Lourenco

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A VEZ DOS HOMENS.

Lisonjeadas com tantas músicas dedicadas a mulheres, as cantoras decidem fazer o inverso, reviver canções protagonizadas por homens.
Meninos, pequenos e grandes, adolescentes, envelhecentes, homens sóbrios ou embriagados. Os que enfrentam trabalhos árduos, os migrantes, os que traem e os que são traídos. Os que cantam e os que desafinam. Os malandros, os valentes, os favelados e os presidentes.
Amantes, feirantes, farsantes, barões, cafetões, todos juntos e misturados, à medida que vêm à mente das cantoras, que formam uma grande roda.




Nana Caymmi pede licença pra dar início, e traz a canção de seu pai:
“João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção
E nem pensa na vida”…

Gal Costa diz o quanto admira a poesia dessa letra, que faz parte de seu LP dedicado a Caymmi:
“E assim adormece esse homem
Que nunca precisa dormir pra sonhar
Porque não há sonho mais lindo
Do que sua terra, não há”…

E Gal segue, lembrando o samba do lendário carioca Ismael Silva, que está no seu LP Fa-tal:
“Oh! Antonico, vou lhe pedir um favor
Que só depende de sua boa vontade
É necessário uma viração pra o Nestor
Que está vivendo em grande dificuldade
Ele está mesmo dançando na corda bamba
Toca cuíca, toca surdo e tamborim
Faça por ele como se fosse por mim”…

Leci Brandão recorda o Zé do Caroço, de sua autoria:
“Num serviço de alto-falante
No Morro do Pau da Bandeira
Quem avisa é o Zé do Caroço
Amanhã vai fazer alvoroço
Alertando a favela inteira”…

As meninas do Quarteto em Cy relembram seu projeto dedicado a Chico Buarque:
“Pedro Pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem, bem de quem não tem vintém”…

Pedreiro que anos depois Chico traz de volta em Construção:
“… E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão como um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego”…

Rita Lee traz à roda, do tempo dos Mutantes, a tragédia que envolve os amigos José e João, retratada como num filme por Gilberto Gil, em Domingo no Parque:
“…Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana, seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João
O espinho da rosa feriu Zé
Feriu Zé, feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração”…

Tudo aconteceu num parque da Boca do Rio, em Salvador, diz Rita.

Elza Soares sente na própria pele o drama de Zelão:
“Todo morro entendeu quando Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou
E era Carnaval
No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a chuva deixou
E ainda é pouco só…”.

Em tom de protesto, Elis Regina canta forte:
“Upa, Neguinho
Na estrada
Upa pra lá e pra cá
Virge, que coisa mais linda
Upa, neguinho começando a andá
Começando a andá
Começando a andá
E já começa a apanhá”..

E Elis retrata o trabalho pesado que ocorre nas salinas:
“Trabalhando o sal
É o amor, o suor que me sai
Vou viver cantando
O dia tão quente que faz
Homem ver criança
Buscando conchinhas no mar
Trabalho o dia inteiro
Pra vida de gente levar”…

Carmen Miranda vem com a história de um moleque:
“Eta moleque bamba
Pega a cabrocha
Pisca o olho
E cai no samba
Esse moleque sabe ser bom
Faz o “footing” lá no Leblon
Bebe, joga, fuma “Yolanda”
Toca trombone na banda”…

Em seguida Nora Ney:
“Dorme, menino grande
Que eu estou perto de ti
Sonha o que bem quiseres
Que eu não sairei daqui
Ó vento, não faz barulho
Meu amor está dormindo
E o mar, não bate com força
Porque ele está dormindo”…

Nara Leão aborda a fase da adolescência de Paulinho da Viola:
“Tinha eu catorze anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou- me se eu queria
estudar Filosofia, Medicina ou Engenharia
Tinha eu que ser doutor
Mas a minha aspiração
Era ter um violão
Para me tornar sambista
Ele então me aconselhou:
Sambista não tem valor
Nesta terra de doutor”…

Adriana Calcanhotto toma a palavra:
“Esses moços
Pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam
Não passavam
Aquilo que eu passei
Por meus olhos, por meus sonhos
Por meu sangue
Tudo enfim
É que eu peço
A esses moços
Que acreditem em mim”..

E começa Zizi Possi:
“O Escurinho era um escuro direitinho
Agora está com mania de brigão
Parece praga de madrinha
Ou macumba de alguma escurinha
Que ele fez ingratidão”…

E Zizi comenta que nenhuma cantora gravou Pierrô:
“Há sempre um vulto de mulher
Sorrindo em desprezo à nossa mágoa
Que nos enche os olhos d’água
Pierrô, pierrô
Teu destino tão lindo
É sofrer, é chorar
Toda vida
Por amor do amor
De alguém, de alguém”….

Dolores Duran canta outro personagem constante em nossas ruas:
“Camelô, esse dono da calçada
Da conversa bem jogada
Vende a quem não quer comprar
Se tivesse tido a chance de uma escola
Muita gente de cartola
Lhe daria seu lugar”.

