O mundo, cada vez mais, imaginário dos livros

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Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros (Jorge Luis Borges)

E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva ao maravilhoso mundo dos livros. Um mundo do qual Jorge Luis Borges era incapaz de imaginar o fim, mas que, infelizmente, está cada vez mais presente.




Vou pegar carona aqui no texto do César e colocar algum otimismo neste mundo que, perdão pelo trocadilho, no qual o livro tem sido, cada vez mais, página virada”.

Em Paquetá, almoçamos nos finais de semana na Casinha amarela, das manas Andréia e Márcia. Num destes dias, um dos rapazes que servem as mesas, o Keven, 20 anos, me procurou, dizendo: “A Andreia e a Márcia me disseram que você gosta de ler e eu também gosto”. Perguntei, feliz da vida, sobre o que ele estava lendo. Respondeu: “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos. Disse a ele que poderia ir à minha casa para ver a biblioteca do Senhor W e escolher o que quisesse ler. Pois bem, o Keven se tornou um assíduo emprestador de meus livros.

Outro dia, perguntei a ele o motivo de não ter me procurado ultimamente, e ele me disse: “É que estou lendo quatro livros”. Só lembro de dois que ele me disse: “Triste Fim de Policarpo Qauresma”, de Lima Barreto e “Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Grande Keven!

Iiiii, me estendi demais! Vamos às bibliotecas do Cesar:

“Livros são objetos transcendentes. Uma das exigências que fiz em relação a este apartamento onde moro na Beija-Flor era que tivéssemos espaço para montar biblioteca. Ela está aqui, instalada em um recuo da sala onde seria, no projeto original, um espaço reservado para uma copa.


Veio-me a vontade de listar as bibliotecas de gente minha,quase todos suburbanos.
A casa do tio Celso
Quando eu era garoto, eu tinha um tio emprestado, o tio Celso. Na verdade, ele foi o padrinho de casamento dos meus pais. A casa dele em Petrópolis me traz recordações tão felizes que o pessoal daqui de casa faz troça da minha pessoa. Riem quando eu digo que quero passar as férias em Petrópolis, que quero morar lá e é ainda lá etc. e tal.
Já não me levam a sério, decerto. Quem viver,verá.


Lembrei-me de que algumas vezes fomos instalados na biblioteca da casa do tio Celso – a casa era grande, mas os quartos estavam ocupados. Lembro-me do cheiro de mofo e das lombadas vermelhas dos livros.


Eu ainda era leitor de coleção Vaga-Lume: “O menino de asas”; “O mistério no cinco estrelas;” Xisto no espaço”; “O gênio do crime”, que não era da coleção mas era como se fosse.


Livros não li ali. Mas, para compensar, eu mexia como se fosse em um caleidoscópio, nos besouros armazenados em potinhos de exame de laboratório que enfeitavam as prateleiras da biblioteca.

As estantes de ferro no apê da Praça Seca
Antes de uma biblioteca sob medida, tive estantes de ferro. Um dos quartos do apartamento foi reservado para a biblioteca e local de estudos: além das estantes, havia a mesa de trabalho e a mesa onde ficava o computador.


Aliás, eis um ponto digno de nota: casa de trabalhador não foi feita para ter espaço para biblioteca. A casa foi feita para dormir, comer, se reproduzir, ver tevê, carregar celular etc., mas não para ler.

A coleção Os pensadores na casa do senhor M
O senhor M ganhou uma coleção dos pensadores da Abril Cultural. Completinha.
O que faz uma pessoa se desfazer de uma coleção como essa? Os tempos eram outros, a coleção era uma referência para os estudiosos de filosofia – e a filosofia era uma referência para o saber como um todo.


Se não me engano, os livros desta coleção ficavam em um guarda-roupa que foi reformado pelo senhor M e a senhora S. Em um dos cantos da sala da casa de Bangu sobressaía “O ser e o tempo”, do Heidegger.

O quarto de meu irmão, o senhor D
Assim como o senhor M, o senhor D também tem esta coleção dos pensadores, quase completa. O senhor D compra livros e livros, que vão se apinhando ao redor do quarto, ocupando os espaços da mesa de trabalho, crescendo aos montes, beirando o céu, se alastrando, invadindo lugares insuspeitados, transbordando pela sala.


Neste apartamento do Engenho Novo ainda havia, na sala, o acervo de meu pai, com seus títulos de psicanálise. Depois da morte dele, Freud e Lacan saíram do Engenho Novo e foram morar comigo, no meu apartamento, na Beija-Flor.

A parede de livros da senhora D
A senhora D não era ainda professora universitária nem mãe – era apenas a amiga de uma namorada minha. No apartamento dela na Gávea um dos quartos era ocupado pela biblioteca feita sob medida: ia até o teto com suas prateleiras brancas. Tinha até escadinha para pegar os livros lá no alto.


Peguei no acervo da senhora D o “Marcovaldo e as estações da cidade”, do Italo Calvino. Não voltei à casa da senhora D para devolvê-lo. Os livros que peguei por empréstimo para fazer a seleção do mestrado eu entreguei. Muito provavelmente hoje ela deve morar em um apartamento de três quartos ou mais.

A casa do senhor R
Na atual casa do senhor R os livros estão acomodados, no segundo andar, em uma sala que dá para os quartos. Pelo menos os dele lá estão, não sei se ocorre o mesmo com os de sua esposa, a senhora R, que também tem muitos livros.


No casa da senhora A
A família da senhora A morava no bairro de Cascadura. Estávamos numa festa familiar quando me deparei com uma biblioteca, a julgar pela poeira, pouco frequentada. Não sei como fui parar neste lugar de sonhos.


Nunca investiguei direito, mas suponho que alguém da família da senhora A tivera formação militar com interesse pelo conhecimento proporcionado por livros. Seriam livros de Engenharia? De Botânica? Da Biblioteca do Exército?


Como gostaria de voltar no tempo para adentrar mais uma vez em tal espaço do qual sei tão pouco. Sinceramente que todos aqueles livros não tenham sido devorados pela poeira dos ônibus que passam velozes em direção ao viaduto de Cascadura; ou por traças e cupins, que lá na área são vorazes em qualquer estação.”

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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