Por René Ruschel, jornalista
Morreu na madrugada desta terça-feira, 2 de setembro, aos 91 anos, Mino Carta, o incansável guardião da democracia e fundador de Carta Capital, da qual tenho o orgulho de participar como colaborador há quase 15 anos.
Sua ausência ecoa como um golpe no peito justamente no momento em que o Brasil enfrenta uma encruzilhada decisiva: o embate contra o avanço do autoritarismo.
Uma partida, tão emblemática quanto irônica. Veio após uma longa luta contra problemas de saúde nos últimos meses, período em que esteve internado por duas semanas na UTI do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
Mais que jornalista, Mino foi um ícone da ousadia e da integridade. Desafiou poderes de toda ordem, não se acovardou diante da ditadura militar, jamais abriu mão da crítica dura e, sobretudo, de uma visão ética da vida pública.
Seu compromisso não era apenas com a notícia, mas com a justiça social e a democracia, valores inegociáveis.
Começou no ofício por acaso, ainda adolescente, quando o pai, Giannino, jornalista de fibra, recusou-se a escrever sobre futebol para dois jornais italianos durante a Copa de 1950.
Coube ao garoto de 16 anos a missão improvável. Mas foi ali, entre palavras e sonhos de um terno azul-marinho que descobriu a felicidade na escrita.
Sua trajetória se confunde com os marcos do jornalismo brasileiro moderno. Fundou Quatro Rodas, em 1960; reinventou o Jornal da Tarde, em 1966. Ajudou a criar Veja, em 1968 e IstoÉ, em 1976. Finalmente, em 1994, ergueu seu maior legado, Carta Capital, trincheira da crítica e da independência.
Mino criou arte e coragem mesmo quando enfrentou o que chamou de seu maior fracasso, o Jornal da República, em 1979. Durou apenas cinco meses, mas permanece símbolo de resistência editorial.
Enfrentou censura e ameaças com altivez. Uma capa trazia a foice e o martelo, outra denunciava torturas nas masmorras da ditadura. O temido delegado Fleury o advertiu: “Se eu quiser, fecho sua revista”. Mino retrucou sereno. “Minha não, dos Civita”.
Era assim. Nem medo, nem reverência, apenas a coragem de quem nunca se dobrou.
Fiel à sua Olivetti, manteve-se avesso à pressa tecnológica que, segundo ele, escravizava a imprensa. Sua filosofia era simples e imensa: “Nem fé, nem medo”, foi seu lema.
Nascido em Gênova, herdeiro de três gerações de jornalistas que enfrentaram o fascismo, carregava no sangue a coragem e o compromisso com a verdade.
Seu legado ressoa diariamente em Carta Capital. Liberdade, espírito crítico inquebrantável e vigilância constante sobre o poder. Pilares que sustentam uma publicação que chega aos 31 anos mantendo vivo o sonho de um Brasil mais justo e menos desigual.
Escrever na mesma revista que ele fundou, por quase uma década e meia, enche meu coração de orgulho e gratidão. Orgulho por ter compartilhado, mesmo à distância, dessa chama que jamais se apaga. Gratidão por ter aprendido que jornalismo não é só profissão, mas trincheira da dignidade.
A perda de Mino Carta é, sobretudo, um luto coletivo. É o adeus ao incansável guardião da democracia cuja voz seguirá ressoando sempre que a liberdade estiver em risco.