E Dolores lembra outra canção que não foi gravada por cantoras:
“Sonhei que eu era um dia um trovador
Dos velhos tempos que não voltam mais
Cantava assim a toda hora
As mais lindas modinhas
Do meu Rio de outrora
Sinhá mocinha de olhar fugaz
Se encantava com os meus versos de rapaz”…

Já esta aqui mulher também gravou, brinca Gal Costa:
“Se você disser que eu desafino, amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu”…

Monica Salmaso canta este personagem masculino:
“Eu um dia cansado que tava
Da fome que eu tinha
Eu num tinha nada
Que fome que eu tinha
Que seca danada
No meu Ceará”…

E até esta teve mulher que cantou, diz Gilda de Abreu, rindo:
“Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que me amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou”…

Pesou o clima! Então Maria Alcina resolve suavizar o astral da roda:
“Foi um gol de anjo
Um verdadeiro gol de placa
Que a galera, agradecida, se encantava
Fio Maravilha, nós gostamos de você”…

E Rita Lee vem lembrar quando cantou com os Demônios da Garoa:
“O Arnesto nos convidou
Prum samba ele mora no Brás
Nóis fumos, num encontremos ninguém
Nóis vortemos cuma baita duma réiva
Da outra vez nóis num vai mais
Nóis num semo tatu”…

Elizeth Cardoso recorda outro cara valente:
“Morreu Malvadeza Durão
Valente, mas muito considerado
Céu estrelado, lua prateada
Muitos sambas, grandes batucadas”…

Ademilde Fonseca puxa esta do fundo do baú:
“Seu Libório
tem três vizinhas:
Manon, Margot e Frufru
Saem todas as tardinhas
Carregando o seu Lulu
Ninguém sabe o que elas fazem
Porém todo mundo diz
Que o Seu Libório é quem manda
Ah! Como o Libório é feliz”..

E lá do baú Elizeth Cardoso resgata outra:
“Cheguei cansado do trabalho
Logo a vizinha me falou:
Oh! Seu Oscar
Tá fazendo meia hora
Que sua mulher foi embora
E um bilhete deixou.
O bilhete assim dizia:
Não posso mais
Eu quero é viver na orgia”..

Beth Carvalho, mais solene:
“Sei que estou
No último degrau da vida, meu amor
Já estou envelhecido, acabado
Por isso muito eu tenho chorado
Eu não posso esquecer o meu passado”..

Maria Bethânia expressa sua admiração por Inezita Barroso e sua dedicação à música caipira raiz, cantando os tristes versos do Jeca:
“Eu sou como o sabiá,
Que quando canta é só tristeza
Desde o galho onde ele está
Nesta viola
Eu canto e gemo de verdade
Cada toada
Representa uma saudade”…

E Beth ainda comenta que, lá no alto da pirâmide, há um famoso personagem que também não foi cantado por mulher:
“Bossa nova mesmo é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original
Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil
Voar da Velhacap pra Brasília
Ver o Alvorada e voar de volta ao Rio”…

Tantas canções, uma lista sem fim. Ao cantarem, provocaram alguns risos, derramaram várias lágrimas, compartilharam emoções.
A roda vai se desfazer. Cada cantora voltará a trilhar seu caminho, seja de pedra, de glória ou de luz.
Mas querem se despedir, todas juntas, brincando:

“Nunca vi rastro de cobra
Nem couro de lobisomem
Se correr o bicho pega
Se ficar o bicho come
Porque eu sou é homem
Menino, eu sou é homem
E como sou”…

Lourenço Paulillo
11 de outubro de 2026.

As canções – data, autoria e intérprete original:

  • João Valentão – 1953, Dorival Caymmi, o próprio autor;
  • Antonico – 1950, Ismael Silva, Alcides Gerardi;
  • Zé do Caroço – 1978, Leci Brandão, a própria autora;
  • Pedro Pedreiro – 1965, Chico Buarque, o próprio autor;
  • Construção – 1971, Chico Buarque, o próprio autor;
  • Domingo no Parque – 1967, Gilberto Gil, o próprio autor;
  • Zelão – 1960, Sérgio Ricardo, o próprio autor;
  • Upa Neguinho! – 1966, Edu Lobo, Elis Regina;
  • Canção do Sal – 1966, Milton Nascimento, Elis Regina;
  • Moleque Indigesto – 1933, Lamartine Babo, Carmen Miranda;
  • Catorze Anos – 1966, Paulinho da Viola, o próprio autor;
  • Esses Moços, Pobres Moços – 1948, Lupicínio Rodrigues, Francisco Alves;
  • O Escurinho – 1954, Cyro Monteiro, o próprio autor;
  • Pierrô – 1931, Joubert de Carvalho e Paschoal Carlos Magno, Jorge Fernandes;
  • Camelô – 1959, Billy Blanco, Dolores Duran;
  • O Trovador – 1964, Evaldo Gouveia e Jair Amorim, Altemar Dutra;
  • Desafinado – 1958, Tom Jobim e Newton Mendonça, João Gilberto;
  • Pau-de-Arara – 1964, Carlos Lyra e Vinicius de Moraes. Getúlio de Paula em 1964 e Ary Toledo em 1965;
  • O Ébrio – 1936, Vicente Celestino, o próprio autor,
  • Fio Maravilha – 1972, Jorge Ben, hoje Benjor, o próprio autor;
  • Samba do Arnesto – 1953, Adoniran Barbosa, o próprio autor;
  • Malvadeza Durão – 1957, Zé Kéti ( José Flores de Jesus), o próprio autor;
  • Seu Libório – 1941, João de Barro e Alberto Ribeiro, Vassourinha;
  • Oh! Seu Oscar – 1939, Wilson Batista e Lupicínio Rodrigues, Cyro Monteiro;
  • Fez bobagem – 1942, Assis Valente, Aracy de Almeida;
  • Degraus da Vida – Nelson Cavaquinho, César Brasil e Antonio Braga. Roberto Silva em 1961, Orlando Silva em 1970;
  • Tristeza do Jeca – 1918; letra em 1926, Angelino de Oliveira, Patrício Teixeira;
  • Presidente Bossa Nova – 1961, Juca Chaves, com o próprio autor;
  • Homem com H – 1974, Antonio Barros. Os Três do Nordeste em 1974, Ney Matogrosso em 1981.

Fonte principal:
Coleção Música Popular Brasileira
Copyright 1970 Abril Cultural e Industrial.

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