Audiovisual brasileiro instrumentaliza o negro e concentra poder na mão de brancos, diz pesquisadora

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A professora Tatiana Carvalho, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), aponta risco de retrocessos e reivindica ações afirmativas que alcancem empresas e o direito patrimonial

Por Giovanne Ramos, compartilhado de Alma Preta




Foto: Colagem com a atriz Taís Araújo e a autora Manuela Dias. — Lucas Teixeira e Fábio Rocha/Globo

O audiovisual brasileiro vive um “ponto de inflexão”. A avaliação é de Tatiana Carvalho, presidenta da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). Ela afirma que o setor ampliou a presença de pessoas negras em diferentes frentes, mas segue concentrando o dinheiro, o direito patrimonial e os espaços de decisão nas mãos de grupos brancos. 

Para Carvalho, o avanço recente não se sustenta sem políticas de Estado que interrompam a desigualdade histórica no acesso aos recursos públicos.

A demanda se apoia em dados oficiais. A população negra passou de 50,7% em 2011 para 55,8% em 2021, mas representou 39,2% das pessoas registradas na ANCINE naquele mesmo ano — número que indica crescimento, mas não equivalência com a população brasileira. 

Na TV aberta, na qual se concentra mais da metade dos empregos do setor, 65% das pessoas contratadas são brancas; 32,6% são pretas ou pardas. Na produção cinematográfica, 69,6% são brancas e 29,3% negras. Os dados são de um relatório produzido pela Agência Nacional do Cinema (Ancine). O documento, intitulado “Participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do audiovisual”, analisa a participação por gênero e por raça nos diversos segmentos da cadeia produtiva do setor audiovisual.

Esse cenário, segundo Carvalho, explica por que o crescimento do número de profissionais negros não se traduz em igualdade econômica. Ela destaca que a estrutura do setor reproduz uma lógica em que histórias negras geram receita, mas não garantem retorno para profissionais negros. Um dos exemplos citados por ela é a ausência de direitos patrimoniais de artistas e técnicos envolvidos em produções de grande circulação.

“Vivemos em um sistema capitalista, herdeiro de um sistema escravista, que historicamente utilizou pessoas negras como mão de obra desvalorizada e como mercadoria para gerar lucro para a branquitude”, diz Tatiana Carvalho, uma das principais articuladoras da política no cenário audiovisual negro brasileiro, em entrevista à Alma Preta.

Ainda segundo a pesquisadora, a imagem do negro representada nas telas do audiovisual estimula o setor, mas a longo prazo, esse poder simbólico — isto é, os direitos sobre imagem e direitos autorais ou de exploração — não retorna para esse grupo de profissionais.

“Se olharmos o que acontece hoje na TV Globo, nossas histórias e imagens estão gerando lucro para uma grande emissora. Estão inclusive salvando um modelo de negócio, como a telenovela. Mas, do ponto de vista econômico, o principal ativo do setor é o direito patrimonial, que continua nas mãos da branquitude”, completa.

Um dos exemplos citados pela professora Carvalho é a obra brasileira “Cidade de Deus” (2002). Em 2013, os diretores Cavi Borges e Luciano Vidigal levaram ao streaming um documentário mostrando a situação dos atores negros que protagonizaram um dos filmes mais aclamados do país, dez anos depois do seu sucesso.

“[Eles] não receberam participação nos lucros, mesmo com o filme seguindo como referência internacional. Então, do ponto de vista de para onde vai o dinheiro gerado por essas histórias e imagens, a resposta é: não vai para nós”, reflete.

Tatiana Carvalho Costa é uma das principais articuladoras da política no cenário audiovisual negro brasileiro. Foto: APAN

Geração formada por políticas públicas, mas sem igualdade econômica

A presença crescente de profissionais negros é resultado de um ciclo iniciado com políticas educacionais e culturais adotadas nos últimos 20 anos. A expansão do ensino superior, as ações afirmativas e programas como Cultura Viva abriram caminho para uma geração que hoje movimenta o imaginário e disputa espaço na produção audiovisual, literária e artística.

