Em ‘Bacurau’, é lutar ou morrer no sertão que espelha o Brasil

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Por J.O., publicado em El País

Longa de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles estreia em 29 de agosto chancelado pela crítica estrangeira e eletrizado pelo ambiente político. “Os filmes de gênero são muito mais fortes quando o mundo está alimentando ideias e realidades absurdas”, diz o co-diretor

A visão de um caixão que, durante o cortejo funerário, enche-se de água. Uma mandíbula de tubarão no chão da caatinga que passa em menos de um segundo. Em Bacurau, longa-metragem dos pernambucanos Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que estreia nos cinemas brasileiros no dia 29 de agosto, o sertão não vira mar, mas se converte em palco de uma violenta distopia, com as cores de Glauber Rocha e o estilo western de John Ford, misturado com realismo mágico e ficção científica.

É a evocação de um sertão que também povoa as principais instituições culturais do país, como o Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, que estreou no sábado a 36º Panorama da Arte Brasileira com o título Sertão, ou o Sesc 24 de Maio, com a exposição À Nordeste.




Em Bacurau, vilarejo fictício no meio do nada que recebe o nome de um pássaro “brabo” de hábitos noturnos, o sertão é também o centro do país. Um sertão com uma imagética e uma estética tão peculiares —o sol forte, o verde dos mandacarus, as estradas de chão batido— e, ao mesmo tempo, indissociáveis da ideia geral de Brasil.

O sertão do banditismo, da pistolagem, da grilagem de terras. Uma nação que faz apologia à ignorância, à tortura e à morte. Com um história que se passa no futuro, “daqui a alguns anos”, Bacurau (o filme) ressoa, na verdade, o Brasil de 2019 e o de sempre.

Bacurau cheira a morte. A primeira sequência do longa é a passagem de um caminhão-pipa que atropela caixões pelo caminho. No povoado isolado, mas hipercontectado à Internet, os moradores, com uma grande variedade de gêneros, raças e sexualidades— vivem sem água e escondem-se quando o prefeito em campanha pela reeleição chega para distribuir mantimentos, alguns vencidos, e despejar livros velhos em frente à escola local.

Aí já começa a resistência: em meio à penúria, a médica Domingas (Sônia Braga), Teresa (Barbara Colen) e os demais moradores, com a ajuda dos bandoleiros procurados Pacote (Thomas Aquino) e Lunga (Silvero Pereira) organizam-se e ajudam-se entre eles. Quando o vilarejo literalmente desaparece dos mapas digitais e a comunidade perde a conexão com a Internet, a presença de forasteiros (gringos e sudestinos) coincide com o misterioso aparecimento de cadáveres crivados à bala. Bacurau vive uma carnificina, e é a distante São Paulo que aparece como “paiol” em que execuções públicas são televisionadas ao vivo.

Apesar de ser frequentemente lido como uma distopia contra o Brasil de Jair Bolsonaro, os diretores não confirmam (pelo menos não diretamente) o argumento. “Eu não trabalho com mensagens”, afirmou Mendonça Filho em uma conversa com a imprensa nesta terça-feira.

“É um filme de gênero, os filmes de gênero são muito mais fortes quando o mundo está alimentando ideias e realidades absurdas. E nosso país é muito rico em absurdos, há alimento para mais de dois mil filmes. Bacurau é só mais um”, concordou Dornelles.

Mendonça e Dornelles gostam de lembrar que, quando começaram a produção, em 2009, o Brasil apostava na redução das muitas desigualdades sociais e o clima político, em geral, era de esperança. Quando filmaram, entre março e maio de 2018, muita coisa havia mudado e o longa assumiu um tom premonitório. No sertão do Seridó, no Rio Grande do Norte, a equipe chorou junta, por exemplo, a execução de Marielle Franco, no Rio de Janeiro.

Em 2016, quando concorreu no Festival de Cannes com Aquarius, estrelado por Sônia Braga, Mendonça Filho posou no tapete vermelho ao lado do elenco com cartazes que denunciavam o impeachment de Dilma Rousseff como um “golpe de Estado”. Com Bacuraulevou este ano o Prêmio do Júri da academia francesa.

Estreia na terra brasilis com a chancela da aclamação estrangeira, que, em certa contramão das observações sobre imperialismo no longa, aparece como reforçador das leituras mais políticas do filme .

“A crítica está na gente. A gente que está criticando o Governo e se apoia nas coisas que vemos para reafirmar a sensação de revolta pela perda de direitos, a angústia do Brasil que ainda se vê colônia exploratória em pleno 2019”, diz Karine Teles, que interpreta uma das forasteiras que rompem a rotina do vilarejo.

A estrela Sônia Braga, que dedicou seu papel a Marielle Franco, é mais direta em suas colocações políticas. “Minha esperança é que, já que o filme se passa no futuro, desperte nas pessoas um caráter de revisão. Que elas possam rever o Brasil e nossas necessidades, porque, no fundo, todo mundo quer a mesma coisa, de verdade.

Quem é que não quer que uma pessoa coma três vezes ao dia, que vá à escola, que tenha cultura? Como vamos voltar a conversar? Eu tenho essa esperança, como artista, de que a gente volte a encontrar um caminho, rápido”, discursou.

Em Bacurau, só há dois caminhos possíveis: resistir e lutar ou morrer. E a cada minuto de suspense bem elaborado, a cada momento em que se invertem os papeis entre oprimido e opressor, o filme faz a plateia vibrar. C

om fotografia e sonoplastia impecáveis, explode em abandono, solidariedade, violência, política, dor e união. Nada sai ileso de lá. Por isso, a placa que dá as boas-vindas ao povoado fictício e ao longa distópico reza: “Se for, vá na paz”.

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