Por Márcia Basseto Paes, historiadora
Hoje, como ontem, quem cala consente. Não há neutralidade possível
Paulo Sérgio Pinheiro tem autoridade para pedir que a gente escolha um lado. Foi secretário de Estado dos Direitos Humanos no governo Fernando Henrique, coordenou a Comissão Nacional da Verdade, foi o primeiro presidente da Comissão Arns e presidiu por anos a comissão de inquérito da ONU sobre a Síria. Quando ele diz que não é hora de neutralidade, é testemunho.
Há poucos dias, num ato na Faculdade de Filosofia da USP, ele olhou para a plateia e perguntou onde estavam os professores. Os estudantes estavam lá. Os docentes eram poucos. Aposentado há mais de vinte anos, Pinheiro estava presente. Disse que o que vier depois do segundo turno depende de quem estava na sala e de quem não estava: das universidades, dos movimentos sociais, dos jornalistas, dos partidos. E avisou: “Nós somos o alvo preferencial da retaliação que a ultradireita prepara. Não se iludam a esse respeito”.
Esta é a minha resposta, e um chamado a quem vive de sala de aula e de palco: o silêncio não é uma posição. É uma abdicação.
O que espera a universidade
O processo com o qual estamos vivendo tem nome: autoritarismo socialmente implantado. São as práticas da ditadura que sobreviveram a ela, a começar pelas polícias. Quem estuda a história brasileira sabe que o autoritarismo volta aos poucos, cada vez que quem poderia nomeá-lo prefere a cautela. A violência contra pobres e negros marca até onde a nossa democracia chegou.
No mesmo ato, Paulo Sérgio Pinheiro listou o que espera a universidade se a extrema direita chegar à Presidência: cortes de verba, fim da liberdade, destruição do financiamento à pesquisa, arrocho salarial, perseguição ideológica, prisão de professores e estudantes. Esse será nosso dia a dia, pois o regime de exceção está sendo anunciado com todas as letras.
Quem estudou 1964 a meados de 1980 reconhece o roteiro. Primeiro vêm os cortes, depois as listas, depois as cassações, as aposentadorias compulsórias, os inquéritos, as prisões. Florestan Fernandes, que hoje dá nome à biblioteca da Faculdade de Filosofia (FFLCH), foi cassado em 1969. Florestan teve sorte. Depois das prisões vinham os corpos.
Mortos e desaparecidos
Alexandre Vannucchi Leme tinha 22 anos e estudava Geologia na USP. Morreu no DOI-Codi em março de 1973. Enterraram-no em Perus, sem caixão, numa cova forrada de cal, para que a terra comesse depressa o que a tortura tinha feito.
Ana Rosa Kucinski dava aula no Instituto de Química. Saiu para almoçar com o marido numa segunda-feira de abril de 1974 e nenhum dos dois voltou. No ano seguinte, a universidade a demitiu por abandono de função. Levou quase quarenta anos para desfazer o ato.
Vladimir Herzog ensinava jornalismo na Escola de Comunicações e Artes. Apresentou-se ao DOI-Codi por conta própria, num sábado de manhã, e à tarde estava morto. Fotografaram o corpo pendurado pelo pescoço numa grade tão baixa que os joelhos dobravam, e chamaram aquilo de suicídio.
Heleny Guariba dirigia teatro e formava atores na Escola de Arte Dramática. Foi presa no Rio em julho de 1971 e sumiu numa casa de Petrópolis de onde uma única presa saiu viva. Zuzu Angel, estilista, bordou tanques e pássaros engaiolados nos vestidos para contar ao mundo que lhe tinham matado o filho estudante. Morreu em 1976, na saída de um túnel do Rio, num acidente que o próprio Estado, vinte e dois anos depois, reconheceu ter sido atentado.
Aurora Maria Nascimento Furtado, a Lola, estudava Psicologia na USP e era cunhada de Renato Tapajós. Tinha 26 anos. Mataram-na numa delegacia do subúrbio carioca, em novembro de 1972, com uma tira de aço que os torturadores iam apertando em volta da cabeça até o crânio ceder. Deram ao instrumento o nome de coroa de Cristo. A USP entregou o diploma dela em 2024.
A Comissão Nacional da Verdade contou 434 mortos e desaparecidos e avisou que a conta estava incompleta.
DOPS, abril de 1977
Escrevo também como testemunha. Tenho essa história na carne.
