Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista que não engaiola passarinho
“Vixe! O passarinho escapou da gaiola!
Passarinho que foge da gaiola nunca mais aparece…ou volta escondido pra comer o mamão que restou. Invenção minha.
O passarinho fujão é muito curioso, sempre atrás de novidades. Assaz perguntador.
Desde a fuga, perambula pela cidade.
Antes vivia no mato, mas a vida dá voltas. Voou para a cidade e acabou na gaiola.
Tristeza com fim, tanto batalhou que conseguiu escapar.
Agora tudo é festa!
Tanta novidade, de tudo quer saber, vive a perguntar. Ganha a alcunha de Mr. Question.
Dias atrás pousou no imponente edifício da Caixa Econômica Federal, o da Praça da Sé.
Olhos arregalados, inacreditáveis minúcias nas gravuras de Rembrandt.
Letrinhas tão miúdas na parede, nem com lupa! Prefere perguntar e aprende. Afinal, quem tem boca vai a Roma.
Artista holandês, nascido em 1606, gravuras em água-forte e ponta seca.
Diante d’ “O Pesador de Ouro” lá vem pergunta pro educador: quanto tempo teria Rembrandt levado pra completar a obra?
Ninguém sabe, eram os idos de 1630 a 1660. Devia ser um azougue. Produziu 314 gravuras. E mais de 300 pinturas!
Encantado, P (P de ora em diante é o passarinho) banhou-se no chafariz da praça, degustou algumas amoras bem pretinhas, e logo decolou com destino ao vetusto prédio que abrigara o Palácio da Justiça. P disto sabe porque perguntou, claro! “Quem não se comunica se estrumbica”, dizia Chacrinha, o Velho Guerreiro.
P ao ver o Palácio, só não caiu o queixo porque não tem. Nada de cinzento, maçante. Colorido, vibrante.
Agora com nova roupagem: Museu das Favelas.
Que alegria! Voo rasante, quase bate no enorme povoado de santos, flores, imagens, objetos. Sincretismo religioso. Pequenino, sumiu lá no meio pra admirar de perto o emocionante altar.
É a exposição “Com Amor, Alcione”, a Marrom.
Maranhense de longa estrada e desde jovem respeitadora das várias religiões.
Outra sala: os estonteantes trajes da cantora, a coleção completa de tantos desfiles na sua querida Estação Primeira de Mangueira. Ela já foi tema, haja coração!
De origem no mato, P tentava reconhecer nas fotos em branco e preto, ao lado da Alcione, os rostos lisinhos de Bethânia, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Leci Brandão, Martinho da Vila, Chico Buarque de camisa Polytheama, o time que criou quando bem novinho….Cartola e Zica, Tom Zé, Clementina de Jesus!
Eita! P deslumbrado, mergulhando até no passado de tantos artistas.
E agora a luminosa jukebox! P pousa sobre a caixa cantante, curioso. Sacudindo-se, sabe que não é um beija- flor. Se fosse, poderia ficar parado à frente da tela e tentar acioná-la com o bico.
Pergunta a si mesmo: será que dá pra ouvir aquela música da loba? A que ouço quando pouso numa figueira gigante, que quase encobre uma casa antiga?
Deve ser rádio, bem alto, porque nunca vi disco girando na vitrola lá dentro. Nem da Gal, nem do João Gilberto.
P pede ajuda a um educador. Fica lá sentadinho enquanto A Loba não vem.
Ela chega!…diz que é doce, fiel, fala de paixão, traição…eu, hein! vai que piso na bola…não vou comer na mão dela nem pintado de amarelo igual barriga de bem-te-vi.
P se manda, até porque está na hora do museu fechar e ele não quer se auto- engaiolar.
Hora da Ave Maria! Em pleno Pátio do Colégio. A tarde cai , luzes iluminam as brancas paredes, o azul do céu escurece devagar. Ao longe o tanger dos sinos do carrilhão da Catedral.
Emocionado, P solta essa:
E tem gente que diz por aí que São Paulo é feia! Vão se olhar no espelho!
P se abriga e dorme numa árvore do jardim interno do Colégio.
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Manhã seguinte, educadamente dá um bom dia aos moradores do pátio, que enrolam suas mantas e retribuem sua gentileza com sobras da última refeição. Bonito ver que ali são todos iguais, filosofa P.
E sai em disparada. Voa longe, vai “agalhisar” nas árvores do boulevard que irmaniza o Sesc Avenida Paulista e o Itaú Cultural.
Êpa! Que faz esse caminhão aqui no meio? Qual o nome? Busão? Food Truck sem food? Trailer?
Tantas perguntas, os que lá trabalham não sabem responder, são terceirizados.
P recorre ao Santo Google: “Caminhão das Histórias”, envelopado como Jobim-Guaçu, o Grande Jobim, projeto cultural da Prefeitura. Itinerante, de lá vai para uma semana no Horto Florestal e outra no Parque da Luz.
P entra no caminhão. São várias telas. O mesmo vídeo em momentos diferentes. Um senhor de chapéu panamá falando de…PAS-SA-RIN-HO!
Caramba! exclama P. Tem um pássaro na palma da mão dele. Conversam! Podia ser eu. Ele pega um apito de madeira e sopra, sorri. Fala de sua casa em meio à floresta da Tijuca, das águas de março, do pau, da pedra, da lama, da rã, do espeto, das promessas de vida.
P se sente ainda mais leve com a cena tão carinhosa.
E voa tão leve, quase flutua, para o Sesc ao lado.
Logo à entrada, P vê a placa de mirante interditado. Voa pra recepção: Por que?
