O incêndio criminoso ocorrido nesta quarta-feira (7) em um laboratório da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) destruiu a materialização de duas décadas de dedicação científica. Mais que isso, expôs o alvo preferencial de uma extrema direita que há anos transformou o conhecimento em inimigo a ser abatido.
O reitor Alfredo Gomes estimou o prejuízo em R$ 100 milhões. Entre equipamentos, insumos e materiais, o incêndio atingiu diretamente anos de trabalhos de quase 100 estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado.
“É a perda de duas décadas de trabalho”, resumiu um pesquisador que viu sua vida acadêmica virar cinzas. A frase, que deveria comover o país, é o retrato de um projeto de destruição que não começou com o discurso.
O ódio à ciência
O incêndio na UFPE precisa ser lido no contexto de uma ofensiva sistemática contra as universidades públicas brasileiras.
Desde 2019, o bolsonarismo tratou a educação e a ciência não como prioridades nacionais, mas como trincheiras a serem conquistadas. Foram cortes brutais no orçamento da Capes e do CNPq. Foram ataques histéricos às humanidades, rotuladas de “balbúrdia”. Foi a perseguição a reitores, a intimidação de professores e o estímulo velado, quando não explícito, à hostilidade contra quem produz conhecimento. A mensagem é de que a universidade não deve ser lugar de pensamento crítico, mas de obediência.
As ameaças não são coincidência
Um dia após o incêndio na UFPE, a Universidade Federal Fluminense (UFF) divulgou nota oficial denunciando ameaças à sua comunidade acadêmica. Os dois episódios têm o mesmo alvo: quem pensa, quem pesquisa e quem ensina.
A extrema direita brasileira e seus asseclas, dentro e fora das instituições, elegeram a universidade pública como inimiga. E o ataque é generalizado: no orçamento, no discurso, na intimidação e, agora, na violência física.
Os mesmos que defendem “liberdade” nas redes sociais são os que exigem o silenciamento de professores. Os mesmos que falam em “patriotismo” são os que queimam o futuro do país ao destruir suas pesquisas. Os mesmos que se dizem defensores da família são os que atacam a formação das próximas gerações.
Reconstruir bancadas, repor equipamentos e retomar experimentos é possível — desde que haja investimento público. Isso exige exatamente o oposto da política de sucateamento defendida pela extrema direita, com seus anúncios de cortes e o “tesouraço” proposto por Flávio Bolsonaro.
Mas o ambiente de segurança para pesquisar não será facilmente recuperado, principalmente se a extrema direita chegar ao poder. Não há produção de conhecimento de qualidade sob ameaça, e nenhuma universidade cumpre seu papel social quando professores, alunos e trabalhadores são tomados pelo medo.
O incêndio na UFPE é o desfecho de anos de incentivo ao ódio contra a universidade pública, à desqualificação da ciência e à perseguição de quem ousa pensar de forma autônoma. A perda de duas décadas de trabalho não é só do pesquisador, mas da sociedade. Pacientes, estudantes, cidadãos que dependem do conhecimento que ali estava sendo produzido.
Enquanto a extrema direita trata a ciência e a educação como inimigas, ambas seguem sendo a vacina contra o obscurantismo e o negacionismo que eles representam.
Por Andressa Schpallir







