Médica e socióloga recorda esforço de Bolsonaro para parar a ciência e como a Fiocruz articulou a defesa da população
Por Ana Rosa Carrara e Lucas Salum, compartilhado de BdF
Foto: A médica e socióloga Nísia da Trindade presidiu a Fiocruz durante a pandemia de covid-19. | Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Nísia Trindade Lima, presidenta da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) durante a pandemia de Covid-19, rememora no seu novo livro, “Ainda há tempo: a pandemia de Covid-19 e a transformação do futuro” (Editora Record), como foram os bastidores da sua atuação, como primeira mulher a presidir a entidade, diante do governo de Jair Bolsonaro e da maior crise sanitária das últimas décadas.
Na obra recém-lançada, a sanitarista e socióloga relata episódios que exemplificam a postura negacionista do então governo Bolsonaro. Em entrevista ao programa Conversa Bem Viver, Trindade conta que o livro também apresenta a atuação da FioCruz na articulação de parceiros em defesa da população.
“Eu falo de um esforço coletivo, em que a Fiocruz também se relacionava com as universidades, com outros institutos de pesquisa, com movimentos sociais. É um livro manifesto, mas, ao mesmo tempo, eu procurei reunir dados, informações, todo um acervo do que eu pude aprender, do que eu pude fazer coletivamente.”
Trindade relembra que o trabalho em saúde pública desenvolvido por entidades e cientistas durante a pandemia buscava combater o vírus e, também, encarava um embate político com o governo Bolsonaro, que estimulava o uso de cloroquina em vez de fortalecer as campanhas de vacinação. “É como se houvesse ali um conflito além da luta contra o vírus, um conflito político, cultural, contra todos os valores que nós defendemos: uma ciência voltada para a saúde, para salvar vidas, a democracia. Foi isso que nós vivemos”, diz Nísia.
Ela completa a reflexão dizendo que, apesar do compromisso institucional, havia uma atuação contrária à ciência por parte de outras instituições. “Era um governo, como se comprovou, com uma política não só anti-ciência, mas anti-povo.”

Após o período da pandemia, Nísia Trindade foi responsável por reerguer, como ministra da Saúde, os trabalhos da pasta. Como autora, ela diz que a publicação tem o objetivo de criar memória dos momentos trágicos da pandemia e das agruras sofridas naquele tempo — como as dificuldades e entraves colocados pelo então governante do país — e, a partir do resgate, evitar que os erros sejam cometidos novamente.
“O livro é, ao mesmo tempo, defender a memória, a importância de lembrar, mas também a necessidade de compreendermos e a necessidade de não repetirmos essa experiência e nos prepararmos melhor para o futuro.”







