“A vida é como andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio, é preciso se manter em movimento” (Albert Einstein em uma carta enviada ao seu filho Eduard em fevereiro de 1930)
E não é que o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, quer pôr a perna no mundo numa bicicleta? Ele “viaja” nesta crônica, só não diz como levará no bagageiro a companheira Layla e os filhos Francisco e Cecília, pois, sabemos, não se separa deste trio de forma alguma. Talvez numa bicicleta de múltiplos pedais. Leiam, inspirado por uma personagem de documentário, César nos estimula a pedalar pela vida.
Na crônica “A árvore da vida”, Aldir Blanc nos conta como aprendeu a andar de bicicleta em uma praça em Vila Isabel. Teve ajuda do pai e tudo, lição para toda a vida. Entretanto, o cronista se concentra em contar não o sucesso, mas a trombada que ele dá em uma árvore, chegando a comparar a dor que deveras deve ter sentido com a aflição das estreias e afins.
Lembrei-me desta crônica do velho Aldir ao ver o documentário “O presente”, de Timothy Dhalleine. A história é basicamente a seguinte. Dimitri Poffé, 34 anos, descobre que tem a doença de Huntington: doença neuro degenerativa, incurável.
Sabendo do que o espera, ele decide viver a vida enquanto a doença não se instala. Ele larga o emprego pequeno-burguês, compra uma bicicleta, e parte para uma viagem pela América Latina, que começa no México e termina no Chile. Pelo caminho, ele encontra com pessoas que padecem do mesmo mal que o dele. É a campanha da conscientização.
As imagens da América Latina profunda são de tirar o fôlego. Eu, que não tenho, graças ao bom Deus, nenhuma doença degenerativa, mas em compensação tenho um emprego que parece não me levar a nenhum lugar, fiquei muito tocado pelas imagens. Cheguei a cogitar comprar uma bicicletinha, pedir um roteiro à Iaiá (a inteligência artificial) e me mandar América Latina afora, privilegiando o Deserto do Atacama no Chile.
Porque a mensagem do filme é esta: a vida precisa fazer sentido. Ou melhor, é mister dar sentido à vida. E, afora as dores nas nádegas, andar de bicicleta, em certas condições, é uma forma válida de se procurar alcançar o Nirvana.
Sonho meu! A bela ilha de Paquetá entra em meu devaneio como uma espécie de concentração. Isto é, antes de eu me aventurar América Latina afora, nos meus devaneios eu iria treinar dando voltas e mais voltas ao redor da ilha. Em meu treinamento, iria incluir passeios de pedalinho, porque, afinal de contas, haveria um momento em que eu teria de atravessar algum canto de mar.
Talvez eu tenha tido esse devaneio justamente em um momento delicado da política brasileira, e toda minha reação ao filme pode parecer uma espécie de escapismo de minha parte. É, o desejo da gente é bem matreiro.
Por outro lado, talvez não seja apenas mero escapismo, mas um desejo enorme de por a vida nos trilhos. Não sei ao certo.
Por via das dúvidas, se você souber quem está pondo à venda uma Berlineta, uma Monareta, pega o meu contato, porque pode rolar um negócio bom para as partes envolvidas. Eu te pago em PIX ou em BMX. Agora, se você tiver uma Tigrão, aí, meu amigo, a coisa muda de figura. Eu te pedirei de joelhos ralados para tê-la mais uma vez sob o meu guidon. E de lá eu irei pro céu, como que alcança o Nirvana.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019) e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







