Uma homenagem aos mestres

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E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, faz aqui uma homenagem aos mestres nesta semana em que aquele/a que é da profissão que forma todas as profissões é homernageado/a. O cronista faz analogia dos mestres com o momento político em que vivemos ao abordar um conto de Machado de Assis.

Na costura da minha vida mais um ponto / No arremate do sorriso mais um nó (Trecho de “Sentimental eu fico”, música de Renato Teixeira)

“Por esses dias me lembrei de um conto de Machado de Assis chamado “Um apólogo”. Você já o leu? Tem que ler, ele é muito bom, bom mesmo. Vou tentar aqui, mais do que resumir, ver como o conto pode nos orientar nestes dias tão difíceis.





Como a não dar ponto sem nó, a minha hipótese é de que esta historinha revela muito sobre o modo de ser do brasileiro. Revela também o ódio que algumas pessoas têm de Lula. Você ter diferenças de pensamento é algo saudável. Um bate-boca aqui e ali mostra que as pessoas não têm sangue de barata. Agora você sentir ódio a ponto de ser incapaz de mudar de opinião diante das evidências é algo de outra ordem. Pode chegar até o patológico, tá?


Mas me antecipei. Vamos à história? Primeiramente, o que significa um apólogo? É uma história em que os objetos falam. Quer dizer, na fábula, os bichos falam. No apólogo são os objetos que o fazem.


Dito isto, vamos ao cenário. Me perdoe se não me lembro em detalhes, mas acho que é assim: Uma agulha e uma linha discutem quem é mais importante enquanto uma costureira dá os retoques um vestido de gala na casa de uma baronesa.
Cada um tem seu argumento, desfilando seus prós e seus contras.


Mas quem vai para a festa é a linha, vitoriosa.

No final do conto, aparece um mestre comentando o apólogo. Machado o chama de professor de melancolia, em vez de registrar de qual disciplina se trata. Eu adoro esse final, pois ele parece dizer que seu ofício foi meio em vão, pois quem foi à festa não merecia.


Mas eu sou eu. Talvez eu esteja puxando a sardinha pro meu lado. Aí vêm questões em forma de estudo dirigido:

Quem são as personagens?

Qual é a problematização do enredo?

Qual é significado do desfecho da história?

A história pode vir a ressoar algo da nossa realidade? (leitura alegórica)


Este apólogo tem um final um tanto triste, mas casa muito bem com a função do professor no país de hoje. Muitas das vezes quem vai à festa, quem se consagra, se esquece de que teve o apoio, o auxílio, o encorajamento de um professor.


Seja como for, Machado de Assis é um autor que fala muito com muito pouco. Ele é sempre breve, sempre cita um clássico aqui e ali e tal, mas põe a gente pra pensar às vezes com bastante humor – humor corrosivo não deixa de ser humor. Escreve na ordem direta, mostrando que o assunto é complexo, não a exposição. A gente tem que prestar atenção nas cenas, no cenário, naquilo que as personagens dizem e no que não dizem.


Pegando carona com o apólogo, é por isso que mais que nunca é preciso descosturar o Bolsonarinho. Mostrar que ele não passa de um espantalho. Isso está sendo feito agora neste exato momento.
Nós somos milhares de agulhas.

Obs. Acho que seria uma boa você procurar na internet uma versão em PDF do texto. Não confie tanto em mim.

Beija-Flor, 13 de outubro de 2026.“

Sobre o autor

Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.

Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019),  Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.

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