Reforço do gradil? Retirada da hortinha lá do topo? Tão bonita, uma surpresa lá nas alturas. Bem cuidada, como a do amigo Edmundo, lá da “cidade pequena”.
Ela: acertou na mosca! É pra reforçar a segurança no mirante.
No Sesc, P vê um homem, barba branca um tanto espetada. Por brincadeira, decide segui-lo.
O H (de ora em diante assim chamado o senhor) é meio atrapalhado. Ele se dirige ao banbeiro, a porta vem se abrindo, ele dá passagem, mas ninguém sai. Ah! Cai a ficha! A porta tem sensor, se abre sozinha.
Pior que esquece disso e mais tarde faz o mesmo em outro andar.
Fora o susto ao apanhar o papel-toalha. Era do tipo jato de ar quente, ronco alto.
H quase dá um pulo.
P racha o bico de tanto rir. Não tem dúvida. No dia seguinte vai prosseguir na brincadeira de seguir o H.
Na próxima tarde, H decide ir à Festa de Nossa Senhora Achiropita. É a centésima edição. Toda a receita das dez noites revertida a muito idôneas instituições sociais.
H vai caminhando para a área da Festa. Ansioso pra chegar. Feliz.
Esteve adoentado, pensava que este ano a perderia. Justo a centésima!
Vai cedo, ainda com a luz do dia. Quer evitar aglomeração.
P o segue à distância. E pensa: o H nunca vai chegar. Toda hora ele para pra conversar com alguém. Pergunta o nome, de onde vem, se apresenta, fala que escreve e que tudo é motivo para se inspirar.
Tenta memorizar todos os nomes.
E ainda analisa as pessoas.
Ficou intrigado com um jovem casal. O rapaz se entusiasmou com a conversa, falou que via em mim algo “superior, do bem, especial”, me indicou a leitura de provérbios da Bíblia.
A moça a seu lado, esposa, ficou muda o tempo todo. Não resisti. Mas como perguntar? Dei um jeito discreto. O rapaz: ela é italiana, chegou há três meses.
Ela percebe:
Sono italiana!
O H: Piacere! Mia mamma è nata in Italia. Perché non l’hai detto prima?
P ao longe, falando com suas peninhas: Eu teria logo perguntado!
Ufa! Após falar com Taís sem h, César, Cauan com n, Isabella, a italiana, comentou com o segurança do restaurante Mamma Júlia: devia ser Mamma Giulia ou Mamãe Júlia. Tudo em uma só língua.
H vai chegando à Festa. P sempre o seguindo de longe.
Falta só a Margareth, com sua banca de frutinhas cobertas de chocolate, em espetos. Aqui o H investiga: como é o esquema? Não fazem parte oficial da festa, né?
Ela: não, mas pagamos licença à Prefeitura. Há os penetras também, têm que correr dos fiscais.
H: Entendi. Você seria satélite da festa.
Ela: Nossa, que legal! Vou me definir assim.
Idoso e com máscara, H consegue rápido sua fogazza de todos os anos. E pela primeira vez a curte sentado, após convencer a dona de um pequeno ponto vizinho.
H foi saboreando a fogazza calmamente, ao som das nostálgicas ou alegres canções napolitanas. Recorda que o pai, Edmundo, colocava na vitrola e cantarolava junto.
Satisfeito e realizado, desta vez não assistiu à missa para evitar a aglomeração.
H vai lentamente subindo a Rua Treze de Maio, de volta à Brigadeiro Luís Antônio. P o segue.
Já um tanto cansado, vem vindo uma jovem senhora, H a intercepta:
Moça, andei tanto, está longe a Brigadeiro?
E o P: meu Deus, mais uma vítima!
Ela: Não, bem pertinho.
H: Ah! “Kibon”…Cansei de andar.
Rola mais meia hora de conversa.
H: seu nome?
Ela: Sueli. Com i mesmo, e não y. Mais simples.
H pensa: É das minhas. Sempre quero saber a grafia correta dos nomes que pergunto. Michael ou Maicon, Thaís ou Taís…Teresa ou o antigo Tereza etc etc
Sueli também escreve, desenvolve tese de doutorado. Diz: Gostaria que o senhor lesse e comentasse.
Sueli: Tenho boas referências, contatos com algumas editoras, vou lhe passar pelo whatsapp. Quero muito ler seus textos.
E Sueli finaliza:
Tenho certeza que o senhor vai publicar seu livro bem antes que eu!
P, que espertamente tudo observa, de longe, impressionado com tanta coincidência, conjunção astral, de bico aberto, pensa:
Depois dizem que puxar conversa com desconhecidos é sinal de ansiedade, algum transtorno a pedir ajuda de psicólogo. Pode até ser, mas que pode dar bons frutos, está aí a prova.
Eita passarinho esperto! Sabe das coisas, ele nem precisa perguntar mais nada.”
Lourenço Paulillo
23 de agosto de 2026.
Notas:
Desculpem pela extensão: certos pormenores, que alguns questionam, são o tempero que dá sabor e graça à vida. É minha opinião, fiquem livres para concordar ou não.
- Canção “A Loba”, de Paulinho Rezende e Juninho Peralva.
Canta Alcione. 2001. - Trecho em italiano:
Sou italiana.
Minha mãe nasceu na Itália.
Por que não me disse antes?
Eu a teria entendido.
Primeiro Edmundo, da horta: amigo recente, que me recomenda fortemente podar a figueira gigante, para que a casa receba mais sol. Mais saúde!
Segundo Edmundo, das canções napolitanas: meu querido pai – 1910 – 1988.
Obs. Foto Sabiá-una, feita pelo ornitólogo e fotógrafo João Quental







