Por Márcia Basseto Paes, historiadora
Aprendi no ofício de historiadora que o homem público pode contar de si a história que bem entender, desde que aceite vê-la confrontada com os documentos. É nesse confronto que as versões mais bem armadas costumam ceder. O jornalismo tem obrigação parecida, e a entrevista que Flávio Bolsonaro concedeu ao The New York Times (NYT), em Miami, mostra como cumpri-la.
A repórter Ana Ionova ouviu o senador e confrontou suas principais afirmações com informações apuradas pelo jornal. Flávio disse que não recebera ajuda de nenhum governo para chegar aos Estados Unidos; o NYT apresentou informações de autoridades americanas que apontavam a participação de um representante da Casa Branca. A força do texto estava nesse confronto, não na adjetivação.
Entre nós, o jornalismo declaratório ainda ocupa espaço demais: registra o que um disse e o que o outro respondeu, deixando ao leitor o encargo de separar o verdadeiro do falso. Nas sabatinas da campanha até houve perguntas firmes e algumas insistentes sobre o dinheiro de Daniel Vorcaro e o filme sobre Jair Bolsonaro.
Houve também fraca contestação: jornalistas apontaram contradições nas explicações do senador e cobraram a diferença entre o custo anunciado da produção e o valor solicitado ao banqueiro. Ficaram sem respostas ou respostas mentirosas. Perguntas duras não a desfazem quando respostas mentirosas deixam de ser confrontadas com os documentos disponíveis.
Não basta perguntar: é preciso apresentar o que desmente a resposta.
No caso do financiamento do filme, foi o Intercept Brasil que publicou, em 13 de maio, os áudios, as mensagens e os documentos sobre a negociação de cerca de R$ 134 milhões com Vorcaro para a produção de Dark Horse. Tratava-se do valor total negociado, não do montante já transferido. Veículos tradicionais repercutiram a revelação e fizeram verificações posteriores.
O protagonismo de uma redação independente nesse episódio merece reconhecimento e suscita uma pergunta incômoda sobre as prioridades dos veículos que dispõem de muito mais recursos. Repercutir uma revelação não é o mesmo que obter os documentos e publicá-los.
O NYT trouxe a apuração para dentro do texto, junto da palavra do entrevistado. A diferença está menos na pergunta do que no trabalho que a precede e no destino que se dá à resposta.
Imagino o desapontamento dos bolsonaristas.
Antes da publicação, Paulo Figueiredo anunciava nas redes “a entrevista que a Globo teve medo de fazer”. Esperavam, ao que parece, que o jornal americano lhes oferecesse uma vitrine favorável. Encontraram uma repórter que confrontou a versão do senador com o que havia apurado. Vieram então os ataques ao jornal, chamado de esquerdista, e à jornalista.
A história é terreno de disputa, e convém que seja. Disputam-se interpretações, sentidos e responsabilidades; isso não torna os acontecimentos disponíveis para qualquer invenção.
Quando alguém apresenta em público uma versão que os registros desmentem, o constrangimento pode alcançar até quem apenas assiste. Creio que se chama vergonha alheia.







