Flávio mentiu ao menos 43 vezes sobre elo com Vorcaro

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Por Luiz Fernando Menezes, compartilhado de Ao Fatos

  • Antes de Vorcaro ser preso, em março, Flávio defendia que o escândalo não tinha envolvidos da direita;
  • Em maio, foram reveladas mensagens entre o senador e Daniel Vorcaro e, primeiramente, Flávio negou que elas existiam;
  • Depois, o candidato admitiu que conversou com o ex-banqueiro, mas negou qualquer irregularidade;
  • Flávio tenta desviar o foco ao atacar o ministro Alexandre de Moraes.

Em uma estratégia mentirosa que foi do desconhecimento à negação, o candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, recusou-se a admitir a existência de um elo entre ele e Daniel Vorcaro ao longo dos últimos seis meses. O vai e vem retórico ganhou uma nova contradição nesta quinta-feira (24), quando documentos da Polícia Federal demonstraram que o senador voou em um jatinho do ex-banqueiro.




Levantamento do Aos Fatos mapeou 43 declarações enganosas do senador sobre o caso e identificou ao menos cinco estratégias desinformativas diferentes para tentar se desvencilhar do escândalo do Banco Master e de Daniel Vorcaro. Em maio, Aos Fatos já havia registrado ao menos 12 mentiras.

A ligação entre os dois foi revelada em maio deste ano e, desde então, vazamentos têm detalhado conversas e encontros. Flávio é investigado por suspeita de corrupção em meio ao financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia ficcional do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Há indícios de que Vorcaro tenha pago ao menos US$ 12,3 milhões ao filme, mas a PF investiga se o dinheiro foi desviado para custear as despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA.

Veja abaixo como a defesa de Flávio tem mudado com o andar das investigações e revelações sobre o caso:

1. Desconhecimento

A primeira desinformação do arsenal de Flávio sobre o Banco Master apareceu antes mesmo de Daniel Vorcaro ser preso pela segunda vez, em março de 2026.

Durante uma entrevista ao programa Pânico, da Jovem Pan, em fevereiro, ao ser questionado sobre os escândalos de corrupção, ele disse que as investigações estariam “causando nojo” em todo mundo e que evidenciaram a sujeira do governo atual, uma vez que o caso estaria “acontecendo durante o governo Lula”.

Apesar da investigação e das prisões terem ocorrido durante a gestão petista, o caso trata de crimes cometidos desde antes do atual governo.

Informações divulgadas até o momento da declaração de Flávio davam conta de que servidores do BC indicados pela gestão de Bolsonaro estavam sendo investigados e que também havia apurações envolvendo a diretoria do BRB (Banco de Brasília), nomeada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado do ex-presidente.

Mais tarde, esse argumento enganoso virou até slogan de campanha: “O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”. Nem a primeira parte da fala é verdadeira.

Apesar dos vazamentos revelarem nomes de diferentes espectros políticos, Flávio também bateu na tecla de que o escândalo não estaria relacionado a seus aliados. No dia 24 de março, por exemplo, disse que “a conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”.

Essa fala, muitas vezes, vinha acompanhada de duas informações verídicas:

  1. Que Lula teria se reunido com Vorcaro, fora da agenda;
  2. E que o PT da Bahia estaria envolvido com o Banco Master.

Reunir-se com Vorcaro, no entanto, não necessariamente prova alguma irregularidade por si só. O próprio Flávio teve ao menos dois encontros presenciais com o ex-banqueiro.

Já sobre o caso do PT da Bahia, Flávio omite que diversos governos estaduais e municipais aplicaram seus fundos previdenciários no Master e, consequentemente, perderam o dinheiro com o fechamento do banco. Estão entre eles: o governo do Rio de Janeiro, de Cláudio Castro (PL), o governo do Amazonas, de Wilson Lima (União Brasil), e o governo do Amapá, de Clécio Luís (Solidariedade).

2. Negação

No dia 13 de maio, o Intercept Brasil divulgou conversas entre o senador e o ex-banqueiro, nas quais Flávio teria negociado R$ 134 milhões para a produção do filme. O conteúdo revelado mostra o senador conversando em tom amigável com o banqueiro ao cobrar o pagamento das parcelas do investimento.