Mas Tatiana Carvalho alerta que “mais presença” não significa mudança estrutural. O ponto central é a distribuição desigual de renda. Dados da Ancine mostram que pessoas brancas e amarelas recebem remuneração média acima de R$ 6 mil no setor audiovisuaal, enquanto pessoas pretas e pardas recebem menos de R$ 4 mil.

Essa diferença se aprofunda quando se observam funções de direção e roteiro, especialmente nas etapas de inscrição, seleção e contratação de projetos pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Entre 2018 e 2021, pessoas brancas representaram 83% das inscrições em direção e 83,7% em roteiro. Em relação aos contratos assinados em direção, 87% eram brancos, enquanto 89,3% possuíam um contrato como roteiristas.

O número cai drasticamente quando observados os números da população negra: elas representaram, no mesmo período, 87% dos contratos assinados em direção; 89,3% em roteiro e 11,4% possuíam contratos assinados em direção; enquanto apenas 8,6% alcançava a mesma posição na área de roteiro.

O contraste se acentua em projetos com orçamento acima de R$ 5 milhões: mais de 90% são dirigidos ou roteirizados por pessoas brancas.

‘Aliado não é categoria estável’

A entrevistada também aborda episódios recentes de racismo envolvendo atrizes em papéis de destaque e o impacto disso na construção de narrativas. Para Tatiana, a reação de parte do público contra protagonistas negras e a dificuldade de autores em consolidá-las revelam como estruturas raciais moldam processos criativos.

“Na hora de construir uma narrativa, se a pessoa branca não tem essa vivência — e não é só letramento, é subjetividade — ela não percebe que está reiterando hierarquias sociais terríveis. Ela acha que está sendo revolucionária por colocar personagens negros, mas delimita até onde podemos ir. Pessoas negras podem chegar até aqui; pessoas brancas estão aqui em cima”, pontua a presidente da APAN.

A pesquisadora observa que a rejeição a protagonistas negras se articula à ausência de profissionais negros no roteiro e na direção. Na prática, histórias que poderiam romper padrões acabam esbarrando na visão limitada de quem escreve.

“Qualquer pessoa negra consegue desconstruir isso? Não necessariamente, porque nosso imaginário também foi formado assim. Mas é mais provável que uma pessoa negra com percurso técnico e intelectual — um roteirista negro minimamente letrado racialmente — intervenha e diga: ‘Não, espera. Na novela original, Raquel progride. Por que agora não vai progredir? O que justifica isso?’”, comenta.

A presidente da APAN citou a trajetória da atriz Taís Araújo para ilustrar as barreiras que persistem. “É cruel pedir que uma única pessoa carregue isso. Existe a síndrome do ‘preto único’. A branquitude acha normal ter dez mulheres brancas capazes de protagonizar novelas, mas só uma mulher negra considerada apta. Isso é cruel”. Carvalho pontuou que, embora hoje existam mais atrizes negras, o número ainda é insuficiente.

Ela reconheceu a “resiliência” como fator que permitiu os avanços até aqui, mas questionou o custo dessa persistência. “As coisas só avançaram porque quem sofreu e segue sofrendo não desiste — ainda que persistir signifique sofrer de novo. É cruel pedir isso da Taís Araújo”.

Casos de violência em sets também foram mencionados. A APAN mantém atendimento jurídico para profissionais associados e registra relatos frequentes de discriminação e rupturas de acordos em projetos financiados por ações afirmativas. Em algumas situações, pessoas negras foram incluídas apenas para cumprir exigências de editais, mas retiradas da obra após a liberação dos recursos.

“Estamos cansados de receber denúncias de distorção da ação afirmativa. Aliado não é categoria estável e, quando entram dinheiro, interesse econômico e poder, muita gente não sustenta seu antirracismo. Rapidamente, a pessoa escorrega para o discurso anti-woke e se revela racista — ou com atitudes racistas, o que dá na mesma”, defende Carvalho.