Em abril de 1977, eu, Celso Brambilla , José Maria de Almeida e outros companheiros fomos presos por distribuir, na porta de fábricas do ABC, panfletos sobre o Primeiro de Maio. Naquela época, a direita dizia que não existia ditadura. Dizia isso enquanto nós estávamos no DOPS, sob tortura.
Foram os estudantes que nos tiraram de lá. No começo de maio, a USP entrou em greve contra as nossas prisões, e a greve se espalhou por universidades do estado, depois do Brasil, em maior confronto desde 1968. No dia 5 de maio de 77, dez mil pessoas se concentraram no Largo São Francisco e seguiram até o Viaduto do Chá, na primeira grande passeata no centro de São Paulo desde 1968. Antes de sair, leram em coro uma carta aberta à população que começava assim: “Hoje consente quem cala: basta às prisões, basta de violência”. Celso, Zé Maria e eu escapamos das estatísticas dos mortos e desaparecidos. Muitos companheiros não escaparam.
Por isso, quando se fala em prisão de professores e estudantes, não se trata de uma hipótese. Se trata de uma lembrança.
Até poucos anos atrás, alguns conhecidos que hoje votam nessa aberração que é a família Bolsonaro me olhavam com compaixão ao saber da minha história. Diziam que não tinham feito nada naquela época porque estavam criando os filhos. Uma conhecida me dizia: Eu conheci a mãe de Renato Tapajós (preso de 1969 a 1974 e torturado), coitada! Vi seu sofrimento. Eles viram de perto o que a ditadura fazia com os filhos dos outros.
Mas não aprenderam nada.
Ninguém foi punido
Nenhum torturador brasileiro cumpriu pena. A Lei da Anistia de 1979, que o regime escreveu para si, cobriu todos eles, e o Supremo a confirmou em 2010. A Comissão da Verdade só veio em 2012 e apontou 377 responsáveis. Ustra, que comandou o DOI-Codi de São Paulo, morreu em 2015 sem um dia de cadeia. No ano seguinte, no plenário da Câmara, Jair Bolsonaro dedicou a ele o seu voto.
Mal saímos disso. A Comissão de Anistia, criada para reparar os perseguidos, Jair Bolsonaro entregou à sua capanga Damares Alves. Ela pôs militares para julgar os perseguidos pelos militares. De 4.285 pedidos julgados em quatro anos, a comissão negou 4.081, entre eles o de Dilma Rousseff. Damares anulou 295 anistias já concedidas. O ministério ainda pôs para descarte 17 mil livros, revistas e discos do acervo da comissão, com quinhentas cópias do relatório da Comissão da Verdade no meio.
A outra comissão, a que procura os desaparecidos, foi extinta a dois dias do fim do mandato e reaberta em 2024. As certidões de óbito que diziam suicídio e atropelamento começaram a ser corrigidas no ano passado, e agora dizem morte violenta, causada pelo Estado brasileiro. Só em fevereiro deste ano o Supremo começou a julgar se a anistia protege também quem escondeu os corpos. Há mães que morreram sem enterrar o filho.
O que ficou sem castigo ficou em uso. A delegacia onde mataram Aurora era ponto do Esquadrão da Morte, que já matava pobre antes de chegarem os estudantes e continuou matando depois que eles se foram.
A classe média saiu da mira com a abertura. O rapaz preto da periferia continuou nela. Em 2025 a polícia brasileira matou 6.602 pessoas, dezoito por dia, o maior número já registrado, e 82% eram negras. Em outubro do ano passado, uma única operação no Rio – onde o candidato Flávio Bolsonaro defende miliciano e policial assassino como advogado – deixou 122 mortos em dois dias, mais do que o Carandiru.
Tortura-se em delegacia hoje porque quem torturou ontem nunca cumpriu pena. E quem cuidou para que não cumprisse é quem agora pede o voto: os que fecharam a comissão dos desaparecidos e, depois do 8 de janeiro, pediram anistia outra vez.
Aos que ficaram em casa
Conclamo esses, os que ficaram em casa ontem e hoje se deixam levar por quem chama a ditadura de revolução e torturador de herói: não repitam o silêncio. Os filhos que vocês criavam naquela época hoje dão aula e fazem pesquisa. Os netos estão na escola e na universidade. São eles o alvo de que fala Pinheiro.
Ontem, o silêncio de vocês teve um preço. Aurora pagou com a vida. Nós pagamos menos e saímos vivos. Em 1977, estudantes de vinte anos entenderam o que muitos adultos fingiam não ver.
