E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”,
Irei falar de Aldir Blanc à minha maneira. Quem quiser uma orientação biográfica mais bem escrita e fundamentada, favor se dirigir ao livro “Aldir Blanc: resposta ao tempo (vida e letras), publicado em 2013 pelo cracaço jornalista Luiz Fernando Viana.
“É, César, não deu”, foi assim que o senhor M me passou a notícia do falecimento de Aldir Blanc. Decerto, o senhor M acompanhava o desenrolar da situação a partir de Paquetá, ponto de vista privilegiado formado por gente que conhecia pessoalmente o poeta.
Pois, se Aldir Blanc se confunde com a Zona Norte, com a Vila Isabel e com a Tijuca, é certo dizer que ele também está de chinelos de dedo, tal qual um cara bacana, tomando umas e outras num boteco na Pérola da Guanabara. Qualquer coroa barbudo magricelo de camisa do Vasco no Zaru ou no Zeca pode ser o espectro do velho Aldir Blanc.
Paquetá tem disso. PQD, PQT, PQP!
Dito isto, foi um dia triste para mim. A minha responsabilidade, que já não era pequena, foi lá nas alturas. Pois, afinal de contas, não sou eu o autor de uma tese de doutoramento sobre a obra de Aldir Blanc nos anos 70s do século XX?
Essa tese, a tal da “O lugar dos galos de briga: Aldir Blanc e a década de 1970”, me deixa cabreiro. Às vezes dela gosto, acho-a razoável, bem escrita, espécie de trampolim para pesquisas futuras. Outras vezes acho que não o suficiente de um letrista de enorme complexidade.
O que está feito está feito, digo para mim mesmo. Muitos trabalhos medianos como o meu não dão conta de tudo. Aliás, bem medida as coisas, a tese não é de se jogar fora: ela enfatiza a centralidade da música popular na cultura brasileira: como a música que ouvimos nos fazer entender os nossos dilemas, nossas virtudes e defeitos. Como ela é boa, tão boa que é possível viver exclusivamente dela sem soar provinciano.
Por sua vez, a década de 1970, por sua configuração, é um momento ímpar na indústria musical brasileira. Talvez seja este o ponto, o qual infelizmente não posso discutir aqui: pensar a música popular brasileira enquanto indústria, e o autor enquanto produtor de bens de consumo culturais. Entram na equação muitos discos, muitos grandes artistas, muita gente boa chegando, muita gente se consolidando, muitos artistas malditos, muito material estrangeiro. Quer dizer, um mercado ativo. Mais que isso, em ebulição.
Aldir Blanc, autor combativo, era ao mesmo tempo muito provinciano, mas muito universal. Tematicamente, ele tocou como poucos na ferida da classe média, quase como um Nelson Rodrigues: a vida como ela é ou como era. Porque afinal de contas, o letrista tinha um olhar aguçado para os vestígios da cidade. Nem os mortos estarão a salvo se não nos atentarmos para isto, diga-se de passagem.
Aldir Blanc tomou o pulso como poucos das esperanças equilibristas na política e na vida cotidiana. Recolocou no mapa heróis da nossa história que foram postos na condição ingrata do anonimato. Era dono de um humor ferino, afiado na ponta do taco de sinuca, marinado na observação cotidiana de nossos tipos.
Defendo na tese que a parceria entre Aldir Blanc e João Bosco deve ser considerada como um marco-zero na carreira de ambos. Não chego a comentar que, ao longo da sua trajetória, Aldir Blanc compôs muito e com muitos parceiros, cada um mais desafiador que o outro, abalando a verdade do dito popular segundo o qual um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
Mas com João Bosco, gênio da raça, chega a ser sacanagem. Vá ter raio assim na puta-que-te-pariu!
Bebeu muito: “Meu lar é um segundo bar”, não foi ele quem disse? Mas não é só a bebida que importa, é a convivência, é a democracia do botequim, se é que isso existe. Leu mais ainda. A leitura era sua cachaça.
Eu não sei se terei maturidade para ver o documentário dele. Tenho palpitações neste exato momento quanto a isso. Quase chorei ao ver o trailer. Mas até outubro é provável que eu esteja pronto.
Neste dia 2 de setembro o poeta completaria oitenta anos. É o momento de desencavarmos seus discos, suas crônicas, suas intervenções públicas.
Por derradeiro, deixo para vocês este poeminha:
Aldir Blanc, 80 anos
Me enterrem na Xavier de Brito
Me bebam na Dona Maria
Peguem um de capa e espada
Pra abrir os caminhos da casa
Eu sou feito de terra agora
Por isso plantaram uma muda
O passaredo futrica lá fora
À espera da fruta madura
Da janela se vê a lua na praça
Brilhando na noite de graça?
Eu não sei, eu não sei mais de nada
Eu não sou mais um pé de valsa
Quem quiser me encontrar, faz favor
É só passar em Vila Isabel
Na casa do meu avô
Onde o milagre aconteceu
Nos galhos da goiabeira
O menino da vida inteira sou eu
Notas:
Xavier de Brito, também conhecida como Praça dos Cavalinhos, é uma praça da Tijuca. O desfile do Bloco “Nem muda nem sai de cima” era lá naquela praça.
O bar da Dona Maria era onde o Aldir Blanc tomava umas e outras. Digamos que fosse o Quintal do Aldir.
“Capa e espada” é a forma que encontrei para me referir à obsessão que o Aldir Blanc tinha por livros. Achei boa a imagem do livro com efeito de defumador. A ideia de centro espírita enquanto casa.
A expressão “O pé de valsa” é uma alusão à “Dois pra lá dois pra cá”. Aqui o poeta constata que já não pode mais dançar, que já não faz parte deste mundo de dores e delícias.
Aldir Blanc morou na infância em Vila Isabel, na Rua dos Artistas, na casa dos avós maternos. É a casa da infância por excelência. Muitas vezes o poeta se referiu à goiabeira branca como lugar de refúgio. Era para onde ele ia para brincar e ler.
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.






