Mitch Garabedian contra Kassio ‘com 5 meninas’

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Agindo como vem agindo à luz do dia, contra Lula, o que o “ministro KN” estará urdindo às escondidas? Mancomunado com quem? Nacional ou estrangeiro? Órbita alta, baixa ou suborbital?

Por Hugo Souza, compartilhado de Come Ananás




Stanley Tucci como Mitch Garabedian no filme Spotlight.

No início da noite de 4 de outubro, a divulgação pública da contagem de votos para presidente da República — e só para presidente da República — parou durante longos 50 minutos em 64,81% dos votos apurados, “bugou” no exato, preciso, no certeiro momento em que Flávio Bolsonaro deixou de sustentar maioria absoluta dos votos válidos, descendo a menos de 50% para não voltar mais a patamar de vitória no primeiro turno.

Quando a apuração para presidente empacou, foi o suficiente para “a internet” levantar suspeitas, trazendo à baila o fato de que parte da transmissão de dados nas eleições deste ano no Brasil foi e será feita, no segundo turno, via satélites de órbita baixa (LEO, do inglês Low Earth Orbit) da Starlink, de Elon Musk. De fato, e independentemente de apuração emperrando ou fluindo que é uma beleza, o dono da Starlink — e da Tesla, SpaceX, X — é o arquétipo da MAGAzificação das Big Techs e foi quem anos atrás respondeu assim à acusação de envolvimento dos EUA na deposição de Evo Morales na Bolívia: “Vamos dar golpe em quem quisermos. Lide com isso”.

Há exatos dois anos, em outubro de 2024, o New York Times informou que Elon Musk estava ingressando, e ingressando com satélites LEO, de órbita baixa, no ramo da espionagem. Naquele momento, segundo o Times, uma tecnologia satelital de última geração financiada pelo Pentágono e desenvolvida pela Starlink estava sendo usada para a montagem da nova constelação de satélites do Escritório Nacional de Reconhecimento dos EUA (NRO, na sigla em inglês). Fundado em 1961, na Guerra Fria, o NRO permaneceu “classificado”, secreto, até 1992, ainda que desde a década de 1980 fosse um segredo de polichinelo. O órgão abastece a CIA e a NSA com dados de “inteligência geoespacial”. Há 13 anos, em 2013, uma missão da NRO ao espaço teve como logotipo um polvo gigante assenhorando-se do globo terrestre e como slogan os dizeres: “nada está fora do nosso alcance”.

Dessa missa, no entanto, isso é apenas a metade.

A empresa contratada pelo TSE para dar suporte à transmissão de dados de apuração dos rincões do Brasil nas eleições deste ano, valendo-se dos satélites de órbita baixa da Starlink, é a Hughes Telecomunicações do Brasil, braço com sede na Faria Lima da Hughes Network Systems, de Maryland, que por sua vez é subsidiária da EchoStar Corporation, empresa da Fortune 500 baseada no Colorado e controlada pelo bilionário Charles W. Ergen. Recentemente, a EchoStar esteve à beira da falência, com bilhões de dólares em dívidas e sob risco de perder suas licenças de exploração do espectro 5G nos EUA por decisão da Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), a Anatel estadunidense. Isso até Donald Trump receber Charles Ergen no Salão Oval, em meados do ano passado. Ato contínuo à reunião, a FCC recuou da asfixia regulatória e abriu caminho para a EchoStar vender mais de US$ 40 bilhões de dólares em licenças, em vez de vê-las revogadas, para a AT&T e para a… SpaceX, de Elon Reeve Musk.

Charles Ergen deve uma a Donald Trump, sim senhora. Sim senhor: em eleições no Brasil marcadas por interferência MAGA, não um, mas dois bilionários da alta tecnologia ligados a Trump são controladores finais da “solução integrada de conectividade satelital móvel para as eleições gerais de 2026” usada para fazer dados de votação de 13 estados brasileiros viajarem em órbita baixa, a 500 quilômetros de altitude, até a sala de apuração do TSE, em Brasília.

“Lide com isso”.

É mesmo de cair pra trás, mas o TSE sob MAGA direção informa que a transmissão de dados das urnas eletrônicas é criptografada, 100% segura; esclarece que o corte de 50 minutos na alimentação dos dados públicos da apuração para presidente aconteceu devido a nada de mais, a um “congestionamento de dados”; enfatiza que a contratação da Hughes Telecomunicações do Brasil foi avalizada pelo TCU. Em nota, o TSE afirmou que o TCU “afastou alegações de direcionamento” levadas ao tribunal de contas por uma licitante derrotada no certame. Na verdade, semanas atrás, no dia 19 de setembro, o TCU decidiu não suspender os efeitos da licitação por motivo de “perigo da demora reverso”, ou seja, devido ao risco de “comprometer o interesse público primário associado à própria realização do pleito”, tendo em vista a proximidade do primeiro turno, mas advertiu o TSE por exigências “potencialmente restritivas” no processo de contratação.

Não há provas de manipulação ou tentativa de manipulação eleitoral por parte ou debaixo dos olhos do TSE sob MAGA direção. Fora as analógicas, por assim dizer, como a promessa de “revisão criminal” de Jair Bolsonaro após as eleições, a mãozinha para a eleição de Douglas Ruas em primeiro turno no berço político da “família miliciana”, o “tratoraço” de liminares para inviabilizar a campanha de Lula no segundo turno, o que já não é pouco escândalo. A elaboração do edital para “soluções de conectividade para garantir a transmissão de dados referentes ao resultado das urnas, especialmente em áreas remotas e de difícil acesso”, começou ainda com Carmen Lúcia à frente da Justiça Eleitoral, embora a publicação do edital e a contratação da Hugues Brasil tenham se dado na gestão do “ministro KN”.

O “ministro KN”, aquele que se trancou num quarto “com 5 meninas” da “creche” de Daniel Vorcaro e ficou “sem pressa nenhuma de ir embora”. O “ministro KN”, que depende da vitória da “família miliciana” na presidencial para enterrar o caso Master, o caso “5 meninas”, o caso “creche” (e o caso Kevin, e o caso “turma do KN”). O “ministro KN”, que, tratorando assim, às claras, à luz do dia, a candidatura que ameaça sua tábua de salvação, mais que autoriza a suspeita: o que estará urdindo às escondidas? Mancomunado com quem? Nacional ou estrangeiro? Órbita alta, baixa ou suborbital?

Aqui, convém lembrar uma cena do filme Spotlight na qual o advogado Mitch Garabedian (Stanley Tucci) afirma ao repórter Mike Rezendes (Mark Ruffalo), do Boston Globe, que Rezendes “não sabe da missa a metade” sobre os ardis, sujeiras e armações da Arquidiocese de Boston para enterrar denúncias de pedofilia. Supressão de documento público, por exemplo. Rezendes fica atônito, incrédulo, no que Garabedian diz assim ao repórter do Globe: “Olha, eu não sou louco, não sou paranoico. Eu sou experiente”.

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