Antes da publicação da reportagem, Flávio reagiu com uma gargalhada ao ser questionado sobre as mensagens pela primeira vez em entrevista coletiva. O senador chamou o repórter do veículo de “militante” e disse: “É mentira, pelo amor de Deus, de onde você tirou isso?”.

3. Admitiu relação, mas sem irregularidades

Na noite do dia 13 de maio, Flávio publicou um vídeo confirmando que as mensagens eram verdadeiras. Na gravação, Flávio disse que a conversa não prova nenhuma irregularidade, o que foi repetido exaustivamente nos meses seguintes. Segundo ele, seria “apenas um filho buscando investimento privado para o filme do pai”.

Essa alegação, no entanto, não se sustenta com base nos documentos e informações disponíveis até o momento.

Primeiramente, o escândalo do Master envolve desvios de recursos públicos, já que o banco recebeu dinheiro de fundos de pensão de servidores, como do Rioprevidência, e deixou um rombo no BRB estimado em R$ 8 bilhões. O INSS também identificou descontos indevidos feitos pelo banco aos benefícios de milhares de aposentados.

Além disso, há uma outra investigação, sob relatoria do ministro Flávio Dino, que investiga se houve desvio de emendas parlamentares para financiar o filme. Até o momento já se sabe que uma das entidades presididas pela empresária Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora, recebeu R$ 2 milhões de duas emendas parlamentares.

O segundo ponto que vai contra o argumento de Flávio é que a PF ainda investiga se o dinheiro foi, de fato, para o filme. No pedido de investigação aberto pelo STF, por exemplo, o ministro André Mendonça solicita que sejam apuradas a existência de possíveis práticas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, entre outros delitos correlatos durante a produção de “Dark Horse”.

Uma das suspeitas é de que parte desses valores pode ter sido desviada e usada para custear as despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos com a família em fevereiro de 2025.

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Ainda no vídeo de 13 de maio, Flávio argumenta que, na época das conversas, “não tinha absolutamente nenhuma acusação contra ele”, referindo-se a Vorcaro.

As mensagens divulgadas pelo Intercept mostravam que o ex-banqueiro e o senador trocaram mensagens entre setembro e novembro de 2025. Em abril de 2025 — cinco meses antes, portanto — a revista Piauí já havia revelado que o Banco Master não tinha dinheiro para pagar os CDBs emitidos e que havia uma operação política para tentar salvá-lo.

Flávio também ignora o conteúdo das próprias mensagens, que sugerem que o senador estava inteirado sobre as operações que envolviam o ex-banqueiro:

  • Em áudio enviado a Vorcaro em setembro de 2025, ele disse que sabia que o banqueiro estava “passando por um momento dificílimo”. Dias antes, o Banco Central havia reprovado a venda do Master para o BRB;
  • E a última mensagem divulgada é de 16 de novembro de 2025, véspera da prisão de Vorcaro. Nela, Flávio diz: “Estou e estarei contigo sempre”.

Na última quinta-feira (24), o Estadão revelou que Flávio tentou contato telefônico com Vorcaro em todos os quatro dias anteriores à primeira prisão e que a PF suspeita que a troca de mensagens teve início em dezembro de 2024.

4. Promessa de transparência

No dia 19 de maio, poucos dias depois da revelação do Intercept Brasil, Flávio concedeu uma entrevista à imprensa dizendo que iria apresentar as despesas do filme e que, para isso, solicitou que a produtora e o fundo americano organizassem a prestação de contas.

Isso, no entanto, não aconteceu. Em junho, a produtora entregou uma perícia feita por um profissional terceirizado que dizia que não havia sido identificado uso de dinheiro público. Desde então, Flávio passou a defender que essa seria a “prestação de contas” que havia prometido. Em 28 de agosto, ao ser questionado durante a sabatina do JN, por exemplo, ele disse:

“Tudo já veio à tona pela imprensa. Há dois ou três dias, mais uma vez, uma reportagem da revista Veja, tratando não apenas da prestação de contas, mas também da perícia. O que a perícia conclui, Tralli? Conclui que não tem um centavo de dinheiro público nesse filme”.

