Petróleo no epicentro de duas crises: uma geopolítica, outra climática

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Juntos e misturados, dois processos internacionais e complementares estão em curso: o Mapa do Caminho para a transição energética liderado pelo Brasil e a Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis na Colômbia

Por Liana Melo, compartilhado de Projeto Colabora




Foto: Ambientalistas pedem fim dos combustíveis fósseis na Zona Verde da COP30: países lançam aliança (Foto: Foto: Bruno Peres / Agência Brasil)

Vejo setores apostando em um agravamento da crise climática — um mundo mais desigual, fragmentado, quase como uma nova ‘Idade Média’, em que os ricos estão protegidos e o resto da humanidade fica exposto. Isso é profundamente imoral e revela as forças políticas que ainda atuam contra uma transição para longe dos combustíveis fósseis”.

Faltando um mês para a Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis na cidade colombiana de Santa Marta, a frase dita pelo presidente da COP30, André Corrêa do Lago, no webinar “O papel dos países e da cooperação multilateral no roteiro global” resumiu o impasse em que se encontra o mundo contemporâneo.

Se em 2025 o mundo atingiu o maior nível de desequilíbrio energético desde o início dos registros, nos anos 1960; este ano começou com a explosão do conflito no Oriente Médio, detonado pelo ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, que expôs a enorme dependência do mundo pelo petróleo e gerou o que já está sendo chamado de a pior crise de oferta de energia da história. “Infelizmente, guerras nunca deveriam gerar efeitos positivos, mas a realidade é que essa crise reforça a urgência do debate sobre o fim dos fósseis”, defendeu Corrêa do Lago.

Estamos construindo uma coalizão dos dispostos — um espaço onde países podem avançar juntos, mesmo sem consenso, para moldar caminhos concretos para longe dos combustíveis fósseis. Santa Marta trata de transformar vontade política em direção real para a transição”, comentou Irene Vélez Torres, ministra de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Colômbia, que está convocando a Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis em parceria com a Holanda.

Corrêa do Lago e Velez estão à frente dos dois processos internacionais mais importantes para discutir o fim dos fósseis. Na próxima semana (dia 31/03), termina o prazo dado pelo governo brasileiro para receber as sugestões para o mapa do caminho para longe dos fósseis, que envolveu quatro ministérios (Meio Ambiente, Fazenda, Casa Civil e Minas e Energia).

A conferência na Colômbia, que é basicamente um encontro global a nível ministerial, ainda que alguns chefes de estado estejam sendo convidados (como o presidente Lula e o primeiro-ministro da Holanda), vai ocorrer entre os dias 28 e 29 de abril e, segundo Velez, as duas iniciativas são complementares: “uma, ajuda a gerar vontade política; enquanto a outra, organiza essa vontade em um caminho concreto.”

Para Corrêa do Lago, os dois processos têm o objetivo de organizar as informações, identificar caminhos possíveis e criar um espaço de diálogo mais consistente sobre a crise climática. “Não se trata apenas de produzir um documento”, esclarece, comentando que se trata de criar uma base para decisões políticas mais informadas.

Além de Corrêa do Lago e Velez, participaram do debate online, o climatologista e membro da Academia Brasileira de Ciências, Carlos Nobre, e o diretor de programas do Ministério do Meio Ambiente e Mudanças do Clima do Brasil, André Andrade, representando a ministra Marina Silva, que está participando da COP15 no Mato Grosso.

Para Velez, os países do Sul Global só vão conseguir transitar para longe dos fósseis com a superação da dependência econômica dos combustíveis fósseis. Ela defende que os países do Sul produtores de petróleo apostem numa nova “economia produtiva e não extrativa” e eliminem os subsídios, tanto à produção quanto ao consumo, porque eles “distorcem completamente o mercado”. E, por fim, colocar a dívida externa em pauta, já que os juros da dívida impedem o pagamento dos compromissos financeiros e os investimentos na transição energética.

Corrêa do Lago chama a atenção para o fato de que já existe informação abundante disponível sobre a dependência dos combustíveis fósseis e sobre alternativas, mas, infelizmente, ressaltou, esses dados são pouco divulgados: “Grande parte do debate ainda se baseia em uma visão antiga da economia, que já mudou significativamente”. Chamou a atenção ainda para o fato de que não existem soluções universais: “Há países desenvolvidos produtores de petróleo, países em desenvolvimento produtores, países dependentes de importação.”

O economista André Andrade, representante do MMA, disse que é preciso ter planejamento, porque uma transição para longe dos fósseis requer previsibilidade. “É preciso definir uma trajetória com marcos ao longo do tempo, que orientem políticas públicas, investimentos e decisões econômicas”. Sem falar no enorme volume de investimentos em infraestrutura, como a expansão de redes elétricas em escala global. E, por fim, defendeu, assegurar segurança econômica e energética, redução pobreza energética e proteção de empregos e receitas. “Sem justiça e sem estabilidade econômica, a transição não se sustenta politicamente — especialmente no contexto atual.”

Nobre foi enfático ao defender que o mundo precisa de um “plano rápido” para zerar o uso de combustíveis fósseis idealmente até 2024 ou, no máximo, até 2045. Observou ainda que a transição para energias renováveis exige o uso intensivo de minerais e terras raras. E, por fim, apresentou o nexo causal entre poluição e mortes: sete milhões de mortes por ano devido a poluição provocada pelos combustíveis fósseis.

A transição não é apenas uma questão climática — é também uma questão de saúde pública e qualidade de vida para bilhões de pessoas”. A dependência de combustíveis fósseis, acrescentou, é “instável, cara e perigosa”. E complementou: “Quanto mais demorarmos para agir, mais difícil será trazer a temperatura de volta.”

Em tempos de guerra, concluiu Corrêa do Lago, é compreensível que governos queiram garantir abastecimento e estabilidade, mas “isso não pode significar abandonar a transição”. Muito pelo contrário, defendeu. “A dependência de combustíveis fósseis não é apenas um problema climático — é um problema de segurança.”

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