Entre Feldman e os ativistas, quem Marina lançará ao mar

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Bem Blogado: “Marina se diz a favor e entusiasta das manifestações de junho de 2013. O seu coordenador de campanha, Valter Feldman criou projeto de lei que tipifica de terrorismo estas manifestações. Com que Marina fica?

Por Patrick Mariano, para o Viomundo




A contradição é inerente ao ser humano. Na política, permeia todas as decisões e  seu próprio dia a dia.

Quanto mais alto o cargo, maiores as escolhas a serem feitas e amplas suas consequências.

Fixado essa compreensão de ponto de partida, não se desconsidera que a contradição não é um problema em si. De modo que dizer que Marina é cheia de contradições pouco quer dizer, dado que as contradições pululam, também, no projeto de governo petista.

A questão hamletiana de Marina é como ela lidará com as contradições dentro do seu projeto de poder e das condições que levaram a conquistá-lo, caso eleita.

É sabido que o leque de alianças construídas por ela e Eduardo Campos é composto pelo que sobrou dos partidos que orbitavam o sistema solar petista e tucano.

Nomes como Roberto Freire, Malafaia e Jorge Bornhausen (este último, ficou conhecido pela infeliz frase “precisamos acabar com essa raça”, referindo-se aos petistas) passaram a constituir a órbita Marineira e é com eles que se pretende formar a nova política.

São essas contradições que o seu projeto de poder terá que lidar. Se hoje são grandes as dificuldades petistas em conviver e dar conta do anseio de ruralistas, moralistas religiosos, peemedebistas e todos esses seres que compõem a base aliada, os de Marina não serão menores.

Aí, é que mora seu maior dilema. O PT é um dos maiores partidos da política brasileira e conta com uma base de sustentação capilarizada. É fruto de um projeto de poder que conseguiu juntar a teologia da libertação, sindicatos, movimentos sociais, intelectuais e líderes cassados e banidos pela ditadura.

E o que tem Marina, o povo? Isso é arriscado e o suposto assenhoramento da vontade popular serviu, ao longo da história, para sustentação de propostas autoritárias de poder.

Para ficarmos em um exemplo simples, o coordenador de campanha de Marina, Walter Feldman, é autor de um projeto de lei (PL 4674/2012) que tipifica o terrorismo, tendo inclusive realizado eventos na Câmara dos Deputados com vistas à sua aprovação.

Se Marina sair vitoriosa, Feldman com certeza ocupará posto central em sua administração.

O movimento de junho de 2013 – do qual Marina sempre se refere como herdeira política — sofreu com a repressão e violência policial.

À época, algumas iniciativas para aumentar a punição aos ativistas que foram às ruas surgiram. Entre elas, o debate sobre a tipificação do terrorismo, que tem em Walter Feldman um grande entusiasta.

Por óbvio essas iniciativas de sufocar as manifestações populares receberam o rechaço dos movimentos sociais organizados.

Falamos disso aqui no Viomundo. Mais de 100 entidades assinaram um manifesto contra a tipificação do terrorismo.

No manifesto, chamo atenção para esses dois parágrafos:

Nos últimos anos, houve intensificação da criminalização de grupos e movimentos reivindicatórios, sobretudo pelas instituições e agentes do sistema de justiça e segurança pública. Inúmeros militantes de movimentos sociais foram e estão sendo, através de suas lutas cotidianas, injustamente enquadrados em tipos penais como desobediência, quadrilha, esbulho, dano, desacato, dentre outros, em total desacordo com o princípio democrático proposto pela Constituição de 1988.

Neste limiar, a aprovação pelo Congresso Nacional de uma proposta que tipifique o crime de Terrorismo irá incrementar ainda mais o já tão aclamado Estado Penal segregacionista, que funciona, na prática, como mecanismo de contenção das lutas sociais democráticas e eliminação seletiva de uma classe da população brasileira.

Ou seja, a ideologia que Feldman defende em seu projeto de lei é oposta à daqueles que querem maior liberdade de expressão e participação na política, base social reivindicada por Marina.

Entre essa ideologia do seu coordenador e a desses movimentos, com quem ficará Marina? Aí se apresenta a encruzilhada shakespeariana do projeto de poder de Marina.

Outro exemplo nesta seara de direitos humanos e repressão é a proposta do PSDB de reduzir a maioridade penal. Num eventual aliança para um governo Marina, como ela decidiria sobre essa questão?

Roberto Freire, outro prócer Marinista, votou contra o marco civil da internet. A base dos sonháticos da sua Rede faz da internet um instrumento de participação e ativismo político.

Entre mais liberdade de rede e a visão de um dos pilares de seu projeto, Roberto Freire, com quem ficaria Marina?

Nisso reside sua maior fragilidade. Sem um partido com força histórica e base social de sustentação, nem programa político minimamente consistente de poder, Marina seria uma nau à deriva.

No entanto, com todas essas contradições no seio de seu projeto político, Marina disse que governaria com o povo.

Do ponto de vista da retórica, perfeito, mas na prática do exercício cotidiano do poder, uma temeridade.

Tendo a tarefa de conciliar o seu pensamento com o de seus principais aliados, como Malafaia, Roberto Freire, Feldman e Bonhaurser, Marina terá que navegar necessariamente por mares conservadores. É o preço do seu almoço.

Se o PSDB se somar ao projeto Marinista, terá menos ainda. O que leva à constatação de que a proposta de nova política construído por Eduardo e Marina é, na verdade, lembrando Cazuza, um museu de grandes novidades.

A nau Marinista se lançou ao mar, tendo como tripulantes muitos piratas do atraso. Até agora, vem constantemente abrindo mão dos poucos pilares libertários que seu projeto possui. Foi assim na questão LGBT, na econômica e tem sido assim em várias outras questões.

Entre os eleitores de Marina que não optaram pelo voto anti-PT, existem aqueles que ainda querem enxergar aquela professora da Amazônia, aluna da teologia da libertação e parceira de Chico Mendes. Infelizmente, isso já desmoronou há algum tempo, quando optou por uma proposta individual de poder, ancorada em nomes como Malafaia, Roberto Freire e Jorge Bornhausen. Aquela Marina dos tempos das lutas dos seringueiros não aceitaria esses como seus companheiros, a da nova política, sim.

Se a contradição é o que move o ser e o mundo da política, Marina vem dando sinais claros de que diante de dilemas concretos, frutos dos nós ideológicos existentes em sua base de sustentação, opta sempre pelo lado mais conservador.

Trocando em miúdos, ao ter que decidir entre Malafaia e Jean Willys, não pestanejou em empurrar esse último ao mar. Entre Feldman e os militantes de junho, quem empurrará ao mar revolto?

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