Por Hugo Souza, compartilhado de Come Ananás
Há exatamente quatro anos, nos primeiros dias de novembro de 2022, o líder armamentista Marcos Pollon fez uma transmissão ao vivo no YouTube à qual deu o nome “Ou ficar a Pátria livre…”. Lula tinha acabado de ser eleito presidente da República, derrotando Jair Bolsonaro no segundo turno. No primeiro, Pollon, muito ligado à família Bolsonaro, foi o candidato a deputado federal mais votado no Mato Grosso do Sul. Logo no começo da “live”, o então deputado bolsonarista recém-eleito pediu aos seus seguidores no YouTube que prestassem atenção “no que vai ser dito e também no que não vai ser dito”.
E mandou ver:
“O presidente [Bolsonaro] deixou bem claro que não reconhece a higidez do processo. ‘Qual processo?’, você pergunta. Ah… O processo do Kafka…. Eu falei hoje com várias pessoas, até com o Talarico, lá de Naviraí, que falou: ‘E agora?’. Eu falei: ‘bom, agora, seguiremos com manifestações pacíficas e ordeiras’. ‘Ah, mas eu quero mais informação’. ‘Seguiremos com manifestações pacíficas e ordeiras’. ‘Tá, mas e daí?’. ‘Seguiremos com manifestações pacíficas e ordeiras’. É isso o que pode ser falado e é isso o que vai ser falado. As pessoas parecem que não querem compreender o que você fala. Você explica, você desenha a explicação, explica o desenho, desenha a explicação do desenho… O que vocês esperam? Uma manifestação expressa de ruptura? Não haverá. Nem da parte do presidente, nem da minha parte, porque isso aí seria um suicídio”.
Lamentavelmente, Franz Kafka nunca chegou a escrever sobre o insólito de “manifestações pacíficas e ordeiras” pedindo ação militar, armada, contra resultado de eleição presidencial e desembocando, as “manifestações pacíficas e ordeiras”, em ataque violento às sedes dos Poderes de um país. Quanto ao Talarico referido por Marcos Pollon, trata-se de um instrutor de tiro “lá de Naviraí” que naquele novembro de 2022 desembarcou em Brasília vestido de CBF para participar de “manifestações pacíficas e ordeiras” pedindo golpe de Estado.
Antes, em agosto de 2022, o então candidato Marcos Pollon já tinha publicado um vídeo no YouTube propagando fake news eleitoral das grossas, a de que a decisão do TSE de proibir celulares nas cabines de cotação tinha sido tomada “pra gente não filmar as atrocidades que provavelmente vão acontecer: você votar em um e aparecer o nome do outro”.
No dia 14 de novembro daquele ano, um dia antes de o Talarico “lá de Naviraí” desembarcar em Brasília usando a camisa amarela da CBF, Marcos Pollon postou assim no então Twitter — hoje X —, emulando Carlos Lacerda, dessa vez dispensando os rodeios, as evasivas com escritores boêmios, os subterfúgios para dizer sem dizer e não incorrer em manifestação expressa de ruptura: “O Senhor Getúlio não deve ser candidato, se for candidato não deve ser eleito, se eleito não deve tomar posse, se tomar posse não pode governar”.
No ano passado, Marcos Pollon foi um dos pelo menos 111 deputados que participaram do motim na Câmara. Foi ele, Pollon, o último amotinado a se levantar da Mesa Diretora — o móvel físico. A punição por ter participado do Putsch da Chapelaria, que interrompeu o funcionamento de um dos Poderes da República? Sessenta dias de suspensão do mandato, e bola pra frente…
Que baixem sua bolinha
No último 4 de outubro, Marcos Pollon foi reeleito deputado federal. Dessa vez, foi o segundo mais votado no Mato Grosso do Sul, ficando atrás de Camila Jara, do PT. Quatro anos depois do vídeo “Ou ficar a Pátria livre…’“, Pollon segue dizendo aos seus seguidores que, “ao que tudo indica, fraudaram as eleições” — as de agora, de 2026. Nas palestras que costuma dar em eventos de extrema-direita e mesmo em discursos na tribuna da Câmara, o deputado e fundador do Movimento Pró-Armas costuma repetir que:
“No Texas, atrás de cada moita, de cada barranco e de cada árvore há um caipira como eu, do interior do Brasil, um redneck, com seu AR-15, para proteger o país, a propriedade e a família dele”.
A essa altura, Marcos Pollon já sabe que nessa terça-feira, 3, outro Talarico, o James, do Partido Democrata, foi eleito senador dos EUA pelo Texas e foi eleito pelo Texas com firme discurso de controle de armas de fogo — mais um inédito do autor de América. Aos 37 anos de idade, James Talarico sequer era nascido na última vez que o Texas elegeu um senador Democrata, em 1988. Ele é um dos símbolos da “onda azul” — a cor dos Democratas — que lambeu os EUA de uma costa a outra nas midterms, na segunda vitória histórica da civilização, contra a barbárie, neste mundo, em pouco mais de uma semana.
A outra, fomos nós!
Lula da Silva venceu e terá mais quatro no Palácio do Planalto, para “mudar o jeito de governar este país”. Donald Trump perdeu a Câmara e o Senado dos EUA — perdeu o Capitólio. Que segurem sua onda, que baixem sua bolinha os xamãs do Capitólio, os rednecks do Mato Grosso do Sul, os Talaricos “lá de Naviraí” e, lá em Miami, o Juan Guaidó da Baixada de Jacarepaguá.







