E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, traz doces lembranças de um Dia de São Cosme e Damião em Paquetá. Texto de lamber os beiços.
“(Para Maria Christina Ferreira, in memoriam)
A última festa de São Cosme e São Damião da que participei foi em Paquetá, ali na rua da padaria de azulejos azuis. O senhor M morava na rua Dois irmãos, era praticamente do lado. Eu tinha ido à Paquetá mais a Layla e as crianças. Ficamos hospedados lá no apartamento azul do senhor M, aquele em que as formigas de hábitos noturnos caminhavam pelas paredes da sala.
Que festa boa, meu pai. Tinha pula-pula, farta distribuição de saquinhos de doces, o escambau, um calor de fazer passarinho procurar sombra. E a gente ali, curtindo a festa, tomando guaraná de adulto. Meus filhos eram pequenos. Sabrina e Antony e senhor M com a gente. O Antony, que não quis ficar de frente num filme que o filho da senhora C fez justamente sobre são Cosme e são Damião. Da última vez em que o vi, Antony já estava de bigodes.
Quer coisa melhor pra curar ressaca, reviver a infância, simplesmente se refrescar do que tomar um banho de mangueira daqueles? Hoje tem criança que só entra na água da piscina depois que a mãe mede a temperatura da água com termômetro. Agora pode, meu tesouro…
Naquele dia eu entendi o sentido da frase que o povo de PQT diz assim meio orgulhoso: “É, Paquetá tem disso”. A ilha preserva um pouco do sonho do subúrbio? Sim. E se o faz é porque o pessoal assim o quer. Dá mole, dá. O boi-bumbá vira vaca rapidinho. E babau, tradição.
O que quero dizer é o seguinte. Eu falo do subúrbio mas reconheço suas contradições. Sei pesar as coisas direitinho na balança. E como eu gostaria de mais políticas públicas que privilegiassem as tradições com as quais se fortalecem os laços comunitários. O tal do pertencimento. É pedir muito? É pedir pouco?
Sei que vai ter gente boa escrevendo sobre o assunto hoje, chegando até a mencionar a origem dos santos e tal. Fazem bem. Eu, de minha parte, quero pegar o assunto por uma outra perspectiva. Eu gostava de ver o bando de gente correndo atrás de doce, até eu e os meus desembestados íamos. Para depois, quem sabe, ter alguns dias bacias cheias de guloseimas dos mais variados tipos.
Com o tempo, passei a gostar só dos doces mais rejeitados, os doces de que ninguém gostam, os doces que decepcionam quando a gente abre o saquinho. Porque tem a tradição do saquinho de doces e da troca dos doces nos saquinhos. É, pega a visão.
Atualmente, se aparecem dois saquinhos para os meus filhos, eu fico comovido feito o diabo. Até agora, nada.
Me lembrei da Raimunda, que era casada com o Santos, que era frentista. Eles tinham a Letícia, a Ana Paula, o Cosme e o Damião, irmãos gêmeos que foram batizadas na igreja de São Jorge da Piedade. Essa família toda morava em um pequeno resquício de cortiço, com banheiro coletivo, nunca esquecerei nas minhas retinas fatigadas, bem perto da fábrica de açúcar União, que virou um conjunto de apartamentos. Quando passo pela região, não sinto mais o cheiro de açúcar nas narinas.
E muito perto dali, a Funabem. Que virou Faetec! Não preciso de GPS para andar por ali, por ali ninguém me segura. Por ali, eu sou mais eu. Eles não sabem o que este quase senhor carrega consigo.
Sem mais, vamos ao poema:
27 DE SETEMBRO DE 2026
Hoje pedem passagem
São Cosme e São Damião
Vão receber homenagem
Os dois gêmeos irmãos
São santos que tantos são
São santos pra além da oração
Hoje na minha mesa
Tem doce e guaraná
Também tem torta salgada
A gente mal pode esperar
Cuidado, motoristas do local
A criançada está na pista, normal
É dia de São Cosme e Damião
É dia de aventura e emoção
Eu já enchi de doces uma bacia
E vou encher mais uma no fim do dia
Maria mole, cocô de rato, bala Banda
Anel no dedo de faz de conta casa comigo
Cocada branca com gosto de sabão
Pé-de-moleque, meu irmão, e o suspiro
Pingo de leite e doce de amendoim
Me diz aí: o que você guardou pra mim?
Eu sou do povo, tenho orgulho de onde eu venho
Eu não desdenho do engenho do subúrbio
Deus proteja a criança que existe em meu peito
E que ninguém mais roube de mim este direito
Devolva o meu rebuçado
Devolva o meu quebra-queixo
Mas agora se você me beijar, eu deixo
Um beijo não arranca pedaço
Um beijo é só mais um tasco
Um beijo um abraço um beijo
São cariocas da gema
São os dois santos irmãos
Que nunca nos falte o de bom na tradição
São cariocas da gema
São os dois santos irmãos
São são Cosme e são Damião“
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