O que Flávio omite é que a perícia não explica muita coisa. Além de não detalhar as notas fiscais das despesas da produção, o perito afirmou que não teve acesso aos gastos nos EUA — que totalizavam quase 70% das despesas.

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5. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”

Flávio tem tentado ainda se desvencilhar do caso ao chamar a atenção para outra pessoa: o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Desde o dia 1º de setembro, quando o Estadão revelou supostas novas mensagens de Vorcaro destinadas a Moraes, Flávio tem atacado o magistrado.

Durante sua fala na manifestação de 7 de Setembro, por exemplo, o candidato à Presidência entoou várias vezes o bordão que passou a guiar sua campanha: votar em Lula seria votar em Moraes.

Esse ataque é contraditório, porque ignora que Moraes não é o único ministro que conversou com o banqueiro: há mensagens que mostram que Vorcaro teria se encontrado com o filho de Luiz Fux, com o ministro Dias Toffoli, com Mendonça e com Nunes Marques.

No caso de Nunes Marques, mensagens da PF sugerem que o ministro solicitou favores de Vorcaro por meio do advogado Newton Ramos e comemorou um voto que beneficiou o ex-banqueiro. Quando Flávio foi questionado sobre esses vazamentos, no dia 21 de setembro, no entanto, disse que não estava sabendo das acusações.

Uma contradição recente aconteceu nos últimos dias: o senador criticou Moraes por ter viajado em agosto de 2025 num avião de uma empresa de Vorcaro. No entanto, nesta quinta-feira (24), foi revelado que Flávio viajou na mesma aeronave, mas em outro voo, dos Estados Unidos para o Brasil.

Segundo o senador, não seria o mesmo caso, porque, na época, o avião seria de Willer Tomaz, e não de Vorcaro. Na verdade, o ex-banqueiro detinha um terço das cotas da aeronave por meio da empresa Prime You, da qual era sócio.


Desinformações pontuais

Além das mudanças de defesa, Flávio também usou argumentos enganosos em casos específicos: em março, quando a imprensa divulgou que a CPI do INSS recebeu uma lista de contatos do celular de Vorcaro e que nela constava o número do senador, Flávio afirmou que não conhecia o ex-banqueiro.

A mentira durou apenas dois meses: em maio, foi revelado que os dois não só trocaram mensagens telefônicas como também se encontraram. Nas conversas, o senador chama o banqueiro de “irmão” e “irmãozão”.

Já em maio, quando o Intercept Brasil publicou as conversas, Flávio disse que o último pagamento que Vorcaro teria feito ao filme teria ocorrido em maio de 2025. Mais tarde, no entanto, um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) divulgado pela piauí mostrou uma transferência realizada em 16 de setembro de 2025.

Em julho, quando o ICL Notícias revelou que havia uma foto de Flávio com Sicário, mercenário ligado a Vorcaro, ele disse que a imagem teria sido feita com IA — não há nenhuma prova que indique isso.

O senador também repetiu ao menos quatro vezes que defendia a abertura de uma CPI para investigar o caso do Banco Master. Essa fala, omite, no entanto, que ele assinou apenas dois de cinco pedidos de comissão.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa de Flávio na tarde desta quinta-feira (24). A reportagem será atualizada caso haja resposta.O caminho da apuração

Aos Fatos tem acompanhado as falas e publicações de Flávio Bolsonaro. As declarações foram reunidas em argumentações, colocadas em ordem cronológica e desmentidas com base em documentos públicos e reportagens da imprensa.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa de Flávio por meio de mensagem no WhatsApp para abrir espaço para comentários.

Referências

  1. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5 e 6)
  2. UOL (1 e 2)
  3. g1 (1, 2, 3, 4 e 5)
  4. Intercept Brasil
  5. BBC Brasil
  6. CNN Brasil (1, 2, 3 e 4)
  7. DW
  8. Piauí (1 e 2)
  9. Estadão (1 e 2)
  10. Veja
  11. Globoplay
  12. O Globo
  13. Metrópoles
  14. O Tempo
  15. Folha de S.Paulo

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