Atirar primeiro, perguntar depois. É a isso que chegamos

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Por Fernando Brito em O Tijolaço –  

Mesmo antes da entrevista do motorista do carro em que a turista espanhola foi morta hoje, na Rocinha, as imagens mostravam que, atrás de uma van, ele não tinha como ver com clareza que havia um bloqueio policial.

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Muito mais do que o tenente da PM, quem matou esta senhora são os responsáveis por transformar uma situação que é evidentemente séria de segurança em um clima de histeria descontrolada. E quem insiste, por exibição e marketing, em operações policiais muito mais dedicadas ao espalhafato do que à eficiência.

“Bloqueio policial”, na era do celular e das redes não vai prender ninguém importante ou apreender armas e drogas em quantidade, senão por muito acaso.

Basta um “batedor” de moto e qualquer “bonde” é desviado se houver “blitz” no seu caminho.

Mesmo nos “bloqueios”, uma passagem estreita, dois tonéis e uma chapa com farpas pontiagudas – que os policiais chamam de “faquir” –  não permitem que não se pare e em qualquer operação planejada há um guarnição adiante. exatamente para estas situações.

Além disso, é evidente a falta de integração entre as polícia turística – o Rio tem um área especializada nosso – e os operadores dos “tours” por favelas que, há vários anos existem e sempre foram saudados pela mídia como uma “integração”, embora muito duvidosa. Eu morei em Santa Teresa, uma região cheia de favelas, e achava deprimentes aqueles jipes de “safári” que vinha mostrar a “selva” aos gringos.

Mas não é só – e nem principalmente – a má qualidade policial destas ações improvisadas que respondem por esta tragédia de repercussão internacional, num país que já está raspando o fundo do poço lá fora.

É a maldita visão de “guerra” que se tem da questão do tráfico, que não é enfrentada com serenidade e eficiência: nas rotas, nas armas, numa visão integrada do problema, na incompreensão de que algum grau de legalização das drogas mais leves, com limites, faria com o comércio bandido. Até os governos militares entenderam que precisavam de ações como a Loteria Esportiva e a “Quina”, que virou Megassena, para tirar dinheiro dos banqueiros do bicho!

Mas é essa visão estúpida, de que se vai resolver pelo confronto e não pela investigação, fingindo que  não se vê que favelas e periferias afora impera o “arreglo” entre polícia e tráfico, que os homens fardados e pesadamente armados estão à beira de um ataque de nervos, depois de mais de cem assassinatos de policiais apenas este ano?

Fuzil é para ser usado por unidades especializadas, treinadas e retreinadas no controle não apenas da arma, mas também de suas próprias reações e da decisão de disparar. É inútil e perigoso em áreas adensadas, cheia de transeuntes, porque uma bala de fuzil percorre às vezes perto de 2 km e algumas centenas de metros com força letal absurda.  Mesmo que acerte o “alvo” – se é que tem alvo, porque parte é disparada apenas para intimidar – o trespassa, muda de direção e vira “bala perdida” em potencial.

Não é o primeiro e nem será o último carro alvejado apenas por ser “suspeito” e virou notícia por conta da vítima ser uma estrangeira.

A vítima é estrangeira, mas a histeria demagógica que só ampliou o confronto e a violência são nacionais e está por toda parte.

Tanto que, nos comentários dos sites da grande imprensa, creiam, a culpada é a vítima, que não devia estar ali.  Ali, onde vivem dezenas de milhares de pessoas, que poderiam morrer com o mesmo tiro que matou a espanhola.

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