E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva novamente ao cinema. Desta vez, aborda o documentário “Apocalipse nos Trópicos” sobre a influência do mundo evangélico no dia a dia da política brasileira.
“Hoje eu irei falar sobre o mais recente documentário de Petra Costa, o “Apocalipse nos Trópicos”. Achei um filmaço de tirar o fôlego. Um vez que o filme tem um quê de ensaio, abaixo irei apresentar meus argumentos.
Um dos pontos mais notáveis do avanço à direita do Brasil: o crescimento exponencial das igrejas evangélicas. E é disso que o filme trata. Alguns pastores se conhecem pelo chapéu; outros pelo nome: Edir Macedo, Silas Malafaia. Mas nós conhecemos a Igreja evangélica? A Petra diz que não conhecia nem a igreja nem a Bíblia.
Dito isto porque, se há um protagonista no documentário “Apocalipse nos Trópicos”, uma figura em carne e osso que represente o dilema brasileiro a respeito da relação entre religião e política, este nome é Silas Malafaia. O filme é um raio-x de suas idéias, de seu temperamento e de sua influência. E é um filme de assustar. E é incontornável também.
Silas Malafaia não representa toda a igreja evangélica, não convém generalizar. Mas ele inegavelmente é uma figura de proa nessa história toda, ele é uma figura shakesperiana: ele tem a energia de um Ricardo III, a ambição de um Macbeth. Manipulador como poucos, ele é capaz de misturar várias estações, algumas supostamente razoáveis como à do direito à liberdade de expressão, e nos convencer.
Malafaia tem o dom da palavra, é encantador de serpentes. Ele sai do filme ainda maior do que entrou. Caso contrário, ele não permitiria que sua trajetória fosse filmada. Enfim, o filme é propaganda de seus métodos e de sua visão de mundo.
Talvez ele represente uma faceta do evangelismo televisivo à americana. Vem de longe a “luta santa” contra o “comunismo”: da Guerra Fria em diante; acirrou-se nos últimos anos a luta santa contra os LGBTQI+s em prol da família nuclear tradicional (obviamente com o patriarca no comando), não só aqui mas também lá nos States. Afinal de contas, a luta é contra as injustiças sociais ou contra o nosso pecado original? Depende de que lado você está?
O filme acompanha a trajetória de Malafaia, que vai de figura ao redor do poder, até se tornar ele mesmo um elemento indispensável do poder. É impressionante como as peças do puzzle Brasil começam a fazer sentido quando vão sendo montadas. É um feito da edição, é o país em revista, é assombroso.
Talvez não fosse nem mesmo necessária a narração de Petra Costa para nos vermos ali, no calor dos acontecimentos. Entretanto, o filme perderia um pouco de sua força. A voz da Petra, por mais frágil que seja, transmite este tom de espanto de quando algo inacreditável vai ocorrendo diante de nossos olhos, debaixo de nossos narizes.
Repito: acompanhar o filme desde antes da eleição de Bolsonaro, passando pela pandemia, com pastores de joelhos enquanto as pessoas morriam por falta de oxigênio, até o fatídico 8 de janeiro de 2023 é acompanhar a história do Brasil recente praticamente sem cortes.
Ficamos sabendo que Malafaia é o cara; que Bolsonaro, apesar de parecer um joguete nas mãos de Malafaia, não é um sujeito que deva ser considerado politicamente desprezível, muito pelo contrário; que Lula concedeu uma das entrevistas mais inteligentes que vi a respeito do fenômeno do crescimento das igrejas evangélicas: elas cresceram porque dão respostas para o nosso desespero.
Bem, se as respostas são razoáveis ou não, são outros quinhentos. Seja como for, Lula é um animal político da maior estirpe: sabe que não pode deixar de fora trinta por centos dos eleitores brasileiros. É preciso reconhecer a grandeza de Lula, de uma vez por todas.
Aqui cabe um parêntese, algo como fora do argumento, a respeito dos intelectuais, que são tachados como ateus de carteirinha.
Nem todos fazem parte de tal time. Terry Eagleton é um intelectual marxista que nunca desprezou, em seus estudos, a religião. Pelo contrário, ele escreveu livro sobre o embate entre ateus e religiosos. Ele é um intelectual que sabe que as pessoas podem até matar em nome de sua cultura, isto é, em nome daquilo que acreditam. Com Terry Eagleton, aprende-se a respeitar os motivos dos religiosos, sem abrir mãos dos ensinamentos de Marx, autor sobre o qual ainda preciso me debruçar.
Por derradeiro, há uma massa enorme de pessoas que experimentaram um surto de delírio que culminou com o 8 de janeiro. Delírio este que pode ser comparado a uma epifania. Como se as pessoas pudessem ser maiores do que elas realmente são, elas acreditavam que estavam salvando o país quando jogavam às favas a democracia.
A contribuição deste filme é enorme. É um apocalipse, mas no sentido de uma revelação. É preciso que a gente assista, ainda que algumas cenas sejam, pelo menos para mim, de revirar o estômago. Enquanto simpatizante de esquerda, eu tenho lá meus motivos para temer o que teria acontecido com pessoas como eu e como tantas se o golpe tivesse sido realizado. Porque, afinal, não faltou muito para que isto ocorresse. Vejam e me digam.”
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







