Dinheiro em reais, dólares e euros, cofres, malas vazias com etiquetas em nome de terceiros, artigos de luxo e documentos que, segundo uma funcionária, deveriam ter sido queimados
Por Oscar de Barros, compartilhado de Pensar Piauí
Polícia apreende dinheiro vivo em casa de Ciro Nogueira
Dinheiro em reais, dólares e euros, cofres, malas vazias com etiquetas em nome de terceiros, artigos de luxo e documentos que, segundo uma funcionária, deveriam ter sido queimados. Esse é parte do material descrito pela Polícia Federal nas buscas realizadas em endereços ligados ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) durante a quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga as relações de agentes políticos com o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master.
Somadas e convertidas pela cotação atual, as quantias apreendidas chegam a aproximadamente R$ 614 mil em dinheiro vivo. Na data da operação, realizada em 7 de maio de 2026, a Polícia Federal calculava o montante em cerca de R$ 589 mil.
Os detalhes vieram a público após a retirada do sigilo de documentos das investigações do caso Master.
Dinheiro em Teresina e Brasília
Na residência de Ciro Nogueira em Teresina, os agentes localizaram R$ 31.760 em espécie e 14.070 euros guardados em um cofre. Pela cotação utilizada atualmente, somente a moeda europeia equivale a aproximadamente R$ 83 mil.
Em Brasília, onde o senador estava no momento da operação, a PF encontrou em seu escritório US$ 27.735 e 1.555 euros. Na conversão atual, são aproximadamente R$ 152 mil. O relatório da diligência registra ainda a apreensão de 890 liras turcas.
Mas não foi apenas o dinheiro que chamou a atenção dos investigadores.
Segundo o relatório policial, a residência apresentava sinais de elevado padrão econômico, com adega abastecida por vinhos e uísques de alto valor, bolsas de marcas internacionais, joias e relógios.
Os policiais também encontraram malas de viagem vazias identificadas com nomes de terceiros e familiares do senador. A PF registrou a circunstância como elemento que despertou suspeita sobre eventual utilização das bagagens para movimentação física de valores. O relatório, porém, não comprova que elas tenham efetivamente sido usadas para transportar dinheiro.
Irmão de Ciro tinha dólares e euros em cofre
A operação também chegou à residência de Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro e investigado pela PF sob suspeita de atuar como intermediário na relação financeira entre o senador e pessoas ligadas a Daniel Vorcaro.
No imóvel, foram encontrados 10.155 euros e US$ 55.733 em espécie, o equivalente, pela conversão atual apresentada nas reportagens sobre os documentos, a aproximadamente R$ 347 mil.
Raimundo informou aos policiais que o dinheiro estava em um “cofre familiar” e que os recursos correspondiam a economias reservadas para viagens internacionais. A PF também apreendeu equipamentos eletrônicos e veículos.
Outro endereço alvo da diligência foi o da ex-senadora Eliane Nogueira, mãe de Ciro. Os policiais encontraram valores em diferentes moedas, mas decidiram não apreendê-los por não identificarem, naquele momento, indícios de ligação do dinheiro com os fatos investigados.
Papéis na churrasqueira deveriam ser queimados, diz funcionária
Um dos episódios mais chamativos da operação ocorreu na área da churrasqueira da residência de Ciro Nogueira em Brasília.
Segundo o relatório da Polícia Federal, uma funcionária contou aos agentes que os documentos encontrados no local haviam sido entregues pelo senador para serem queimados, sob a justificativa de que seriam papéis antigos ou sem serventia.
A funcionária afirmou que não conseguiu realizar a queima por falta de tempo. A PF apreendeu o material para análise.
Entre os documentos estava um rascunho com a palavra “CÂMARA”, seguida por nomes e números.
A anotação trazia registros como “Arthur – 40”, “Hugo – 10”, “Elmar – 10”, “Luizinho – 10”, “Adolfo – 10” e “Isnaldo – 10”, além de Diego, Altineu e Netinho acompanhados do número 5.
A própria Polícia Federal fez associações preliminares de alguns primeiros nomes com parlamentares, entre eles Arthur Lira, Hugo Motta, Elmar Nascimento, Doutor Luizinho, Adolfo Viana e Isnaldo Bulhões.
Os investigadores ressaltaram, porém, que o significado dos números ainda precisa ser esclarecido. Portanto, a existência da anotação, isoladamente, não comprova pagamento de dinheiro aos parlamentares citados.
Arthur Lira afirmou, por meio de sua assessoria, desconhecer as anotações. Outros parlamentares citados também negaram relação com eventual irregularidade ou optaram por não comentar o documento.
PF investiga atuação de Ciro em favor do Master
A investigação que levou às buscas vai muito além do dinheiro encontrado.
Segundo a Polícia Federal, há indícios de que Ciro Nogueira teria recebido vantagens de Daniel Vorcaro em troca de atuação política favorável aos interesses do Banco Master.
Em decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, registrou que a investigação aponta pagamentos, despesas de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes, voos privados e até disponibilização de imóvel entre os possíveis benefícios concedidos ao parlamentar.
A PF chegou a apontar posteriormente que Ciro teria recebido ao menos R$ 6 milhões em pagamentos mensais entre 2024 e 2025. Essa é uma conclusão investigativa da polícia, ainda sujeita ao contraditório e à análise judicial.
A chamada “emenda Master”
Outro ponto considerado relevante pela PF é uma proposta apresentada por Ciro Nogueira no Senado.
Em 2024, o parlamentar apresentou emenda à PEC 65/2023 para elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
De acordo com a investigação, o texto teria sido produzido pela assessoria do Banco Master e posteriormente entregue ao senador. O STF informou que, segundo os elementos reunidos pela PF, Vorcaro chegou a dizer a interlocutores que a proposta havia saído exatamente como fora enviada.
Ciro Nogueira contesta essa interpretação. O senador já declarou que a iniciativa pretendia apenas atualizar o valor protegido pelo FGC e não beneficiar especificamente o Banco Master.
A relação de Ciro com tentativas de instalação de CPI sobre o Master também passou por momentos distintos. Em 2025, reportagem de O Globo reproduzida por outros veículos apontou que o senador atuava nos bastidores contra uma CPI sobre o banco. Já em março de 2026, Ciro assinou um pedido de comissão para investigar as relações de autoridades com Daniel Vorcaro.
Defesa de Ciro nega qualquer ilegalidade
Desde a operação de maio, a defesa do senador nega que ele tenha cometido crimes.
Em nota divulgada após as buscas, os advogados afirmaram que Ciro “não teve qualquer participação em atividades ilícitas” e criticaram a adoção de medidas consideradas graves e invasivas com base, segundo a defesa, em trocas de mensagens entre terceiros.
O senador também se colocou à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Procurado posteriormente por O Globo para comentar especificamente as novas informações sobre o dinheiro apreendido e o conteúdo dos relatórios policiais, Ciro Nogueira não respondeu aos contatos, segundo o jornal.
Com a retirada do sigilo, porém, a investigação ganhou uma nova dimensão pública: além das suspeitas sobre a relação entre políticos e Daniel Vorcaro, passaram a ficar expostos valores em dinheiro vivo, documentos encontrados em uma churrasqueira e registros que a própria Polícia Federal afirma ainda precisar decifrar.
O caso continua sob investigação e as suspeitas levantadas pela PF ainda não representam condenação dos envolvidos.