Taís foi assunto na mídia nas últimas semanas após conflitos com a autora da telenovela Vale Tudo, pelos rumos de sua personagem, vazarem dos bastidores. Foto: Reprodução/Instagram

Empresas inclinadas à reparação e disputa no Congresso

A APAN defende que ações afirmativas alcancem não apenas indivíduos, mas também empresas. O conceito apresentado pela associação, “empresa vocacionada para reparação histórica”, estabelece que sócios negros devem ter maioria no controle e no poder de decisão. A avaliação da APAN é que isso ampliaria o impacto econômico, geraria contratação de mais profissionais negros e fortaleceria toda a cadeia produtiva.

“Defendemos o conceito de ‘empresa vocacionada para reparação histórica’: empresas com mais de 50% de pessoas negras no quadro societário e no poder de decisão. Não adianta ter 90 pessoas negras se uma pessoa branca tem a maioria das ações”.

O conceito chegou a ser incluído no Plano Anual de Investimentos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) em 2024, mas não se efetivou por falta de instrução normativa da Ancine. Segundo Tatiana, a resistência do setor, especialmente de empresas concentradas no eixo Rio-São Paulo, levou à paralisação do tema.

No Congresso, a disputa se repete. O projeto de regulação das plataformas de vídeo sob demanda evoluiu sem qualquer mecanismo de ação afirmativa. A ausência torna frágil qualquer avanço, porque políticas infralegais perdem validade com mudanças de governo.

“Sem ação afirmativa na lei, a política não é de Estado, mas de governo. O Ministério da Cultura até inseriu normatizações infralegais nas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc. É um avanço. Mas não é lei. Quando os ciclos acabam, as normas deixam de valer. Ano que vem é ano eleitoral. Quem garante continuidade? Ninguém. Especialmente se a direita voltar ao poder”, explica.

Tatiana Carvalho também aponta a urgência de popularizar imagens e narrativas negras desde a educação básica. Ela cita a Lei 13.006/2014, que determina a exibição mensal de duas horas de cinema brasileiro independente nas escolas, e defende sua regulamentação.

Atuação territorial e fortalecimento de redes

A APAN está presente em 25 estados e no Distrito Federal. No primeiro semestre, encontros regionais definiram metas locais para fortalecer a presença de profissionais negros em produções, coproduções e festivais. No segundo semestre, o primeiro encontro nacional de eventos de cinema negro, em Salvador, consolidou estratégias conjuntas e articulou ações de formação de público e gestão de recursos.

A associação também desenvolve ações para apoiar empresas criadas por profissionais negros que migraram de microempreendedores individuais (MEI) para microempresas após o acesso à Lei Paulo Gustavo.

Quando questionada sobre os planos futuros da organização, a presidente é pontual: o sonho compartilhado no 1º Encontro Nacional de Eventos de Cinemas Negros da APAN, realizado em Salvador, no início de novembro, é que em 2040 os jovens de 20 anos, de todas as raças, tenham suas memórias afetivas povoadas por imagens negras brasileiras.

A luta, portanto, é multifacetada: pela representação digna na tela, pelo poder narrativo nos bastidores, pela equidade econômica e pelo controle patrimonial sobre as próprias histórias.

Para Tatiana, o audiovisual negro tem papel essencial para mudar o imaginário coletivo, reforçando nossa condição de humanidade e de cidadania. Não é questão de mérito: é direito. Foto: Divulgação/APAN

A entrevistada conclui com a defesa de que a disputa política e a disputa cultural são inseparáveis. Para ela, o audiovisual tem papel central na formação do imaginário e precisa estar no centro do debate sobre democracia.

“Não podemos desconsiderar as dinâmicas de poder que operam no imaginário e nos afetos. Os Estados Unidos dominam o mundo não só pelo poder militar e econômico, mas porque entraram na nossa mente e no nosso coração com princesas, super-heróis, comédias românticas de high school (ensino médio), música. Chamam isso de soft power. Mas no Brasil, o soft power dominante é o racismo — na mente e no coração“, encerra.

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