Por Lourenço Paolillo, poeta e cronista
Enquanto caminham para a beira da praia, compositores comentam sobre as dificuldades que as cantoras enfrentavam no passado. Tempos difíceis para mulheres artistas em geral. As atrizes eram obrigadas a tirar uma carteira de saúde pública, igual à das prostitutas. Basta revisitar as declarações de Fernanda Montenegro e Laura Cardoso, por exemplo.
E as cantoras eram discriminadas pelas próprias famílias. Inezita Barroso (1925-2015) foi
aprender violão escondida, com os colonos e peões das fazendas de seus tios, no interior de São Paulo.
Alaíde Costa (1935) até hoje afirma que não foi convidada a fazer parte do grupo que se apresentou no histórico evento “Bossa Nova at Carnegie Hall”, em Nova York, na noite de 21 de novembro de 1962, por ser negra. Felizmente esta falha foi reparada em 8 de outubro de 2023, quase sessenta anos depois, quando foi ovacionada de pé, aos 87 anos, no evento “A Grande Noite – Bossa Nova”, no mesmo Carnegie Hall.
Hoje Alaíde canta Arvorear, de Joyce Moreno e Emicida, que revela sobre sua vivência:
“Boa sombra de abrigo
Descasque-se da culpa
Desligue-se da multa
O que meus calos dizem sobre mim?”
Maysa (1936-1977) era bem-vinda à família Matarazzo enquanto se apresentava com suas canções em saraus para os parentes e amigos íntimos. Ao decidir tornar-se cantora profissional, instalou-se um escândalo tal que levou ao fim do casamento.
Sem falar de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), rejeitada pela família e sociedade da época.
Elza Soares (1930 – 2022) foi vítima de racismo, machismo e elitismo. “Vinda do planeta da fome”, nas palavras a Ary Barroso, num programa de calouros.
– O que você veio fazer aqui?
– Eu vim Cantar!
– Me diz uma coisa, de que planeta você veio?
– Do mesmo planeta seu Seu Ary.
– E qual é o meu planeta?
– Planeta fome!
Dolores Duran (1930-1959), cantora e compositora de pérolas, como A Noite do meu Bem e Estrada do Sol, esta em parceria com Tom Jobim: “Negra, gorda e independente”.
O mesmo ocorreu em todo o mundo, sendo exemplos:
Billie Holiday (1915-1959) era obrigada a entrar pela porta dos fundos nos locais em que se apresentava.
Nina Simone (1933-2003), rejeitada até pelas instituições de música.
Edith Piaf (1915-1963), vítima de preconceito de classe e de machismo.
Reflexões tão significativas quebraram por alguns momentos a leveza do clima que vinha envolvendo o grupo de compositores.
E então eles se aproximam da beira da praia e sentam na areia para aguardar a chegada do sol.
Não poderia ser diferente. Recomeçam a dedilhar os violões. De repente Djavan junta Maria com Rosa, e chega à Maria Rosa, de Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves:
“Vocês estão vendo aquela mulher de cabelos brancos
Vestindo farrapos, calçando tamancos,
Pedindo nas portas,
Pedaços de pão
A conheci quando moça
Era um anjo de formosa
Seu nome é Maria Rosa
Seu sobrenome Paixão
Não é só necessidade
Cada um para ela
Representa uma saudade”…
Bate um aroma de magia no ar… um misto de amor, ternura, alegria e tristeza, tudo que as memórias trazem…
Gil, semblante emocionado, começa a cantar bem baixinho:
“Drão,
O amor da gente é como um grão
Uma semente de ilusão
Tem que morrer pra germinar
Plantar n’algum lugar
Ressuscitar no chão,
Nossa semeadura
Quem poderá fazer
Aquele amor morrer
Nossa caminha dura
Dura caminhada
Pela estrada escura”…
E o rosto de Gil vai se iluminando com os primeiros raios do sol. Escorrem algumas lágrimas.
Lourenço Paulillo
15 de setembro de 2026
Gravações originais das canções:
- Aurorear: 2022, Alaíde Costa
- A Noite do meu Bem: 1959, Dolores Duran
- Estrada do Sol: 1958, em três interpretações diferentes: Agostinho dos Santos, Sylvia Telles e Agnaldo Rayol
- Maria Rosa: 1950, Francisco Alves
- Drão: 1982, Gilberto Gil
- Sobre a referência Planeta Fome, trecho de fala de Elza Soares no site Vermelho.
Nota – Drão era o apelido carinhoso de Sandra Gadelha, terceira esposa de Gilberto Gil, e mãe de seus filhos Preta, Pedro e Maria.







