Transformação de territórios expressa a passagem de uma economia baseada na produção para outra crescentemente orientada pela valorização financeira dos ativos
Por Alexandre Machado Rosa, compartilhado de Brasil 247
Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.
Prédio da B3Crédito: Amanda Perobelli/ReutersNewsletter
Da Lapa à Vila Anastácio, de Pirituba a Osasco, a ferrovia moldou um dos maiores corredores industriais da América Latina. Em torno dos trilhos instalaram-se indústrias têxteis, metalúrgicas, fábricas químicas, de vidro e de alimentos. Os bairros nestes territórios da cidade cresceram acompanhando o ritmo das fábricas, das oficinas ferroviárias e dos trabalhadores.
Ao longo de boa parte do século XX, bastava percorrer o eixo ferroviário entre a Lapa e Osasco para compreender por que São Paulo se tornou a maior potência econômica do Brasil. As chaminés, os galpões industriais, os pátios ferroviários e o intenso movimento de trabalhadores revelavam uma economia organizada em torno da produção e do trabalho fabril.
Nomes como Matarazzo, Cobrasma, Braseixos, Eternit, Santista Têxtil, Brown Boveri, Villares, Cimaf, Lonaflex entre outras eram referências geográficas que percorria a zona Oeste de São Paulo, formando um corredor com algumas das maiores indústrias do país. A ferrovia transportava matérias-primas, mercadorias e trabalhadores, conectando o interior paulista ao Porto de Santos e consolidando uma das regiões industriais mais importantes da América Latina. Não era apenas um conjunto de fábricas. Era um projeto de desenvolvimento iniciado no começo do século XX, conforme descrevem historiadores como o paulista Edgard Carone (1923–2003) um dos principais intelectuais brasileiros a mapear cientificamente a industrialização de São Paulo e o nascimento do movimento operário nacional. Em sua obra “A Evolução Industrial de São Paulo (1889-1930)” ele analisa o surto de desenvolvimento paulista desde a Proclamação da República até a Era Vargas.
Hoje, a paisagem é outra. Muitas fábricas desapareceram. Galpões industriais deram lugar a centros logísticos, supermercados, condomínios residenciais e edifícios corporativos. A verticalização imobiliária substituiu parte da atividade produtiva, enquanto a ferrovia perdeu protagonismo como eixo estruturador da economia paulista. A antiga geografia da indústria foi sendo ocupada por uma nova geografia do capital.
Poucos lugares simbolizam tão bem essa transformação quanto o entorno do Nacional Atlético Clube, na Água Branca. Fundado em 1919 por trabalhadores da São Paulo Railway, o Nacional nasceu em uma São Paulo em que ferrovia, indústria e associativismo operário faziam parte de um mesmo universo social. O clube não era apenas um espaço esportivo. Representava uma cultura construída em torno do trabalho, da produção e da vida comunitária.
A transformação desse território revela uma mudança muito mais profunda do que uma simples alteração urbanística. Ela expressa a passagem de uma economia baseada na produção para outra crescentemente orientada pela valorização financeira dos ativos, deixando o trabalho vivo de lado e dando destaque ao trabalho morto e ao capital improdutivo como denuncia o professor Ladislau Dawbor. Essa mudança ajuda a compreender a transformação da própria burguesia paulista.
Durante grande parte do século XX, a acumulação de riqueza estava fortemente vinculada à expansão industrial. O empresário dependia da construção de fábricas, da formação de trabalhadores qualificados, da infraestrutura pública, da pesquisa científica e da ampliação do mercado consumidor. Seu patrimônio estava ligado à produção de bens e serviços.
Mas, paulatinamente, este cenário mudou. A atual participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado de São Paulo caiu de aproximadamente 35% a 40% na década de 1970 para uma faixa entre 10% e 15% em meados da década de 2020. Essa trajetória, amplamente documentada por estudos do IPEA, do IBGE, da Fundação Seade e do Ipeadata, evidencia um longo processo de desindustrialização relativa da economia paulista e sua reconfiguração em direção ao setor de serviços e às atividades apoiadas na especulação financeira.
Mais do que uma mudança na composição do PIB, essa transformação representa uma alteração estrutural do padrão de desenvolvimento paulista. A redução do peso da indústria significou a perda de capacidade produtiva, de empregos industriais de maior qualificação, de atividades intensivas em tecnologia e de elos estratégicos das cadeias produtivas. Em seu lugar, expandiram-se os serviços, o mercado imobiliário e as atividades financeiras, modificando não apenas a estrutura econômica do estado, mas também sua organização territorial, seu mercado de trabalho e o perfil de sua burguesia.
Luiz Carlos Bresser-Pereira define a desindustrialização como a redução persistente da participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto de um determinado espaço econômico. Para o autor, quando esse processo ocorre antes que o país alcance elevado nível de renda e sofisticação tecnológica, configura-se uma desindustrialização precoce, comprometendo a capacidade de inovação, de crescimento sustentado e de geração de empregos qualificados.
A Avenida Brigadeiro Faria Lima tornou-se o símbolo dessa nova economia. Se, no século passado, a imagem do desenvolvimento paulista era representada pelas fábricas do eixo ferroviário, hoje ela se associa às sedes de bancos de investimento, gestoras de recursos, fundos patrimoniais e consultorias financeiras. Não se trata apenas de uma mudança de endereço. Trata-se da substituição de uma racionalidade econômica por outra.
Essa transformação também altera o perfil da burguesia brasileira. Florestan Fernandes identificou São Paulo como o principal laboratório da revolução burguesa no país. A burguesia industrial, apesar de suas limitações e de sua associação histórica às estruturas de desigualdade e ao grande latifúndio, organizava seus interesses em torno da expansão da produção. A burguesia financeirizada passa a operar sob outra lógica. É a liquidez, a rentabilidade de curto prazo, a valorização patrimonial e a circulação global de capitais que importam.
As consequências ultrapassam a economia. A financeirização modifica o mercado de trabalho, redefine o planejamento urbano, pressiona o preço da terra, altera prioridades do investimento público e reduz os incentivos à produção industrial. O capital encontra maior rentabilidade na valorização de ativos financeiros e imobiliários do que na instalação de novas plantas industriais ou na ampliação da capacidade produtiva.
Essa mudança ajuda a explicar por que São Paulo, mesmo permanecendo como a maior economia brasileira, perdeu parte de sua densidade industrial e viu crescer a precarização do trabalho. O problema não é apenas a redução do número de fábricas. É a substituição de um modelo de desenvolvimento baseado na produção por outro em que a riqueza é crescentemente gerada pela valorização financeira.
Os três artigos desta série convergem para uma mesma conclusão. São Paulo tornou-se a locomotiva econômica do Brasil graças a um Estado capaz de induzir o desenvolvimento e a uma economia fortemente ancorada na produção. O abandono desse paradigma contribuiu para a desindustrialização; esta, por sua vez, enfraqueceu um projeto cultural de longo prazo. A financeirização representa a etapa mais recente dessa transformação: uma economia em que o capital deixa de priorizar a produção de riqueza para concentrar-se, cada vez mais, na administração e valorização de ativos.
A pergunta que resta é: uma sociedade pode sustentar seu desenvolvimento quando a fábrica deixa de ser o centro da vida econômica e é substituída pelo fundo de investimento? A resposta a essa pergunta não interessa apenas a São Paulo, mas ao próprio projeto de desenvolvimento do Brasil.







