Por Walter Falceta, jornalista
O primeiro filme que me fascinou, de verdade, foi “Butch Cassidy and Sundance Kid”, obra rebelde de 1969, assinada por George Roy Hill. O título nomeia os personagens de Paul Newman e Robert Redford.
Nesta fita magnífica, o finado do dia exibe toda sua técnica dramática, aprendida, sobretudo, na American Academy of Dramatic Arts, de Nova York.
Mas mostra também sua faceta de artista completo, holístico, que estudara pintura e aprendera outras expressões estéticas em suas longas jornadas em Paris e, sobretudo, em Florença.
No correr lento das décadas, fiquei de olho nessa figura, acompanhando seu filmes, como sua estreia na direção em “Gente como a Gente”, que levou quatro Oscars.
Mas aqui em casa, há gerações, tem aquela coisa do filtro: a gente não gosta das pessoas somente pelo que fazem, mas também pelo que são. Temos familiarmente essa dificuldade em separar obra e autor.
Indico os filmes de RR para os herdeiros porque acredito, também, que ele foi um bom cidadão e uma pessoa solidária.
Ele foi um dos co-fundadores do Sundance Institute, que tem por objetivo fortalecer o cinema independente, valorizar aquela ideia romântica e bacanuda do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”.
Essa iniciativa abriu espaço para narrativas não comerciais, para a experimentação e para a diversidade de olhares sobre a realidade. Dizia pretender imigrantes, negros, mulheres, povos nativos, entre outros grupos oprimidos, atrás das lentes da produção cinematográfica.
Era também apaixonado pela natureza e uma voz permanente no alerta contra o perigo das mudanças climáticas. Foi membro do conselho do Natural Resources Defense Council (NRDC) e participou de muitas campanhas globais em defesa do meio ambiente.
Esteve pelo menos em uma das COPs, e apelou por ação corajosa dos governantes, legislação efetiva e cooperação internacional. Não era um ambientalista que limitava sua intervenção à proteção de árvores, bichos e rios.
Dizia sempre que, no paraíso planetário, era preciso encontrar um lugar de equilíbrio para a inclusão das comunidades humanas, especialmente aquelas vulnerabilizadas pelo capital. Segundo ele, não podia existir pensamento ecológico divorciado da busca por justiça social.
Costumava falar de “lideranças próximas do solo”, como prefeitos, conselheiros locais e chefes de grupos originários, como partes interessadas fundamentais, capilares, no enfrentamento das crises globais.
Redford deu porrada na maior parte dos presidentes republicanos, mesmo sob a ameaça de sofrer boicotes de grandes corporações.
Disse que Richard Nixon era símbolo da corrupção, da manipulação política e do ataque sistemático à liberdade de imprensa e à democracia. Citava sempre o escândalo de Watergate.
Produziu e estrelou “Todos os Homens do Presidente”, de 1976, que mostrou como o jornalismo investigativo expôs o abuso de poder de Nixon.
Ronald Reagan foi querido de muita gente do cinema, mesmo de progressistas. Mas Redford discordou abertamente de suas políticas ambientais e econômicas.
Dizia que Reagan tratava os recursos naturais como mercadoria para exploração ilimitada, sem pensar nas futuras gerações.
Não poupou George W. Bush, especialmente pela Guerra no Iraque, por negar a crise climática e retirar os EUA dos acordos ambientais internacionais.
Há por aí artigos e vídeos em que critica a administração Bush por ignorar a ciência climática e submeter a política a interesses das indústrias transformadora de combustíveis fósseis.
O sujeito em quem mais bateu, no entanto, foi Donald Trump. Criticou veementemente a retirada dos EUA do Acordo de Paris, o desmonte das regulações ambientais, a radicalização política e os ataques à imprensa.
Há um artigo famoso de Redford, de 2019, publicado no Washington Post, em que chama Trump de ameaça à democracia e o acusa de dividir o país e enfraquecer as instituições.
Para o ator, Trump representava “um retrocesso perigoso” em tudo que ele defendia: cultura democrática, ciência, diversidade e responsabilidade ambiental.
Ele não poupou nem mesmo seus aliados democratas, como Bill Clinton e Barack Obama, dos quais cobrou mais ousadia na proteção do meio ambiente e na luta contra a crise climática.
A gente bate forte nos Estados Unidos, especialmente porque a face deste país, hoje, são os corruptos Donald Trump, Marco Rubio e Christopher Landau.
Mas é preciso ter bom senso, olhar de justiça, empatia, e valorizar a contribuição de gente decente, talentosa e generosa, como Robert Redford, ao avanço do rito civilizatório.







