Confesso que Servi

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Sabe do Forrest Gump, aquele personagem inesquecível do Tom Hanks? Pois é, eu acho que eu sou uma versão brasileira dele. Não é que eu fui mesário nas eleições para presidente em 1989? Primeira eleição. Logo pra presidente. Que responsa. Deveria ter dado Brizola. Deu Fernando Collor, o “caçador de marajás”, em cima de um Lula ainda de barba negra.


Em 1990, eu fui para o exército. Provavelmente por ser alto, me enviaram para o BG – o Batalhão de Guardas, situado em São Cristovão. De uma hora para outra, tosaram seu cabelo e algumas palavras começaram a dominar meu léxico: “conscrito”; “negão”; “ranchar”; “bisonho”; “coturno”; “cobertura”; “mijada”; “Selva”. Além, é claro, dos comandos: Sentido! Meia-volta, volver! Olhar à direita! Descansar!





De uma hora para outra você tem um fuzil 7.62 para passear o dia inteiro, o tal do FAL (Fuzil Automático Leve), armamento belga – eu só fui entender anos depois que aquele troço pode ter sido usado contra Lumumba. De uma hora para outra, de tanta ordem unida, você começa a andar como se estivesse marchando em qualquer lugar.


Eu não esqueço desses números: 2346. 100596. O primeiro, meu número de guerra. O segundo, a numeração do meu fuzil. Aprendemos a atirar com ele. Não é difícil. Aprendemos a limpá-lo com uns panos sujos embebidos em óleo. Aprendemos a lustrar as botas e a passar Kaol nas fivelas.


Quanto à hierarquia militar, um exemplo básico. Uma galinha cozida ao molho de tomate é dividida da seguinte forma: peitos, para os oficiais; coxas, para os subtenentes e sargentos; o resto, para os soldados.


Eu tenho algumas fotos daquela época. Eu era bem jovem, cabelos bem próximos do louro, de gandola com o braçal do BG, tão distintivo quanto o da PE. Nem sinal de cabelos brancos. Éramos todos jovens. Até o segurança do comandante era jovem, meu Deus, a pistola parecia ser de brinquedo nas mãos dele.


Um minuto de silêncio. Muitos soldados da minha Companhia foram mortos em disputas do tráfico tão logo deram baixa. Todo mundo na capa do jornal “O Povo”. Coisas de trinta e seis anos atrás. Quando faço as contas, percebo que já se passaram dois alistamentos depois do meu alistamento.


Conheci gente boa e gente ruim. Gente que arrumava encrenca por qualquer motivo, como o Costa. Viciados e ladrões, como o Nilton. Homossexuais como o Batista. Brigões. Dois soldados brigaram no Cassino dos Oficiais. Um rasgou a cara do outro com uma taça. Pegou cadeia. Voltou malvadão. Muitos rapazes enlouqueceram, como foi o caso do Herbert e do Giovanni. Este último pegou cadeia por ter interceptado um casaco. Dali ficou panqueca.


Eu acho que eu nunca me recuperei. A gargalhada dos macacos no “Estande de Tiro”. Onde já se viu um estande de tiro dentro de um Jardim Zoológico? Nilton vendendo na Mangueira uma caixa de munição 9mm – a munição das pistolas e das Berettas.

A gente correndo por São Cristovão, por vezes cerca de 1000 homens. Serviços e mais serviços. Palácio Duque de Caxias. Monumento dos Pracinhas. Estande de Tiro. O quartel mesmo. Hospital Central do Exército. A depender do grupo, dormia-se quatro horas por noite.

Eu vi coisas que ninguém me contou. Velhos e prostitutas. Prostituta com um corte purulento no rosto. Pessoas transando na rua. O sujeito passando cocaína em um dos bicos do seio da moça. Um maluco esticando uma rapa de Sapóleo para o Leal cheirar. Era para ter sido uma brincadeira, mas Leal não resistiu. Pó dá uma onda boa para quem tira serviço. “Infante é o guerreiro que mata guerrilheiro”, era uma das estimulantes cantigas que cantávamos enquanto íamos em comboio pelas ruas.


Ainda teve uma Copa do Mundo pelo meio. Eu estava em casa quando Maradona dá aquele passe para Caniggia marcar o gol da Argentina sobre nós.


Como éramos ingênuos, mal-formados, mal informados. Essa era a juventude que não pretendia chegar ao poder? Estética. O tenente Marinho discorrendo sobre uma teoria da metáfora nas canções brasileiras de protesto. O caso de viola enluarada. “A mão que toca o violão/ se for preciso vai à guerra” ou coisa parecida. E eu me perguntava onde estaria a metáfora no caso em questão. E canções da Legião Urbana como “Geração Coca-Cola” como seriam classificadas?


Não sei, não sei. Quando dei baixa não quis voltar mais ao quartel. Vi-me obrigado a fazê-lo, entretanto, quando julguei ter perdido o certificado de reservista. Voltei ao BG para fazer uma segunda via do documento. Para minha surpresa, o quartel original do BG havia sido cedido à Guarda Municipal. O que sentiria David, soldado do meu pelotão que pediu para servir no Batalhão de Guardas porque fora lá que seu pai servira?


Por vezes sonho que estou de volta ao quartel. Que um sargento me aparece sem mais nem menos para me levar mais uma vez aos dormitórios de beliches que dão vista para os grandes tanques de gás da CEG.


Acaba que não sei se o que tenho para lhes dizer serve como experiência. O que aprendi com aquele banho de sangue de mangue de Brasil? Pouco? Muito? Difícil de mensurar. E o meu filho, que tem dezesseis anos. Será que ele vai servir? Como soldado raso? Acho que irei procurar uma peixada para ele.

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