E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, fala de personagens escolares e seus enredos, alguns infelizmente previsíveis, neste mundo de desigualdade social
De alguns nomes não me lembro mais. Lembro-me de rostos, de vultos, de detalhes que não completam o quadro. Lembro-me de uma menina de olhos azuis. Sentava-se na primeira fila. Vestia-se despojadamente: jeans, camiseta, all star de canos curtos. Tinha caligrafia razoável e o caderno, de dezessete matérias, não era dos piores.
Como usualmente ocorre na EJA (Educação de jovens e adultos), ela frequentou as aulas durante algum tempo, talvez por um módulo, e depois sumiu. Quando voltou, parecia a mesma, exceto pelos cabelos, que estavam mais curtos e tingidos de vermelho, e por uma tatuagem na mão esquerda: um CH com algumas flores.
Foi nessa época, se não me falha a memória, que ela me disse que gostaria de ser cantora de rock. “É, professor, as pessoas acham que eu tenho uma voz maneira”. Se ela me disse isso, foi muito provavelmente porque eu, sendo professor de Inglês, devo ter falado de uma banda americana ou de outra. Ou comentei a qualidade poética da letra de uma das canções dos Racionais MC´s.
Devo ter dado força a ela, é o que costumo fazer em casos assim, mas não posso garantir. É forçoso dizer que dificilmente terei comentado que, em minha adolescência, eu também gostaria de ter sido artista, e que nunca me decidi completamente, nem mesmo agora, se me expressaria pela pintura ou pela literatura ou pela canção popular.
A essa altura, ela estava namorando o “Chuck”. Era assim que de molecagem o chamavam. O apelido, cruel; mas não inapropriado. Pois bem, soube por intermédio dele, do Chuck, que a menina estava grávida.
Ela chegou a frequentar algumas aulas sem o Chuck, mas os alunos, escolados em “zoação”, a chamavam de “buchuda”, o que certamente a incomodava. Os cabelos estavam voltando ao tom original, castanho escuro.
Pelo menos, eu saberia por que ela sumiria por um módulo ou dois.
Mas ela estava ausente quando encontrei, por acaso, com a mãe dela? Pelo menos, eu sabia agora de quem a garota tinha herdado o profundo azul dos seus olhos. Era uma mulher acima do peso, rosto cansado. Vestia roupas largas, cafonas. Os cabelos, pintados de acaju, a raiz precisando de alguns retoques. Devo ter perguntado sobre a filha, uma vez que, sem isso, não haveria nenhum motivo de conversar com ela. Desejei boa-sorte à família.
Mas foi antes ou depois do “Chuck” ter voltado a estudar? Ou foi durante um intervalo, quando eu saía para fumar fora das dependências da escola? Não posso ter certeza, mas digamos que ele me disse que tinha voltado a estudar para subir na vida, uma vez que o supermercado onde trabalhava estava precisando de alguém para trabalhar no açougue e que, para tanto, ele precisava do diploma. Disse-me também que ela estava esperando pelo segundo filho. Disse-lhe que gostaria de vê-lo no ensino médio, que era na mesma rua da escola onde eu trabalhava.
Lembro-me bem de que fui testemunha da culminância de um projeto sobre DST (doenças sexualmente transmissíveis). Achei a palestra muito oportuna e muito bem apresentada – a EJA tem disso. Houve até um momento em que uma das palestrantes, uma senhora, ensinou aos alunos como se deve usar o preservativo. Como de costume, muitos alunos riram. Outros inflaram os preservativos como se fossem balões de gás, caçoando um dos outros.
Depois de algum tempo, por questões paralelas que não valem o relato, me transferi para outra escola. Foi lá onde fiquei sabendo que uma aluna de seus doze, treze anos, estava grávida. O enredo da história se repetia.
Ela postou uma foto com o namorado na sua página do Facebook, afirmando que, em alguns meses, chegaria um pimpolho para o júbilo do casal. Percebi que os cabelos dela estavam mais crespos do que quando eu lhe dei aulas e que o rapaz fazia as sobrancelhas.
Ouvi dizer que os pais lhe deram apoio. Que sejam felizes. O que me incomodou foi a hashtag: casamento blindado. Blindado do quê, meu Deus?
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







