Ataques a eleitores, nordestinos e trabalhadores expõem a intolerância alimentada pelo bolsonarismo e exigem resposta das instituições
Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí
Ataques a eleitores de Lula é o que o bolsonarismo deixou de herança, além de grave crime!
No domingo, Lula venceu a eleição. Na segunda-feira, houve festa de um lado e frustração do outro, como acontece em qualquer democracia. Na terça, porém, a reação de setores bolsonaristas mostrou novamente a dificuldade de aceitar a vontade popular: enquanto o candidato derrotado deixava o Brasil rumo aos Estados Unidos, eleitores do presidente reeleito se tornavam alvos de hostilidade e apelos à discriminação.
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, com informações do Financial Times, Flávio Bolsonaro desembarcou na Flórida na terça-feira (27), após determinação judicial de cancelamento de seus passaportes. A saída do país acrescenta um capítulo ao comportamento de uma família que cobra coragem de seus seguidores, mas busca abrigo no exterior quando precisa enfrentar as próprias responsabilidades.
Em Macaé, no Rio de Janeiro, a intolerância ganhou expressão nas publicações da procuradora municipal Renata Pinto Rodrigues Pimentel Ribeiro. A servidora atacou eleitores petistas, nordestinos e mineiros e sugeriu que empresários deixassem de contratar integrantes desses grupos. A Polícia Civil instaurou inquérito, e a prefeitura encaminhou o caso para análise de medidas administrativas.
O episódio é especialmente grave porque envolve uma agente pública. O serviço público existe para atender à população, independentemente de preferência partidária, renda ou lugar de nascimento. Uma eleição não concede a ninguém o direito de escolher quais cidadãos merecem respeito ou acesso às políticas públicas.
A tentativa de transformar o voto em impedimento para conseguir trabalho revela um pensamento autoritário: o de que o sustento de uma família pode ser usado como instrumento de punição política. Quem defende essa prática pretende estender o poder do empregador até a consciência do trabalhador.
Essa é uma das heranças mais perversas do bolsonarismo: alimentar a ideia de que o adversário deve ser humilhado, excluído e privado de direitos. O ressentimento eleitoral se converte em preconceito regional, desprezo pelos pobres e perseguição a quem fez uma escolha diferente nas urnas.
A democracia exige que os derrotados reconheçam o resultado e façam oposição dentro das regras. A família Bolsonaro, entretanto, volta a oferecer ao país o espetáculo da fuga de responsabilidades, enquanto parte de seus seguidores dirige a revolta contra trabalhadores e cidadãos comuns.
O alerta precisa ser claro: discriminar trabalhadores por opinião política é uma prática proibida. O Ministério Público do Trabalho no Piauí já advertiu que demissões por retaliação eleitoral podem gerar responsabilização e indenizações. Ameaças e coação também podem produzir consequências criminais.
O voto pertence ao cidadão. Nenhum patrão, dirigente político ou agente público tem autoridade para puni-lo por exercê-lo. A derrota eleitoral deve ser enfrentada com responsabilidade. Perseguir quem venceu é afrontar a liberdade que sustenta a própria democracia.







