidas na negociação — uma pechincha comparada aos US$ 90 milhões anuais que a Globo pagava à FIFA.
O pacote valia pouco sem uma operação que o transformasse em audiência, e a LiveMode tinha a CazéTV. Durante a Copa, o canal explodiu e Casimiro se consagrou como o rosto de uma nova forma de assistir futebol, com uma linguagem que dialogava com o torcedor. Hoje soma dezenas de milhões de inscritos e será, no Brasil, a única forma de ver os 104 jogos da Copa de 2026.
O sucesso da transmissão via streaming abriu os cofres, tanto para a LiveMode quanto para os clubes.
No caso da LiveMode, em abril de 2024, a gigante gestora americana General Atlantic e o fundo de private equity da XP fizeram um aporte minoritário na empresa, de valor não divulgado. Estima-se no mercado que a dupla teria investido cerca de R$ 450 milhões na empresa de mídia.
Pelo lado dos clubes, o sucesso levou os então 25 times da FFU a ceder, em novembro de 2023, 20% das suas receitas futuras com direitos de transmissão por cerca de R$ 2,6 bilhões, a um consórcio formado por Life Capital Partners e o fundo Sports Media Advisory FIP, da XP. Investidores passaram a ter remuneração atrelada à receita futura de TV e mídia dos clubes por cinco décadas, de 2025 a 2075. No negócio, os clubes receberam, juntos, cerca de R$ 1,2 bilhão como adiantamento.
Uma vez formada a FFU, a LiveMode foi contratada para representar comercialmente o bloco. À época, a empresa já tinha uma participação de 51% da CazéTV, que ficou com o direito de exibição de jogos do Campeonato Brasileiro após fechar acordo com o YouTube, um dos compradores.
No fim, a Globo, Record e Amazon Prime também compraram da LiveMode o direito de exibir jogos dos times da FFU.
Ao InvestNews, a LiveMode complementou, após a publicação inicial desta reportagem, que a operação levou à “maior negociação da história do futebol brasileiro, com contratos que somam mais de R$ 8,5 bilhões ao longo de cinco anos, equivalente a R$ 1,7 bilhão por ano.”
A empresa informou que a estrutura gerou aumento anual de receitas aos clubes de aproximadamente 110%, em comparação com a média anual do ciclo de direitos anteriores, enquanto “a negociação da Libra com a Globo gerou aumento inferior a 30% nas mesmas bases”.
Desde o fim de 2024, o InvestNews vinha tentando entrevistar algum porta-voz da LiveMode, sem sucesso. Antes da publicação inicial desta reportagem em 13 de junho, a empresa foi novamente procurada, inclusive com o envio de perguntas por escrito. Preferiu não se manifestar, mas enviou explicações e complementos na noite de domingo, 14, que foram incorporados a este texto.
Faz tudo
Os clubes venderam seus direitos, anteciparam valores bilionários e aprovaram por unanimidade o modelo de governança previsto no acordo. Agora, em ambientes reservados, alguns começam a trabalhar nos bastidores para que seja reaberta a negociação sob a alegação de que haveria um potencial conflito de interesse pelo fato de a LiveMode atuar tanto na ponta vendedora dos direitos de transmissão como na compradora.
Por trás da transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2026, existe uma disputa bilionária pela sua atenção. #transmissão #copadomundo #futebol
Sobre o potencial conflito, a LiveMode informou que não houve até aqui dado concreto de que isso tenha acontecido ou de qualquer prejuízo aos clubes. Também reforçou que todas as estruturas ligadas à FFU – inclusive a da própria empresa de mídia esportiva – foram submetidas à governança do grupo e aprovadas pelos clubes participantes.
A disputa vai além da CazéTV: o próximo ciclo de direitos do Campeonato Brasileiro, a partir de 2030, e da próxima Copa tende a ser uma disputa acirrada para estabelecer quem decide o que vender, para quem e por quanto. Com um tempero adicional: a própria Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está interessada em organizar uma liga de clubes.

O modelo inédito da LiveMode levanta debates sobre governança no mercado. A LiveMode, por sua vez, diz que todas as suas funções e estruturas foram apresentadas de forma transparente e aprovadas por unanimidade pelas agremiações no momento da assinatura.
— Colaborou Rikardy Tooge.







