Nunca a humanidade produziu tamanha quantidade de conhecimento socialmente compartilhado
Por Alexandre Machado Rosa, compartilhado de 247
Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.
Em 1935, o renomado Bertolt Brecht publicou “Perguntas de um trabalhador que lê”, um poema breve, porém profundo, que destaca o papel dos trabalhadores na construção da história, em contraste com os nomes dos donos dos meios de produção que adornam os livros de história.Play Video
Brecht inicia com uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente perturbadora: “Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?”. Ele aponta que, embora os livros registrem os nomes dos reis, eles não mencionam se os próprios reis carregaram as pedras.
A pergunta persiste: quem reconstruiu Babilônia inúmeras vezes? Para onde foram os pedreiros quando a Muralha da China foi concluída? Roma, com seus grandiosos arcos do triunfo, quem os ergueu? Alexandre conquistou a Índia sozinho? César ocupou a Gália sem a ajuda nem mesmo de um cozinheiro?
Brecht desafia habilmente a narrativa convencional, desmistificando as conquistas dos grandes homens e trazendo a história de volta à realidade objetiva. Ele enfatiza que reis não carregaram pedras, imperadores não construíram muralhas e generais não atravessaram continentes sozinhos. O poema conclui com uma reflexão sobre as inúmeras histórias e questões que permanecem sem resposta.
Quase um século depois, diante daquela que talvez seja a transformação tecnológica mais impressionante de nosso tempo, devemos nos inspirar no “trabalhador que lê” e fazer novamente algumas perguntas fundamentais.
Quem construiu a inteligência artificial?
Quem criou os textos que alimentam seus sistemas? Quem produziu as imagens? Quem escreveu os códigos? Quem conduziu as pesquisas científicas? Quem classificou os dados? Quem construiu os computadores? Quem extraiu os minerais necessários para seus componentes? Quem trabalha nos centros de processamento de dados? Quem gera a energia elétrica para mantê-los funcionando? Depois de responder a essas perguntas, talvez devêssemos nos perguntar: Quem realmente se beneficia da inteligência artificial?
Podem as máquinas pensar?
Em 1950, Alan Mathison Turing levantou uma questão que ecoaria pelas décadas seguintes: “Can machines think?” Turing tinha um conhecimento profundo de máquinas. Em 1936, ele apresentou um modelo abstrato de máquina capaz de executar procedimentos definidos por um conjunto finito de regras, estabelecendo as bases para o que hoje conhecemos como computação moderna. Durante a Segunda Guerra Mundial, seu trabalho em Bletchley Park foi crucial para os esforços britânicos de decifrar as mensagens militares alemãs codificadas pela máquina Enigma.
Turing desempenhou um papel fundamental na luta britânica contra a máquina nazista, que acabou sendo derrotada anos depois pelo Exército Vermelho. No entanto, a sociedade britânica não demonstrou a mesma gratidão com ele.
Em 1952, foi processado e condenado pelo governo por manter relações homossexuais, então consideradas crime no Reino Unido. Para evitar o encarceramento, submeteu-se a um tratamento hormonal que ficou conhecido como castração química. Dois anos depois, em 1954, Alan Turing foi encontrado morto em sua residência. Tinha apenas 41 anos. A investigação concluiu que havia cometido suicídio por envenenamento com cianeto. Sua pergunta, entretanto, sobreviveu.
Setenta e seis anos depois, convivemos diariamente com máquinas capazes de realizar tarefas que Turing talvez tivesse dificuldade para imaginar. A inteligência artificial escreve, traduz, calcula, reconhece imagens, produz imagens, organiza informações, programa, interpreta gigantescas quantidades de dados, reconhece padrões e começa a interferir diretamente na organização do trabalho humano e na divisão social do próprio trabalho.
Talvez tenha chegado o momento de acrescentarmos algumas perguntas àquela formulada por Turing. Podem as máquinas pensar? Talvez. Mas quem ensinou as máquinas? E, principalmente: quem é o dono das máquinas que pensam?
O algoritmo não caiu do céu
Existe algo curioso na maneira como falamos sobre inteligência artificial, como se ela existisse de forma autônoma, fruto do acaso, como no Deus olímpico, Hefesto com seus autômatos.
Não existe inteligência artificial sem décadas de pesquisa científica, universidades, matemáticos, engenheiros, programadores, pesquisadores, trabalhadores responsáveis pela produção dos componentes eletrônicos, mineração, construção de redes, cabos submarinos, telecomunicações e produção de energia. Também não existem os atuais sistemas generativos sem uma gigantesca quantidade de conhecimento anteriormente produzido pela humanidade. Livros. Artigos científicos. Fotografias. Desenhos. Músicas. Códigos. Vídeos. Traduções. Bibliotecas inteiras.
Séculos de conhecimento humano transformados em informação processável. O trabalhador de Brecht talvez reconhecesse imediatamente a situação. Os livros dizem que os reis construíram Tebas. Hoje dizem que a inteligência artificial escreveu o texto. Mas quem carregou as pedras?
Marx diante do algoritmo
Karl Marx morreu em 1883. Não conheceu computadores, muito menos algoritmos ou inteligência artificial. Seria pueril procurar em sua obra respostas prontas para fenômenos tecnológicos surgidos mais de um século depois. Mas Marx compreendeu uma relação social que permanece fundamental.
Ao estudar a maquinaria industrial, percebeu que a questão não estava apenas na possibilidade de a máquina substituir trabalhadores. Algo mais profundo acontecia.
Conhecimentos e habilidades produzidos pelos trabalhadores eram incorporados à maquinaria. Trabalho humano realizado anteriormente reaparecia objetivado em máquinas que, sob o comando do capital, passavam a organizar o próprio processo de trabalho. O trabalho passado passava a confrontar o trabalho vivo. Não porque a máquina tivesse adquirido vontade própria. Mas porque tinha proprietário. Esse ponto é decisivo para pensarmos a inteligência artificial.
Algoritmos não exploram trabalhadores. Servidores não acumulam capital. Plataformas não possuem vontade. A tecnologia não possui relações de produção próprias. Mas seus proprietários possuem.
E aqui talvez esteja uma das grandes questões políticas de nosso tempo. Nunca a humanidade produziu tamanha quantidade de conhecimento socialmente compartilhado. Ao mesmo tempo, uma parcela extraordinária da infraestrutura necessária para armazenar, organizar e processar esse conhecimento encontra-se concentrada nas mãos de poucas corporações. A produção é social. A apropriação é privada. Nada particularmente novo para o capitalismo. A novidade está na escala.