25 de outubro e Vladimir Herzog
O segundo turno cai num 25 de outubro. Num 25 de outubro, há 51 anos, mataram Vladimir Herzog. Nesse dia o país escolhe entre dois projetos. O PSD declarou neutralidade na noite do primeiro turno. O PSDB liberou os filiados quatro dias depois e, na mesma nota, reafirmou seu compromisso com a democracia. Entendo o cálculo. Não aceito. Neutralidade diante de quem trata a universidade como alvo e a memória da ditadura como peça de propaganda é conivência.
Em 2018, Pinheiro já dizia: “Está na hora de escolher o lado. Não dá para ficar neutro”. Lembrava que só na democracia as vítimas preferenciais da polícia têm os direitos protegidos. Dois anos depois, o nome dele apareceu num dossiê do Ministério da Justiça sobre servidores e intelectuais classificados como “antifascistas”.
Agora, em 2026, ele diz: “Esse momento não admite silêncio dos professores, nem dos alunos, neutralidade, nem desculpa”.
Aos colegas todos, professores, artistas
A sala de aula nunca foi neutra. Ensinar História é ensinar que o Brasil teve escravidão, ditadura, tortura e censura, e que tudo isso se sustentou em gente que achou mais prudente não se meter. Sem fazer da aula um palanque, cabe dizer, dentro e fora da escola, que sem democracia não há escola pública nem professor sem medo de denúncia.
Pinheiro já respondeu às desculpas de sempre: que não dá para se mobilizar, que há pesquisa por terminar e aula por dar. Pesquisa sem verba acaba. Aula vigiada também. Aos estudantes ele deu uma tarefa: “Cobrem a seus professores”.
Prestígio acadêmico obriga. Antonio Candido, Florestan Fernandes, Lélia Gonzalez e Darcy Ribeiro não separaram o rigor da tomada de posição. No ato, Pinheiro lembrou o que Florestan disse como paraninfo da turma de 1964 da Filosofia: os intelectuais universitários são os legítimos defensores da democracia. Pediu que se agisse em honra de quem nos precedeu naquela faculdade.
Quem conhece a história do autoritarismo latino-americano tem o dever de levar esse conhecimento ao debate público, em artigo assinado e em conversa de família. A neutralidade metodológica vale no laboratório e no arquivo.
Quando o ameaçado é o próprio laboratório, ela vira omissão.
A música popular brasileira sabe disso há muito tempo. O cinema filmou a ditadura e a periferia. Muita vez foi a arte que guardou o que o poder mandou apagar. Artista que se cala agora, alegando que não se mete em política, esquece que a liberdade de criar é das primeiras a desaparecer quando a democracia enfraquece.
Temos que ir à ação. Se os estudantes de 1977 foram às ruas para nos tirar do DOPS, nós não temos o direito de faltar. Concordar em silêncio, ou assinar um manifesto e voltar para casa, não resolve. É preciso estar presente.
Compareçam aos atos em defesa da democracia convocados até o segundo turno. Levem os colegas e os alunos.
Levem o nome das suas instituições: a faixa do departamento, a do sindicato docente. Que se veja na rua que a universidade e a escola escolheram.
Organizem aulas públicas e sessões de cinema nos campi e nas praças.
Cobrem posicionamento público de reitorias e entidades científicas.
Conversem com quem ainda hesita. A voz de um professor em quem se confia muda mais votos do que propaganda.
“Não podemos achar que essas três semanas são normais”. Não são.
Não é necessário concordar com tudo de um governo nem abrir mão da crítica. Há momentos em que a escolha é entre regimes de convivência: de um lado, garantias de direitos, ainda que imperfeitas; do outro, a lógica da força. Exigir pureza ideológica agora é luxo de quem não corre risco.
Faltam poucos dias. Que ninguém possa dizer depois que não sabia, ou que achou mais prudente esperar.
LEVE SEUS FILHOS ÀS MANIFESTAÇÕES, ESSA É A MELHOR MANEIRA DE CRIAR UM CIDADÃO DE RESPEITO. ENSINE, DESDE CEDO, O QUE É DEMOCRACIA.
Ou resistimos agora, ou amanhã teremos que explicar, de novo e de novo.
(Muitos, de dentro da universidade – professores, estudantes – que eram contra sair às ruas em 1975, 1976, 1977, hoje se envergonham e se arrependem de suas posições; mas a História é implacável e dói a quem é fiel a ela).
E a vergonha de confessar que, tendo compreendido o perigo, nada fizemos.
HOJE, COMO ONTEM, CONSENTE QUEM CALA.






