Por Nereu Alves
Imagine o comerciante que condena o Bolsa Família, Lula e o PT, mas recebe no caixa as compras das famílias beneficiárias. O dinheiro entra, a venda acontece, a mercadoria sai. A indignação aguarda do lado de fora até o cliente terminar de pagar.
No Brasil, a ajuda do governo tem uma curiosa capacidade de mudar de nome. Quando chega à nossa família, vira oportunidade. Quando chega à família dos outros, vira esmola. Se ajuda a construir um patrimônio, recebe aplausos. Se ajuda a colocar feijão no prato, recebe fiscalização até da vizinhança.
Os italianos formaram uma das grandes correntes de imigração para o Brasil. Muitos atravessaram o oceano fugindo da fome e da miséria, buscando trabalho e uma oportunidade de reconstruir a vida. Além deles, vieram portugueses, espanhóis, alemães e outros europeus, muitos também empurrados pela necessidade. Japoneses, sírios e libaneses buscaram aqui um novo começo, por caminhos e em condições diferentes.
Muitos não trouxeram fortuna na bagagem. Trouxeram a urgência de sobreviver.
Parte dessa imigração contou com políticas de incentivo: passagens subsidiadas, hospedagem, alimentação e apoio para se estabelecer. Em projetos de colonização, houve acesso a lotes e auxílio para começar o cultivo. As condições variavam: terras e outros recursos podiam precisar ser pagos. Não houve uma distribuição igual de tudo para todos, nem prosperidade garantida.
Houve trabalho duro, exploração, sofrimento e ajuda. Reconhecer a mão estendida não diminui o valor de quem trabalhou. Apenas devolve à história a parte que a vaidade prefere apagar.
A ironia aparece algumas gerações depois. Há descendentes que conservam com orgulho o sobrenome dos antepassados, mas perderam pelo caminho a lembrança da necessidade. Celebram a família que encontrou uma oportunidade e condenam o brasileiro que precisa de uma.
A fome do bisavô virou uma bela história de superação. A fome do vizinho virou suspeita de preguiça.
Parece que a solidariedade tem prazo de validade: dura até a família comprar a primeira propriedade.
O Estado também ajudou negócios a crescer por meio de crédito favorecido, incentivos e subsídios. Empresas e patrimônios foram construídos com trabalho e, em muitos casos, com apoio público. Entretanto, na fotografia da prosperidade, alguns fazem questão de cortar o governo da imagem. Querem aparecer sozinhos, como se tivessem levantado o edifício sem chão, sem estrada e sem nenhuma mão estendida.
Depois apontam para quem recebe Bolsa Família e dizem: “Vive à custa do governo”.
A memória, nessas horas, fica convenientemente curta. Curta o bastante para esconder o próprio benefício e comprida o suficiente para alcançar o prato alheio.
Imagine o comerciante que condena o Bolsa Família, Lula e o PT, mas recebe no caixa as compras das famílias beneficiárias. O dinheiro entra, a venda acontece, a mercadoria sai. A indignação aguarda do lado de fora até o cliente terminar de pagar.
Na casa do pobre, aquele dinheiro seria um absurdo. No caixa do estabelecimento, vira receita.
O dinheiro destinado à alimentação circula pelo mercado, pela feira e pelos estabelecimentos do bairro. Ajuda a movimentar o comércio que, às vezes, faz coro contra quem compra nele.
É curioso desprezar o auxílio e apreciar o faturamento que ele ajuda a produzir.
Nenhum programa está acima da fiscalização. Nenhum governo está acima da crítica. Mas existe uma distância enorme entre cobrar responsabilidade e humilhar quem precisa comer. É nessa distância que se revela a pobreza de espírito.
Receber uma herança pode aumentar o tamanho do terreno. Não aumenta, necessariamente, a capacidade de enxergar o mundo. Há quem suba num pequeno monte de patrimônio e pense ter alcançado o alto da sabedoria. Lá de cima, olha os antigos semelhantes como se nunca tivesse pertencido à mesma paisagem.
Conhece a marca do uísque, o preço do carro, o nome da bolsa e a etiqueta do sapato. Mas pouco se interessa pelas decisões que determinam o salário, o acesso à saúde e as oportunidades de quem vive ao redor.
O patrimônio ganhou cerca. A consciência também.
Não é o sobrenome italiano, português, alemão ou de qualquer outra origem que produz essa arrogância. É a escolha de esquecer. Muitos descendentes honram seus antepassados justamente porque entendem o valor de acolher, repartir e oferecer oportunidades.
Outros guardaram a receita da comida, mas esqueceram a fome de quem a ensinou.
O Brasil precisa discutir seus gastos, seus programas e seus resultados. Precisa também discutir essa moral tão exigente com o pobre e tão compreensiva com o privilegiado.
Defender o trabalho exige reconhecer o esforço de quem continua trabalhando sem conseguir pagar todas as contas. Valorizar uma conquista exige honestidade sobre os apoios que ajudaram a torná-la possível.
Antes de condenar o prato de comida do vizinho, convém abrir os arquivos da própria história. Talvez ali esteja a passagem subsidiada, o crédito facilitado ou a oportunidade que permitiu à família começar.
A mão que ontem precisou ser estendida não deveria hoje apontar, com desprezo, para quem ainda espera uma oportunidade.
Porque atravessar uma ponte e depois querer destruí-la não é prova de mérito. É medo de dividir o caminho.







