Cantor, compositor, violonista e cozinheiro, foi o fundador do lendário restaurante Soteropolitano, em São Paulo, e deixou mais de 150 canções
Por Julinho Bittencourt, compartilhado de Fórum
Foto: Bibi Valverde e o Vô Júlio durante o Canta Comigo, da TV Record.Créditos: Reprodução de Vídeo
O Brasil perdeu nesta quarta-feira (08), Júlio Valverde, compositor, violonista e cozinheiro nascido em Salvador, em 1944. Radicado em São Paulo desde os anos 1980, Valverde construiu uma trajetória singular que uniu arte, culinária e cultura popular, tornando-se referência como criador do restaurante Soteropolitano, espaço que ele próprio definia como “de resistência cultural e política”.
A morte foi anunciada pela família nas redes sociais:
A trajetória
Filho e neto de pianistas, Júlio cresceu cercado por música — o pai era apaixonado por ópera, e ele logo se encantou pelas sonoridades populares da Bahia, como o samba, a chula e o ijexá. Formado em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia em 1983, viveu parte da juventude na Europa antes de se mudar com a família para São Paulo, em 1986.
No bairro de Pinheiros, fundou em 1995 o restaurante Soteropolitano, que se tornaria um ponto de encontro de artistas, intelectuais e militantes. Foi ali, entre quitutes e conversas, que Valverde redescobriu a vocação para a composição. Criou mais de 150 canções, muitas delas registradas por grupos como Zarabatana, Pau d’Água, Ôctôctô e Naquele Tempo — além de seus filhos, também músicos.
Reconhecido em 2020 como mestre da cultura e guardião da tradição oral pelo Prêmio Aldir Blanc, Júlio teve sua vida e obra estudadas pelo pesquisador Yuri Prado, da USP, e retratadas no documentário Dois Irmãos, do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA). Em 2022, recebeu apoio do ProAC para gravar um álbum dedicado inteiramente às suas composições, com participação de familiares e parceiros musicais.
Em entrevista recente, ele dizia com simplicidade: “Sou um compositor desconhecido que tem algumas canções — e por sinal, Bianca canta algumas”.
Bibi Valverde
Bianca, a neta — conhecida como Bibi Valverde — é a mais nova estrela da linhagem musical da família. Aos 11 anos, venceu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) como Intérprete Revelação, pelo musical Kafka e a Boneca, e encantou o público ao interpretar “Redescobrir”, de Gonzaguinha, no programa Canta Comigo Teen, da TV Record.
Na ocasião, Júlio fez uma aparição surpresa no palco, protagonizando um dos momentos mais emocionantes do programa. “Ela se colocou à prova e a espiritualidade dela se impôs naquele palco”, disse, orgulhoso.
Para todos os que estavam por lá, era um encontro emocionado e orgulhoso de gerações. Já para os que acompanham a trajetória de Júlio Valverde e sua família, ali se desenhava um laço de ancestralidade, movimento e arte.
Sobre aquele dia, o avô conta que o desempenho dela foi “fantástico”. Segundo ele, “ela se colocou à prova nesse percurso que vem traçando com relação ao canto. E a espiritualidade dela se impôs naquele palco”. “Eu sou um compositor desconhecido, que tem algumas canções – e por sinal Bianca canta algumas, tenho um disco no Spotify que se chama ‘Saveiro’. São músicas minhas e de parceiros”, conta.
Abaixo Bibi canta “Ilhabela”, parceria do avô com a mãe:
Renato Rovai homenageia o amigo
O jornalista Renato Rovai, editor desta Fórum, fez homenagem ao amigo nas redes sociais. “Meu amigo partiu, encantou-se. Vão fazer muita falta a boa comida, a boa música e os bons papos com Júlio Valverde. Por sorte eu pude me despedir dele há poucos dias no seu derradeiro e emocionante show no icônico Ó do Borogodó, onde em muitos domingos à noite me diverti e me embriaguei ao som da Pau d’Àgua, liderada por Júlio”, lamentou Rovai.
Veja abaixo:







