Quando o ódio político invade a relação de cuidado, a ameaça alcança toda a sociedade
Pot Oscar de Barros, compartilhado de Pensar piauí
Médicos são denunciados por perseguição a eleitores de Lula
A intolerância contra eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva chegou a um terreno em que a discriminação pode colocar vidas em risco: a assistência médica. Reportagem de Julia Braun, da BBC News Brasil, reúne denúncias de perseguição a profissionais identificados com a esquerda, divulgação de listas de colegas e publicações que sugerem boicote a pacientes por suas escolhas políticas.
Os episódios registrados em diferentes estados revelam como a hostilidade alimentada pela disputa eleitoral atravessa hospitais, consultórios e cooperativas. Em alguns casos, conselhos regionais de medicina já foram acionados. Em outros, houve afastamento e demissão.
Em Sergipe, um anestesiologista relatou ter sido incluído numa lista com outros 14 profissionais, identificados como “Lulistas = esquerdistas = petistas”. A relação circulou em um grupo de WhatsApp que reúne cerca de um terço dos médicos da especialidade no estado. Ao lado de alguns nomes, foram acrescentadas bandeiras do movimento LGBTQIA+.
“Na hora que eu recebi a lista, fiquei sem chão. Senti um alvo na minha cabeça”, declarou à BBC.
Segundo o profissional, o colega apontado como responsável pela divulgação reagiu com gritos e ofensas ao ser questionado. O anestesiologista também relatou insultos homofóbicos e procurou a Polícia Civil, onde solicitou medida protetiva. A cooperativa responsável pelos plantões teria atendido ao pedido para que os dois médicos não fossem escalados juntos durante a apuração.
Na Bahia, uma cardiologista compartilhou uma publicação de uma suplente do PL que defendia negar ajuda a petistas, inclusive no acesso a medicamentos e na fila da regulação. Colegas denunciaram o episódio ao Conselho Regional de Medicina.
Após a repercussão, a cardiologista reconheceu que o compartilhamento foi um equívoco e afirmou que não defende privar qualquer pessoa de atendimento ou cuidados por posicionamento político. A autora original da postagem alegou que se referia a pedidos particulares de favorecimento fora dos procedimentos legais e reconheceu que a redação não explicitava essa distinção.
No Espírito Santo, o conselho regional abriu sindicância sobre uma médica que teria publicado uma mensagem sugerindo alterações nas prescrições de pacientes e rejeição de justificativas financeiras para a compra dos medicamentos, em reação ao resultado eleitoral.
A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) denunciou o episódio nas redes sociais e alertou para a passagem dos boicotes comerciais às ameaças ao cuidado com a vida.
Em São Paulo, um cardiologista que atua no Hospital Israelita Albert Einstein publicou ataques a apoiadores de Lula e declarou que não atenderia petistas. À BBC, o hospital informou que repudia manifestações discriminatórias e que o caso está sendo tratado conforme seu código de ética.
Outro episódio ocorreu em Goiânia. Uma ginecologista foi afastada e posteriormente demitida de uma maternidade municipal após mensagens em que orientava colegas a evitar altas no fim de semana do primeiro turno, sob a justificativa de que a maioria das pacientes seria petista.
A profissional negou que a mensagem tenha resultado em prejuízo ao atendimento. Em manifestação ao g1, afirmou que nenhuma paciente teve alta atrasada ou negada por preferência política e que as decisões seguiram critérios clínicos.
O conjunto das denúncias exige respostas das instituições responsáveis. Não há justificativa eleitoral para intimidar colegas ou transformar pacientes em alvos de retaliação. O compromisso com a saúde não pode ficar subordinado ao candidato escolhido pelo profissional.
Quando o ódio político invade a relação de cuidado, a ameaça alcança toda a sociedade. Hospitais e consultórios precisam oferecer segurança a quem procura assistência, qualquer que seja seu voto.
Com informações de reportagem de Julia Braun, da BBC News Brasil







