Capitalismo como religião: a luta fundamental na relação religião e política

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A religião mais profunda e invisível da sociedade

Por Jung Mo Sung, compartilhado de seu Blog




Se é verdade que não se pode entender a política e a geopolítica internacional sem compreender a relação entre a religião e a política no mundo de hoje, também é verdade que é preciso repensar a noção de “religião” nessa equação. Mais do que isso, descobrir a “religião” mais profunda, mais fundamental e invisível do mundo capitalista dentro do qual as discussão e lutas sobre a relação religião e política estão ocorrendo.

Normalmente, pessoas que discutem sobre esse tema entendem a religião como um sistema social que gera uma identidade, senso de pertença, com doutrinas e valores morais que dão sentido às suas opções de vida e ações em torno de o que chamamos de Deus ou de seres sobrenaturais ou espirituais. Em linguagem mais ampla, em torno de valores absolutos.

Entretanto, se olhamos com mais calma os temas e os argumentos em debates mais “quentes”, com uma alta carga emocional, vemos que nessa relação entre a religião e a política há um deslocamento ou uma mudança de conceitos centrais na discussão. Por exemplo, em discussões sobre a figura e as opções teológicas-pastorais do Papa Francisco, muitas pessoas que se opunham contra o papa, incluindo figuras importantes da Igreja Católica, o acusaram de comunista. O próprio papa falou sobre essa acusação. Na mentalidade comum das sociedades capitalistas, acusar um papa de comunista é também acusá-lo de ateu, ou pelo menos de herege. O que não faz muito sentido, especialmente para católicos.

Acusar um papa de ateu ou de herético porque ele seria um comunista (ou defensor do comunismo), é mais do que “misturar” a relação entre a religião/teologia e a economia política, é revelar uma mudança ou um deslocamento fundamental do critério dogmático, religioso, para acusar alguém de herege ou ateu. O Papa Francisco não foi acusado de heresia por ter negado ou ensinado erradamente algum dogma, por exemplo, a doutrina da Trindade, que depois o teria levou a defender o comunismo. Ao contrário, ele foi acusado de heresia por ter defendido a “opção preferencial pelos pobres”, isto é, defender os direitos de viver com dignidade dos pobres e, com isso, relativizado o conceito de propriedade privada que está sendo absolutizada no atual capitalismo neoliberal.

A acusação de comunismo, nesse caso, é derivada da defesa dos pobres, – o que inclui os imigrantes pobres ilegais. O Papa Francisco nunca defendeu o comunismo, mas sim os pobres. O problema é que, no atual sistema econômico-político, não se pode defender esses pobres sem relativizar a propriedade privada e as leis do mercado, mercado esse que exclui os pobres por não terem dinheiro e direciona todas atividades econômicas em função da acumulação de riqueza nas mãos dos mais ricos. Por isso, o Papa Francisco foi acusado de comunista.

Quando uma questão econômica – a propriedade privada e sistema de mercado capitalista neoliberal – se torna um critério de acusação de heresia ou de ateísmo, precisamos reconhecer que a “religião” mais importante não é mais aquela que aprendemos na nossa história e cultura, mas uma outra que é invisível.

Para entendermos esse deslocamento, vamos diferenciar dois níveis na relação religião e política. Usando a metáfora das águas do mar, temos o nível mais visível em que as ondas vão em uma direção e que podem se chocar entre si; e o menos visível, o da corrente marítima profunda que é mais “estável”. No texto anterior, eu tratei do nível mais visível, agora, quero lidar com o mais profundo.

Contra a autoimagem mais disseminada do mundo moderno de que, com a secularização, a religião perdeu espaço e função na esfera pública, Max Weber fez uma afirmação que vale a pena retomarmos para a nossa questão. No famoso texto “A ciência como vocação”, ele disse, “tudo se passa exatamente como se passava no mundo antigo, que se encontrava sob o encanto dos deuses e demônios, conquanto assuma diferente sentido. Ofereciam sacrifícios a Afrodite os gregos, […] assim fazemos nós, ainda hoje, tendo apenas a atitude do homem sido desencantada e despida de sua plasticidade mística, mas interiormente autêntica”. Ele não está se referindo à noção de religião, com os seus ritos e mitos, mas sim a noção de “sacrifício” que existe desde o início do surgimento de organização de grupos humanos e continua no nosso mundo. O desencantamento do mundo moderno despiu ou, na minha compreensão, modificou as linguagens rituais e dos mitos, mas não a necessidade de oferecer sacrifícios aos deuses.

Isso porque todos sistemas sociais precisam fazer opções para atingir os seus objetivos, especialmente quando temos conflitos entre opções legítimas e defendidas por grupos diferentes da mesma coletividade. Tomemos como um exemplo a Declaração do Direito do Homem e do Cidadão da revolução francesa, de 1789. O uso da palavra “sagrada” nessa declaração pode parecer estranha, lembrando que essa revolução foi contra um sistema social-político baseado na noção de Deus e dos valores sagrados, mas me parece que foi necessária. Porque frente a direitos conflitantes, é necessário definir o critério último ou o direito “absoluto” que não pode ser questionado, isto é, que é sagrado. Sem esse critério último, nenhum sistema social não consegue estabelecer um estado de “paz” ou um “contrato social”. E nessa Declaração, a palavra sagrada foi anexada ao direito de propriedade privada. Por isso, é conhecida como revolução burguesa.

A noção de sagrado implica e exige a de sacrifício. Sacrifício é a ação de fazer o sagrado, isto é, oferecer sacrifícios aos deuses – míticos, pessoais ou desencantados. E a função social do sacrifício, seja do passado ou no mundo de hoje, é justificar os sofrimentos e/ou mortes de uma parte da comunidade em função de atingir o objetivo final que é visto como sagrado. O que significa que essas mortes são vistas como exigências de Deus/sagrado em troca da realização das promessas divinas. Por isso, só se pode matar crianças inocentes, seja em genocídios ou em processos de exclusão social, em nome de Deus, não importa se é pessoal ou desencantado.

Walter Benjamin, em um pequeno texto de 1921, Capitalismo como religião, não publicado até 1985, ele diz: “O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer respostas”. Afinal, se essas questões fundamentais da sociedade e dos indivíduos são inescapáveis, qual sistema fundamental de “crença” que está realmente respondendo no mundo moderno capitalista?

As religiões tradicionais, que vemos nessa idas e voltas das ondas da água, não são mais fundamentos da crença básica da sociedade. Mas, sim os valores, símbolos e “doutrinas” do capitalismo. Por isso, sem perceber um católico (ou um cristão de uma forma geral) que crê no capitalismo acusa o Papa de herege e mostra a “prova” com a acusação de comunismo. A sua prova não é uma prova, mas sim a expressão da convicção ou da fé de que só o “Mercado Livre” salva.

Por outro lado, para o Papa Francisco, e muitos outros, não é possível anunciar uma boa-nova à humanidade sem criticar o atual capitalismo como “uma economia que mata”. Não porque ele está misturando a religião com política, mas sim porque ele crê em Deus que defende a vida de todas pessoas, incluindo os mais pobres.

A guerra “espiritual” fundamental, dentro do qual se lutam diversas batalhas, não é religião sim ou não, ou qual religião, mas sim entre uma visão de Deus que justifica os sacrifícios de vidas humanas, especialmente dos pobres e dos indesejados, e um Deus ou um outro princípio absoluto que defende a igualdade de todos de viver com dignidade.

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