Exportação Prematura e a Morte Lenta das Escolas de Futebol do Sul Global

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Por Alexandre Machado Rosa, professor

A transferência precoce de jogadores sul-americanos e africanos para a Europa ameaça não apenas o desempenho das seleções, mas a própria identidade do futebol fora do eixo europeu.




Há décadas, a América do Sul—e mais recentemente, também a África—convivem com uma sangria precoce na formação de atletas de futebol. Os melhores talentos mal atravessam a adolescência e já são levados a cruzar oceanos e fronteiras. Partem para abastecer o mercado europeu—esse imenso moedor global de jogadores e talentos.

O problema vai muito além da perda de força competitiva nos torneios internacionais. O que ocorre é um esvaziamento cultural da própria história do futebol nesses países. As escolas locais de futebol, os estilos próprios de jogo, as táticas e criatividades regionais vão sendo lentamente apagadas.

Jogadores que crescem entre o Rio de Janeiro, Buenos Aires ou Medellín acabam reproduzindo, em campo, o modelo de jogo de Manchester, Madri ou Munique. É o que o mercado europeu exige.

O que está em jogo não é apenas a renovação das seleções nacionais, mas algo mais profundo e grave: a destruição lenta e silenciosa das identidades esportivas do Sul global. Uma erosão cultural que atinge justamente os países que deram ao mundo boa parte dos melhores jogadores da história.

O futebol global virou um mercado de peças sobressalentes. Mas, nesse processo, não se exporta só o drible ou a perna direita—se vende, junto, a própria alma do jogo. E ao fazer isso, abandonam-se os elementos que tornaram o futebol o maior fenômeno cultural do nosso tempo.

Uma característica que marcou o desenvolvimento do futebol ao longo do século XX foi, justamente, a nacionalização do esporte pelas nações que o acolheram. Os ingleses organizaram o jogo e suas regras. Mas o seu desenvolvimento se deu nos países que o nacionalizaram. É daí que veio a sua magia.

Talvez os europeus tenham encontrado a fórmula de reversão desta constatação. É como na divisão internacional do trabalho. A Europa da forma e a América do Sul fornece os insumos, no caso, jogadores jovens.

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