Por Lourenço Paulillo, poeta e cronista
Ao percorrer as ruas do Bexiga, de repente me transporto para os idos de 1927.
Vejo então uma esperta italianinha, caminhando para a escola. Recém-chegada de Turim, seu nome é Margherita Clara Angela Monaco (minha mãe). Só soube do Clara e do Angela ao remexer uma caixinha de documentos da Itália, há poucos anos. Na tampa há a inscrição “frutas cristalizadas”. Parece nome de princesa, mas é simplesmente a filha de um operário, o tipógrafo Lorenzo Monaco.
Não conheci meu avô. Por que teria ele decidido recomeçar a vida no Brasil? Talvez para libertar-se da repressão do regime fascista, ou do desemprego.Como se diz em italiano: Chi lo sa? Quem sabe?
Que pena não poder estar conversando agora com ele! Conhecer a verdadeira história.
Muitos italianos tinham vindo para o Brasil e se instalado no Bexiga. Lá havia um cheiro de Itália no ar. Passava o leiteiro, a carroça de verduras.
Será que Lorenzo conhecera o chacareiro Antonio Bexiga, assim chamado por ter
várias marcas de varíola? Das terras de sua chácara é que brotou o bairro.
Sei que meus avós moravam numa comunidade, na época chamada cortiço. Eu tinha vergonha de comentar esse fato. Na verdade, eram habitações coletivas, desdobradas de velhos casarões, que ficaram difíceis de se manter após a libertação dos escravizados. E destinados à população pobre.
Giulia, a mãe, conduzia a menina à escola, enquanto o pai, Lorenzo, ia trabalhar na tipografia do jornal Il Fanfulla – O Falastrão – publicado para os italianos no Brasil.
Dias quentes, sol a pino, pra quem veio do inverno gelado de Torino! Qual seria a escola? Talvez a Escola de Primeiras Letras, pequenina, apenas duas salas, uma para meninos, a outra para meninas, na Rua Aguiar de Barros.
Meus pais citavam muitas ruas do Bexiga, prováveis endereços de residência: Major Diogo, Conselheiro Ramalho, Treze de Maio, Santo.Antonio, Barata Ribeiro, Asdrúbal Nascimento, São Domingos.
E falavam muito da Saracura, área ao redor da qual viviam. Lá corria o riacho do mesmo nome, hoje canalizado. Local do Quilombo Saracura e onde surgiu a Escola de Samba Vai-Vai. Hoje Praça 14 Bis.
Naqueles tempos já havia a Igreja Nossa Senhora Achiropita e as padarias Basilicata e São Domingos.
E no Bexiga meus pais se casaram.
Essas raízes é que me levam a caminhar pelo Bexiga, rever a Basilicata, a pizzaria Speranza e o restaurante Roperto.
Eu ia quando jovem e depois casado e com os três filhos. No Roperto era divertido ver os meninos pedirem sempre o mesmo prato: “richitelli al sugo” – massa em forma de orelhinha, ao molho de tomate. E durante a refeição os músicos nos alegravam ao vivo com as mesmas canções italianas que outrora meu pai ouvia na vitrola, ou com os sucessos de Adoniran Barbosa, frequentador assíduo do bairro.
E as raízes também me levaram a fotografar a procissão, ponto alto das festividades de Nossa Senhora Achiropita. Dia em que, das sacadas cobertas de toalhas de renda branca e muitas flores, as famílias vêem passar a histórica imagem no andor repleto de rosas.
E em seguida a me colocar na longa fila da barraca da fogazza, meu petisco preferido da festa.
Ao caminhar, vou captando detalhes, vou desafiando a memória.
Ao caminhar dou asas à inspiração.
Ao caminhar vou ganhando meus calos.
Lourenço Paulillo
18 de outubro de 2025.
Nota – não sou adepto da grafia Bixiga, com i, criada porque bexiga remete à varíola. Fico com a tradição.
Foto: Bairro do Bexiga, 1934







