Proposta de anistia no Congresso é para salvar delinquentes de uma família, diz filho de Jango

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João Vicente Goulart também comenta sobre o legado de Sílvio Tendler, documentarista que morreu na última semana

Por Ana Carolina Vasconcelos e Lucas Salum, compartilhado de BdF




Foto: Filósofo, escritor e político filiado ao PCdoB, Goulart destaca que a possibilidade de punição ao ex-presidente e a militares de alta patente é histórica - Lula Marques/Agência Brasil

Filho do ex-presidente Jango, que teve o seu mandato interrompido pelo golpe militar de 1964, João Vicente Goulart analisa, em entrevista ao Conversa Bem Viver, a reta final do julgamento de Jair Bolsonaro (PL) e outros sete réus no Supremo Tribunal Federal (STF), por tentativa de golpe de Estado.  

Filósofo, escritor e político filiado ao PCdoB, ele destaca que a possibilidade de punição ao ex-presidente e a militares de alta patente é histórica e pode fortalecer a democracia brasileira. Goulart também critica as movimentações da extrema direita no Congresso Nacional, que tenta aprovar um projeto de anistia aos golpistas. 

“A condenação desses militares será, sem dúvida, um novo passo para o fortalecimento da nossa democracia. Essa anistia que está sendo proposta no Congresso é para salvar delinquentes de uma família. A anistia deve ser um sentimento amplo de perdão àqueles que lutaram pela democracia e não àqueles que tentaram derrubar a democracia”, analisa. 

João Vicente Goulart também comenta sobre o legado de Sílvio Tendler, documentarista que morreu na última semana, no dia 5 de setembro, e deixou como legado o filme Jango, sucesso de bilheteria nacional. Foi para essa produção que Wagner Tiso e Milton Nascimento compuseram a música Coração de Estudante

Amigo pessoal de Jango e do seu filho, Tendler também foi responsável por documentar as trajetórias de outras personalidades políticas brasileiras, como Milton Santos, Glauber Rocha, Josué de Castro e Marighella. 

“O Brasil perdeu, sem dúvida alguma, um dos grandes cineastas e documentaristas do país. Nós precisávamos e precisamos muito reconhecer o trabalho de Silvio. Ele nos deixa um acervo muito importante da história da liberdade e da democracia desse país”, comenta o filho de Jango.

Confira a entrevista completa:

Quais são as suas expectativas com a reta final do julgamento de Jair Bolsonaro (PL) e outros sete réus no Supremo Tribunal Federal (STF)? Qual é a importância desse momento para a democracia?

Sobre o julgamento, eu acho que o que está sendo feito pelo Supremo Tribunal Federal é fundamental. Em outras oportunidades tivemos anistia. O presidente Juscelino deu anistia para o golpe branco que o general Lott impediu em 1956, garantindo a posse de Juscelino e Jango.

Nossa democracia jovem está sustentando e superando todas essas dificuldades. A condenação desses militares será, sem dúvida, um novo passo para o fortalecimento da nossa democracia.

A extrema direita está buscando avançar o projeto da anistia na Câmara Federal. Isso te preocupa?

É preocupante, sem dúvida, porque é uma anistia de favorecimento, não é uma anistia de recompor a democracia brasileira. Em 1979 tivemos uma democracia depois de 20 anos de ditadura. Essa anistia que está sendo proposta no Congresso é para salvar delinquentes de uma família. Isso está claro. Lamentavelmente, poderá ter algum resultado. 

Se passar, será vetada, e teremos outra crise pela frente. Mas, assim como as informações do que aconteceu em 1964, há 60 anos, nos trazem a convicção de que não haverá anistia.

A anistia deve ser um sentimento amplo de perdão àqueles que lutaram pela democracia e não àqueles que tentaram derrubar a democracia, como foi essa tentativa de golpe de Estado.

Brasil de Fato – No dia 5 de setembro perdemos o documentarista Silvio Tendler, que acompanhou Jango para produção de um filme. Como era sua relação com ele?

