A ignorância de Ernesto Paglia sobre Paulo Freire no Roda Viva é um retrato da mídia

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Por Kiko Nogueira, compartilhado de DCM

Paulo Freire

O veterano jornalista Ernesto Paglia deveria ter o repertório necessário para conduzir uma conversa sobre um dos maiores intelectuais brasileiros. O que se viu no Roda Viva, da TV Cultura, na segunda (17) foi um retrato triste da ignorância sobre Paulo Freire, tema que o entrevistador tratou com um admissão de “conhecimento superficial”.




Paglia quis saber de Paulo Blikstein, professor da Universidade de Columbia, nos EUA, o que Freire tem a ver com sua disciplina.

“Uma das suas atividades, na Universidade de Columbia, é liderar ali a iniciativa Paulo Freire, né? Eu queria entender onde é que Paulo Freire, este pedagogo dos anos 50 e 60 aqui no Brasil, que tem um importante trabalho reconhecido internacionalmente, mas que fala da ‘Pedagogia do Oprimido’, né, pelo menos é aquele do meu conhecimento superficial. E eu fico me perguntando onde é que isso se cruza com a sua linha atual de estudos, que é tecnologia de ponta”, questionou.

Primeiro, Paglia enquadra Freire como um “pedagogo dos anos 50 e 60”, ignorando que sua obra segue viva, citada e aplicada no mundo inteiro mais de seis décadas depois.

Segundo, restringe toda a produção freiriana a um único título — “Pedagogia do Oprimido”, de 1970 —, quando a obra de Freire inclui dezenas de livros que seguem sendo publicados e estudados até hoje na academia, mesmo após sua morte em 1997. Terceiro, e mais revelador, o próprio Paglia admite que seu repertório sobre o assunto é “superficial”.

Faltou lição de casa.

A resposta de Blikstein foi uma aula. Começou lamentando que Freire tenha sido transformado em motivo de divisão político-eleitoral no Brasil, comparado a temas como vacinas e mudança climática.

“Eu gostaria muito que as pessoas entendessem que, na verdade, ele é o grande intelectual brasileiro. Ele é o terceiro intelectual nas ciências sociais, inclusive incluindo a economia, mais citado no mundo. E ele é uma espécie do Pelé da academia mundial. Onde eu vou, as pessoas falam: ‘Ah, você é da terra do Paulo Freire’”, apontou.

Blikstein lembrou ainda que uma edição do New York Times de 1963 já registrava a experiência de Freire em Angicos, no Rio Grande do Norte, onde 300 cortadores de cana foram alfabetizadas em 40 horas de aula — o chamado “milagre de Angicos”, financiado à época pela USAID, num fato histórico que o próprio professor contextualizou ao citar a agência desmontada pelo governo Trump.

Blikstein também mostrou como a ideia de que a aprendizagem é mais eficaz quando é relevante para a vida, a cultura e a comunidade do aluno é hoje a base dos sistemas educacionais mais modernos do mundo — inclusive das escolas de elite de São Paulo e dos projetos de robótica e programação que aproximam a tecnologia da realidade das crianças.

“Essa ideia de aproximar a educação da vida do aluno hoje é um pouco uma obviedade, mas na década de 60, de 70, não era. Quem nos ensinou isso foi o mestre Paulo Freire”, falou.

Freire não é um personagem obscuro. É o brasileiro mais citado na história das ciências humanas no exterior, autor de obra traduzida em dezenas de idiomas e alvo central da extrema-direita. Olavo de Carvalho, guru de milhões de imbecis, o transformou num espantalho para detonar a “infiltração comunista” nas universidades, uma sandice repetida por todo idiota bolsonarista.

Quando um profissional como Paglia confessa que sabe de Freire apenas superficialmente, o problema não é apenas que ele não correu atrás de conhecimento: é de uma imprensa que, com frequência, trata assuntos fundamentais como pautas menores, não estuda, e não faz seu papel como mediadora para impedir que boçais sejam eleitos e tentem dar golpes de estado.

É mais fácil, como diz Andréia Sadi, da GloboNews, culpar o “sistema” de forma indigente. A mídia nacional não é alfabetizada.

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