Por Washington Luiz de Araújo, jornalista
Muito se falou sobre Neymar ter sido convocado para a copa do Mundo contundido. Não tenho apreço ao que o jogador faz de sua vida extra campo e tenho muitas restrições à sua “cabecinha” quando joga, pois, como dizia João Saldanha, “talento você cria, você treina. Caráter não”.
Com tudo isso, fui a favor de sua convocação, não para ser titular, mas sim como opção tática, dada a ausência de um craque com suas características. Lógico que minha opinião passa ao largo dos interesses de marketing da CBF, que pode tê-lo convocado simplesmente por isso.
Dito isso, venho aqui para relatar o que ouvi de dois grandes jogadores de seleção que tiveram suas condições físicas utilizadas a bel prazer em convocação e não convocação pelos dirigentes da então CBD – Confederação Brasileira de Desportos. Vou falar aqui de Coutinho e Rildo, com os quais tive o prazer de privar de amizade. Vejam como os interesses dos chamados cartolas – de clubes, federações e confederação – podem interferir numa convocação independente das preferências dos treinadores.
Antônio Wilson Vieira Honório, Coutinho, parceiro de Pelé e protagonista das célebres tabelinhas, me contou que, aos 18 anos, foi convocado para a Copa do Mundo no Chile, em 1962. Em vez de comemorar, ficar feliz, Coutinho que era pessoa que primava pela sinceridade, ficou contrariado, pois estava contundido. No mês anterior à Copa, em maio, sofreu ruptura no menisco num amistoso contra o País de Gales. Procurou o conselheiro Zito, afirmando que não aceitaria a convocação. O capitão do Santos, que dava bronca até no Pelé, disse a Coutinho que ele deveria ir para o Chile., pois a CBD queria que a maioria do time titular do Santos e do Botafogo fosse convocada. “Me convença”, disse o craque da 9. “Se você for e o Brasil ganhar a Copa, o Santos vai triplicar seu salário”, vaticinou Zito.
Coutinho foi ser campeão mundial sem nem sentar no banco de reservas. E, naquela época, que não tinha muito desta de ser “vendido” para o Exterior, ficou no Santos, tendo sido campeão várias vezes, sendo eternizado na dicotomia vitoriosa Pelé e Coutinho.
Para se ter uma ideia, dos 22 convocados, mais de metade (12) era do Santos e Botafogo, os dois clubes que predominavam na época com o chamado futebol arte. Do Santos: Gylmar, Mauro, Zito, Mengálvio, Pepe, Pelé e Coutinho; do Botafogo: Nilton Santos, Didi, Amarildo, Zagallo e Garrincha.
Já com Rildo da Costa Menezes aconteceu o contrário. O lateral esquerdo que veio do Sport, Recife em 1959, aos 17 anos, para o Botafogo e depois, em 1967, foi para o Santos de Pelé, jogou na Seleção Brasileira e grandes times pelo mundo afora.
Rildo é daqueles jogadores cuja trajetória é marcada pelo inédito. O craque, simplesmente jogou com Manga, Nilton Santos, Didi, Garrincha, Amarildo, Zagallo, Gerson, Jairzinho, Paulo César Caju, Afonsinho no Botafogo; no Santos com Gylmar, Mauro, Zito, Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé, Pepe, Clodoaldo, Carlos Alberto e Edu; pelo mundo com Johan Cruyff, Michel Platini, George Best, Franz Beckenbauer e Neeskens. Arrisco a dizer que jogou com os maiores craques do futebol mundial em clubes, mais até do que Pelé.
Mas voltando ao assunto contusões e Brasil nas Copas do Mundo, vejam aqui trecho da entrevista que fiz com ele para a Revista Brasileiros, edição de junho de 2010, na companhia do Prezado Amigo Afonsinho, que jogou com Rildo no Botafogo, e do jornalista e documentarista José Carlos Asbeg.
Você jogou do Mundial de 1966 até as vésperas da Copa de 70. Por que não foi para o México?
Em 69, nas eliminatórias ganhamos todos os jogos. Everaldo já vinha sendo meu reserva há dois anos. Os jogadores mais regulares foram Carlos Alberto, Edu, Pelé e eu. Até o Jairzinho, que foi bem na Copa, foi mal pra caramba nas eliminatórias. Pensei: estou absoluto, tranquilo. Quando saiu a lista da Copa de 70, o João Saldanha falou assim: “Eu só quero feras. Então, o time titular será: Claudio*, Carlos Alberto, Djalma Dias, Joel Camargo e Rildo, Piazza, Gerson, Jairzinho, Tostão e Edu.”
Escalou o time todinho, inclusive os reservas. Éramos chamados de as Feras do Saldanha. “E nesse time titular só não vai para a Copa quem quebrar a perna com fratura exposta. Porque se não, é este meu time”, disse João.
Mas teve aquela briga com presidente Médici, porque o João não queria convocar o Dadá Maravilha e em uma entrevista, disse: “O presidente que escale o ministério dele que eu escalo o meu time”. Colocaram o Zagallo como técnico e eu fui cortado.
Qual o motivo do corte?
O Lídio Toledo, que era médico da Seleção e do Botafogo e me conhecia há muito tempo, disse que eu tinha um problema no coração. Eu como problema no coração? Já tinha jogado na Bolívia, no México, em locais de grandes altitudes e não tive nenhum mal estar… O Lídio sabia que não tinha coisa alguma. Fiquei muito chateado, pois sabia que o Brasil ia ser campeão e eu estava em ótima fase. E eles convocaram o Marco Antônio do Fluminense. Mas eu tive a felicidade de jogar todas as eliminatórias e ser apontado como o jogador mais regular da defesa do Brasil.
Em 70, você lembra de ter feito este exame?
Lembro. Muitos anos depois, cheguei para o Doutor Lídio e disse: “Já passou, já perdi, mas que porra de doença é essa que até hoje eu jogo?” O médico me respondeu: “É uma doença que às vezes acontece, às vezes não”. Hoje, com 68 anos ainda jogo. Tudo foi inventado. Na hora, eu fiquei chateado, mas aconteceu, você não vai mudar a história.
Portanto, aí estão dois depoimentos sobre o que pode acontecer nos meandros das convocações para o selecionado nacional. E como dizia João Saldanha, vida que segue.
*No levantamento que fizemos sobre as Feras do Saldanha consta o goleiro Félix como titular







