E o doutor em Literatura Cícero César Sotero Batista, na coluna “A César o que é de Cícero”, nos leva à arquitetura de Paulo Mendes da Rocha que, como descobriu nosso cronista, criou um projeto arquitetônico para a nossa Ilha de Paquetá. Este César mora em Nilópolis, mas vive com sua alma em Paquetá.
Li na Folha de São Paulo de onze de agosto que irão lançar um livro com projetos de Paulo Mendes da Rocha. Fiquei interessado, afinal se trata de um arquiteto que teve a coragem de colocar uma piscina pública na cobertura de um prédio do Sesc 24 de Maio em São Paulo. Foi isso mesmo que ele fez ou eu li errado? Seja como for, o interesse baixou quando vi que um exemplar do livro custaria cerca de quinhentos reais. Olhei a carteira. Olhei os cartões. As contas. Olhei para dentro de mim mesmo, para dentro dos bolsos. Decidi adiar o rompante do projeto.
Contudo, confesso que a matéria mexeu comigo. Há em mim um interesse pela arquitetura que não sei direito de onde vem ou como surgiu. Eu não sei desenhar um traço, não sei o que é volume, só sei que “form follows function”, isto é que a forma é determinada pela função.
Talvez seja o caso de pensar como o Chico Buarque, que fez arquitetura*, que fez música popular e literatura, e que escreveu um dos textos mais bacanas que conheço sobre a admiração que temos por Oscar Niemeyer, o “A casa de Oscar”. É a marca da beleza, difícil de superar. É quase como aquele sarrafo lá no alto, lá no alto. A gente admira mais do que teme.
É aquela coisa: você ouve uma música do Tom Jobim e tem aquele espanto. É uma beleza que soa tão natural que parece simples, mas que de simples não tem nada. E as obras do Oscar Niemeyer nos tiram do sério porque há leveza naquele concreto armado todo. Duvida? Dá uma olhada naquele museu em forma de gaivota lá em Niterói. Veja como ele se integra à paisagem, veja como ele é um elemento da paisagem hoje em dia.
Com esses quarenta anos de CIEP, o legado Oscar Niemeyer fica mais uma vez em evidência. Ainda hoje me causa certo espanto ao ver uma escola projetada pelo arquiteto brasileiro mais famoso do século XX. Espanto, não. É algo do sublime. É algo que desconcerta. Já disse e repito: dá vontade de estudar em uma escola assim, uma escola pouco acanhada, uma escola-monumento.
Mas voltemos à resenha do livro do Paulo Mendes da Rocha. Fui passando a matéria até chegar a algumas fotos de projetos do arquiteto. Para meu espanto e felicidade, havia um projeto para fazer construções na ilha de Paquetá (imagem do post). Não sei se o projeto foi à frente, creio que não. Mas como seria bom ter um projeto de Paulo Mendes da Rocha para contemplar na ilha, e para ser contemplado por ela.
Trata-se de três blocos de concretos, cada um em um nível em relação no solo, formando o que se pode imaginar como uma escada. Desta maneira, cada bloco poderia ter o seu quinhão de visão livre do mar. Fico imaginando como seria acordar e dar de cara com aquela beleza todo. É mais inebriante que cocaína, que lança-perfume, que qualquer coisa de acender. É mais inebriante que cachaça, que licor, que cracudinha de Brahma, que beijo de mulher ruiva.
Pensando bem, com quinhentos reais eu passo um dia em Paquetá, que é lugar do povo. É difícil não se emocionar com a chegada do povaréu em Paquetá para curtir um piquenique, para tomar banho de mar, estando o mar liberado para banho ou não. É mais ou menos como colocar uma piscina no último de um prédio do SESC em São Paulo.
Paulo Mendes da Rocha, vou te pular por enquanto. Mas eu volto, pode deixar que eu volto.
*NE: Chico Buarque não concluiu o curso de Arqutetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo, abandonando no terceiro ano para abraçar de vez a música
Paulo Mendes da Rocha frequentou Paquetá na infância, pois na Ilha morava seu avô Francisco. Acesse texto sobre a vida do arquiteto no link abaixo:
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/04.038/673
Sobre o autor
Radicado em Nilópolis, município do Rio de Janeiro, Cícero César Sotero Batista é doutor, mestre e especialista na área da literatura. É casado com Layla Warrak, com quem tem dois filhos, o Francisco e a Cecília, a quem se dedica em tempo integral e um pouco mais, se algum dos dois cair da/e cama.
Ou seja, Cícero César é professor, escritor e pai de dois, não exatamente nessa ordem. É autor do petisco Cartas para Francisco: uma cartografia dos afetos (Kazuá, 2019), Circo (de Bolso) Gilci e está preparando um livro sobre as letras e as crônicas que Aldir Blanc produziu na década de 1970.







