Cuidado com o Gatilho!

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, entrra em campo ou melhor deita-se no divã para dar bola à espirituosidade.

Fale-me mais sobre isso:




“Só o futebol permite que você sinta aos 60 anos exatamente o que sentia aos 6. Todas as outras paixões infantis ou ficam sérias ou desaparecem, mas não há uma maneira adulta de ser apaixonado por futebol.” (Luis Fernando Veríssimo)

“Doutor, já te disseram que o senhor é a cara do Aldir Blanc?” Foi assim que o paciente, tricolor que nem ele só, iniciou a sessão com o terapeuta. Naquela manhã, ele conversaria sobre o assunto que mais lhe causava alegria e preocupações, além de efeitos sintomáticos tais como coceira na nuca, palpitações, pupilas dilatadas e arroubos de paixão que lhe vinham praticamente do zero (Cuidado com o gatilho! Zero a zero é placar ruim!).


Era só falar do tricolor das Laranjeiras que algo de instável nele se manifestava. Ele era tal qual o time. Se o Fluminense vencesse, a semana seria boa, produtiva, ele passaria os dias assoviando o hino nem que fosse para dentro. Agora, se o Fluminense perdesse, seria um Deus nos acuda, um olhar para os céus como quem quisesse saber qual é participação divina em tamanha infelicidade. Sofrer tanto pra quê, meu Pai?


Como o Fluminense tinha vencido no fim de semana, a conversa do nosso paciente era até ponderada, fácil de acompanhar, sem salamaleques e reclamações a respeito dos cabeças-de-área e de bagre. Como o argentino Castillo, que mais parece um boneco de totó, pode ser contratado a peso de ouro para jogar pelo Fluminense? Nem se ouviu falar dele nem mal nem bem.


Digamos que fosse uma conversa até amistosa (cuidado com o gatilho: amistoso nos leva a falar de futebol!). Depois de falar de Fluminense, ele falaria da infância, da mãe, do pai, dos irmãos, da mulher, dos filhos, do que o perturbava no emprego, e do trenó que nunca ganhou ou que em uma mudança se perdeu (cuidado com o gatilho: trenó lembra treino, que lembra do jogo de domingo. Ganhar ou perder? Cuidado com o gatilho!).


Mas tudo eram flores para os tricolores naquela manhã. O paciente tricolor doente perguntou se o terapeuta com cara de Aldir Blanc tinha visto o gol do Hulk, aquele em que o nosso 7 cabeceia de ombro, o goleiro defende, a bola bate na trave, quica no chão, pega efeito digno de bolinha de pingue-pongue e entra. É um gol daqueles de comentário de Nelson Rodrigues sobre o imponderável no futebol, um gol digno de Sobrenatural de Almeida, que fez a bola girar assim, assim. Uma loucura.

Sobre o segundo gol, o tricolor doente nada quis dizer, porque para ele era a lógica. Os crias de Xerém têm que jogar no time principal e pronto.


Em tom de confissão, o tricolor revelou que ao fim da partida se ajoelhou nos degraus da arquibancada. Agradeceu aos deuses e à Santíssima Trindade Tricolor: Washington, Assis e Romerito. Não adianta dizer que Romerito ainda não morreu, pois para quem tem fé os milagres acontecem muito antes de qualquer detalhezinho metido à besta.


O doce sabor da vitória faz com que saiamos mais dispostos para a vida, foi o que pensou o nosso tricolor se despedindo do seu terapeuta, agradecido e comovido feito o diabo, pisando em nuvens porque estava lá em cima da tabela.
É, é vida que seque! (Opa! Cuidado com o ato falho!)


O terapeuta fechou a porta com cuidado e se dirigiu ao banheiro. Então ele se parecia com o Aldir Blanc? “Você não sabe de nada, meu rapaz”, foi o que ele disse se olhando no espelho. Tirando o jaleco ou a casaca (cuidado com o gatilho!), havia uma camisa do Vasco com a assinatura de Roberto Dinamite. Pois é, o discípulo de Lacan era Bacalhau, vê se pode, com muito orgulho. Freud, Jung e Lacan não são nada perto de Orlando Lelé, Romário e Roberto.


Ouviu-se então um uivo assustador. O Vasco acabara de ser goleado pelo Palmeiras, puta-que-pariu, a bola não entra! Depois, ouviu-se uma gargalhada de intimidar Exus. O monstro do médico ria do Fluminense, aquele velho freguês de pó-de-arroz, que tinha sido eliminado pelo Gigante da Colina pela Copa do Brasil.


Já era a hora de se recompor. De tudo que ocorreu só lhe restou a cara de cachorro do Cebolinha, isto é, a cara do Bidu, isto é, a cara do Aldir Blanc. Ainda iria atender um Botafoguense saudosista e, mais tarde um flamenguista com mais soberba que muito Napoleão de hospício. Fazer o quê! Se Eurico vivo estivesse… Sem problemas, sem problemas. Bastava o Vasco ganhar do Vitória pela Copa do Brasil.

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