Da página Peleja, Facebook
Portugal entra em campo na Copa com camisas inspiradas no mar. A titular tem padrão de ondas, referência ao oceano e homenagem declarada às “raízes marítimas” do país. A reserva também segue o mesmo caminho: base clara, desenhos em verde e uma explicação oficial que fala de cultura marítima, ligação profunda com o mar e orgulho de uma nação de navegadores.
Para Portugal, essa estética parece natural. Para quem olha do Brasil, de Angola, de Moçambique, de Guiné-Bissau, de Cabo Verde, de São Tomé e Príncipe, de Goa ou de Timor-Leste, ela pode soar diferente. Isso porque o mar português também foi rota de colonização, escravização, invasão, exploração e violência.
Essa diferença de como os mesmos símbolos são tratados em cada país acende uma questão: Como Portugal aprende, ensina e debate o seu passado colonial? E por que, da perspectiva do colonizado, pode ser tão estranho ver esses símbolos, que pra uns são glórias, mas pra outros são explorações, sendo exaltados.
Uma seleção nacional não inventa sozinha os símbolos de um país. Ela herda uma memória, que é transformada em camisa, escudo, campanha publicitária, slogan e emoção coletiva. No caso português, essa memória passa por brasões, quinas, cruzes, castelos, esfera armilar, navegadores, caravelas e monumentos aos “descobrimentos”. O problema não é a história de Portugal, mas quando ela aparece quase sempre como glória e nunca mostrando a parte da violência.
Dentro da imagética portuguesa, o mar representa coragem, aventura, expansão, encontro de culturas e orgulho nacional. Para os colonizados, esse mesmo mar lembra outra coisa: navios chegando a um território já habitado, imposição religiosa, exploração, plantation, escravização indígena, tráfico de africanos, mineração, cobrança de impostos coloniais, hierarquia racial e uma sociedade fundada sobre desigualdades que seguem vivas.
O mesmo símbolo que, visto de Lisboa, pode significar grandeza, visto do outro lado pode significar trauma.
Portugal foi uma das grandes potências do tráfico transatlântico de africanos escravizados. Algumas estimativas dão conta de que navios portugueses traficaram quase 6 milhões de africanos, mais do que qualquer outra nação europeia, e muitos deles foram levados ao Brasil.
Quando brasileiros brincam com “devolve nosso ouro”, a piada pode até ser historicamente simplificada, mas aponta para uma questão real: a colonização portuguesa deixou efeitos humanos, sociais, econômicos e ambientais que permanecem muito mais visíveis no Brasil do que em Portugal.
Para o historiador Leonardo Marques, da UFF, o meme pode carregar anacronismos, mas abre uma discussão importante sobre herança colonial e sobre os impactos de longa duração desse processo no Brasil. A questão central é que Portugal aprendeu a se ver como descobridor antes de se ver como colonizador.
A imagem heroica dos “descobrimentos” não é só uma memória antiga. Ela também foi reorganizada, ampliada e usada politicamente no século XX por uma ditadura. O passado marítimo português virou ferramenta de orgulho nacional, pedagogia patriótica e propaganda imperial.
Pesquisas ligadas ao Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra apontam que os manuais escolares portugueses mantiveram abordagens eurocêntricas e formas de naturalizar ou despolitizar temas como colonialismo, escravidão e lutas de libertação africanas.
A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância também recomendou que Portugal revisasse seus livros didáticos para incluir melhor o papel do país na escravidão, na violência colonial e na discriminação contra povos indígenas e populações das ex-colônias.
Isso ajuda a explicar por que muitos portugueses parecem não entender as críticas brasileira e africana. Não é necessariamente porque todos eles defendem conscientemente a colonização. Muitas vezes é porque foram formados dentro de uma narrativa em que Portugal “deu novos mundos ao mundo”, espalhou a língua, navegou com coragem e criou pontes culturais.
Quando se responde com incômodo diante de símbolos marítimos, parte dos portugueses escuta apenas uma ofensa ao passado glorioso do país.
Por conta de tudo isso, a pergunta “por que a seleção de Portugal não aprendeu sobre colonização?” não é para ser interpretada como se Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, Bruno Fernandes ou qualquer jogador tivesse obrigação individual de resolver a história do império português. A seleção é o sintoma, não a causa.
Ela é mais uma vitrine para expor esses símbolos de uma sociedade que ainda convive com essa tensão.
A crítica, em essência, não é contra Portugal ter orgulho da própria história. É contra uma história contada pela metade. Portugal pode celebrar sua literatura, sua cultura, sua língua, sua música, seu futebol, sua arquitetura e até sua relação com o mar.
Mas celebrar as navegações sem falar de colonialismo é como contar a história de um navio olhando apenas para a vela içada, nunca para o porão.