João Vicente Goulart – Nós nos juntamos na época da produção do filme Jango, no fim da ditadura militar. Foi uma ideia da minha irmã e de vários amigos que, naquela época, ainda estavam vivos e que participaram do governo João Goulart — Darcy Ribeiro, Waldir Pires e outros. Juntaram-se vários amigos e um grande artífice daquele momento foi Raul Ryff, que foi secretário de imprensa do meu pai desde a época do Ministério do Trabalho.

Ele tinha vários documentos e acompanhou meu pai  na viagem à União Soviética e na viagem à China. Para o documentário, ele cedeu essas imagens ao Silvio e foi possível construir com muita fidelidade aqueles momentos difíceis da renúncia do presidente Jânio Quadros. Foi aí que eu conheci o Silvio.

Esse grupo de amigos procurava um grande cineasta progressista. E o Silvio, muito jovem ainda nos anos 80, despontou, convenceu esse grupo de colaboradores e amigos do meu pai e assumiu o desafio de um projeto tão importante e tão difícil de ser realizado naquele momento ainda ditatorial, com as reminiscências que vinham no governo Figueiredo.

Então, o Brasil perdeu, sem dúvida alguma, um dos grandes cineastas e documentaristas do país. Nós precisávamos e precisamos muito reconhecer o trabalho de Silvio. Ele nos deixa um acervo muito importante da história da liberdade e da democracia desse país.

A família sente muito e, sem dúvida alguma, o Brasil também está sentindo isso nesse momento. 

Outras figuras importantes na produção do documentário Jango foram Wagner Tiso e Milton Nascimento, que produziram a trilha sonora do filme.  Como foi a participação dos dois?

Wagner Tiso compôs Coração de Estudante para esse filme. A letra veio depois, com o sucesso do filme Jango nas bilheteiras. Acho que hoje é o documentário mais visto no Brasil. Milton Nascimento fez a letra da música, que até hoje representa toda essa dimensão de resistência no Brasil.

Então, Coração de Estudante também está com o coração dolorido pela partida de Silvio.

Como foi a passagem de Sílvio Tendler pelo Chile, quando ele se exilou no país, logo após a ascensão de Salvador Allende?

O Silvio era uma figura internacional. O filme Jango, por exemplo, foi apresentado em Cuba e recebeu o primeiro prêmio. Aqui no Brasil, vários filmes dele também foram premiados. Ele prestou não só um grande trabalho ao Brasil, contando a história nacional por meio dos documentários, mas também da América Latina. Ele extrapolou fronteiras e merece todo o nosso respeito e memória. Vai deixar saudades, sem dúvida alguma.

Sílvio Tendler, junto de Eduardo Coutinho, pode ser considerado um dos maiores documentaristas da história do nosso país?

Existem vários documentaristas. Nós também fizemos com Roberto Faria, o Dossiê Jango, que já é um filme um pouco mais próximo de nosso tempo, porque abarca a Operação Condor, que possivelmente teria abatido Jango. Isso foi tratado em 1984 pelo primeiro filme Jango: Como e Quando se Depõe um Presidente da República do Sul.

Tivemos também, promovido pelo Instituto João Goulart e feito com a TV Senado, o filme Jango em Três Atos, que traz imagens novas, inclusive de um agente secreto uruguaio que estava na prisão. Nós fomos lá, e ele afirma peremptoriamente a troca de remédios do presidente João Goulart.

Então, existem vários documentários. E espero, sinceramente, que continuemos a ter documentaristas nesse sentido. Existem muitas pessoas. Eu acho, por exemplo, que o filme Ainda Estou Aqui despertou novamente uma grande vontade nacional de conhecer a história política do país, muitas vezes esquecida. Vemos agora politicamente a importância disso, quando vemos o ex-presidente da república sendo julgado pelos crimes cometidos contra a democracia. Ainda temos aqueles crimes anistiados em 1979, que precisamos rever.

Virão outros documentaristas. O Brasil tem memória e essa memória vai valer para as novas gerações conhecerem o seu passado para que não repitam as tragédias que nós cometemos antigamente.

Acho que outros filmes virão. Atualmente estamos, com Mauro Farias, pensando em resgatar a história de Jango, mas não mais como documentário, e sim como uma obra de ficção baseada em fatos reais. Já entramos na Ancine e foi aprovado.

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