Quem não vota deixa os outros decidirem sua vida

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Votar é participar das decisões sobre emprego, renda, saúde e educação. A ausência nas urnas abre espaço para quem transforma lacração em poder político.

Por André Accarini, compartilhado de CUT




Quase 33,5 milhões de eleitores não votaram no 1º turno das eleições deste ano. A descrença na política pode até tentar explicar esse afastamento, mas a ausência nas urnas tem consequências que não desaparecem quando a votação termina. Quem é eleito passa a decidir sobre a vida de todos, inclusive de quem não participou da escolha.

Você pode ignorar a política, mas a política não vai ignorar você-

A política decide praticamente tudo na rotina e no futuro de uma sociedade, desde os serviços básicos disponíveis até as liberdades individuais. Ou seja, vai dos recursos para o postinho de saúde ou hospital onde sua família é atendida, o remédio de graça para quem precisa, passa pelo investimento e manutenção de escolas e universidades, políticas para o desenvolvimento comercial e industrial que geram empregos e renda além de políticas habitacionais e toda a infraestrutura das cidades.

Por isso, votar exige olhar para a própria vida e perceber quanto dela está nas mãos de quem governa e de quem aprova as leis. Significa também saber que mudanças oriundas de propostas rasas podem comprometer a vida de milhões de pessoas. Por isso a escolha do candidato certo é fundamental.

A eleição passa. As decisões ficam. Entram na sua casa, mexem no seu orçamento e afetam o futuro da sua família. Ninguém fica livre dessas consequências porque deixou de comparecer às urnas.

Há quem enfrente dificuldades reais para votar e precise de condições para exercer esse direito. Mas quem pode participar e decide se afastar por acreditar que “político é tudo igual” precisa considerar o efeito dessa escolha. A eleição vai acontecer do mesmo jeito e alguém ocupará o poder. A vida em si poderá piorar.

Portanto, o ato de não votar não deixa uma cadeira vazia. Deixa a escolha dessa cadeira para os outros.

O que está em disputa

Neste segundo turno, a decisão sobre quem governará o Brasil exige comparar projetos, trajetórias e interesses. Estão em jogo políticas sociais, serviços públicos, investimentos em ciência, educação e tecnologia, além dos caminhos para o desenvolvimento econômico.

A candidatura de Lula representa a continuidade de políticas de proteção social e de investimento público. Do outro lado, Flávio Bolsonaro representa o campo político de seu pai, Jair Bolsonaro. Avaliar essa candidatura exige também olhar para a experiência daquele governo, suas escolhas e suas consequências para a população.

Mais de 700 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil. A inflação corroeu o poder de compra, e a alta dos preços deixou marcas que ainda pesam no orçamento das famílias. O desemprego aumentou, serviços públicos sofreram cortes de recursos e a violência agravou a insegurança da população. São consequências que precisam ser lembradas na hora de escolher quem vai governar o país.

Hoje, o eleitor precisa perguntar o que cada projeto oferece a quem depende do SUS, da escola pública, de uma aposentadoria ou de um salário para viver. Precisa observar quem assume compromissos com esses direitos e quem defende medidas que podem enfraquecê-los.

Precisa também saber o que pensam sobre universidades, sobre desenvolvimento, investimentos dos recursos naturais. Precisa avaliar, inclusive, se que quer o país em papel de subserviência aos Estados Unidos.

A responsabilidade política começa em “entender que uma escolha individual ajuda a definir o destino coletivo”.

A lacração ocupa o espaço

Enquanto uma parte da população se afasta, grupos organizados, sem projetos para a soiedadade e com discursos de ódio mobilizam eleitores. Políticos como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato sabem explorar esse terreno, transformando visibilidade nas redes em votos e poder.

Nikolas Ferreira, deputado federal do PL por Minas Gerais, ganhou projeção no bolsonarismo com discursos conservadores, ataques à esquerda e forte presença digital. Em 2022, foi o deputado federal mais votado do país. Lucas Pavanato, também do PL, foi o vereador mais votado da capital paulista em 2024 e agora foi eleito deputado federal com mais de 3 milhões de votos, a maior votação de São Paulo, segundo o TRE-SP.

Os dois são exemplos de uma política que transforma o confronto em produto. O adversário vira personagem de um vídeo, a discussão vira duelo e a provocação vira demonstração de coragem. Nessa encenação, o político precisa aparecer como vencedor a cada corte.

São figuras da política da lacração, na qual a caricatura do combatente permanente pode ocupar o lugar da discussão sobre os problemas da população.

O próprio Pavanato explicou essa lógica em entrevista à Folha de S.Paulo: “O que desperta o interesse do público é confronto, são os discursos mais enfáticos.” Segundo ele, divulgar projetos não produz a mesma repercussão.

Essa estratégia oferece uma recompensa rápida a quem assiste: ver alguém do “nosso lado” constranger alguém do “outro lado”. O eleitor ri, compartilha, acompanha o próximo vídeo e passa a reconhecer naquele personagem um representante de suas crenças.

Não é possível reduzir a motivação de todos os eleitores à lacração. Mas o problema aparece quando a identificação com o personagem dispensa a avaliação de suas propostas e de sua atuação.

Ganhar uma discussão editada não comprova capacidade de melhorar uma escola. Humilhar alguém diante de uma câmera não resolve a fila de uma cirurgia. Acumular seguidores não demonstra compromisso com salário, emprego ou direitos.

A lacração rende audiência. Um mandato exige responsabilidade sobre a vida da população.

Participe da decisão

Quem não votou no primeiro turno precisa participar do segundo onde houver disputa. As cadeiras do Legislativo já foram definidas. A eleição para presidente e governos de estados (onde há segundo turno) afetarão a vida de todos.

Antes de votar, procure saber quem o candidato representa, quais propostas apresenta e como agiu quando teve poder. Observe se sua trajetória revela compromisso com a população e se suas posições correspondem aos direitos e às condições de vida que você quer defender.

A urna não pode virar um botão de curtida

Quem não vota continua tendo o direito de cobrar, reclamar e participar da vida pública. Mas perde, naquela eleição, a oportunidade de interferir na escolha de quem vai tomar as decisões.

O voto não resolve tudo sozinho. Ele se soma ao de milhões de pessoas e ajuda a definir quem terá poder sobre o dinheiro público, os serviços e os direitos de toda a sociedade.

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